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Quando tinha 18 anos e saí da terrinha para ir estudar Direito para a grande capital, não compreendia muito bem os trabalhadores-estudantes. Não conhecia nenhuns, enfim, e achava que não só eram todos muito mais velhos do que eu, como também que se fossem da minha idade era porque alguma coisa não estava bem.

Associava trabalhadores-estudantes a más notas, a pais solteiros, a tudo e mais alguma coisa menos à verdade. E qual é a verdade?

Muitos poucos anos depois, tive de entrar no mundo dos trabalhadores-estudantes. Acontece que, afinal, um empréstimo para formação universitária não é suficiente quando se tem de pagar renda, despesas, passe, livros, códigos e afins. Comecei por um part-time a recibos verdes na minha área, passei para part-times a contrato na área das vendas (sim, call-centers), e acabei com um full-time a fazer apoio ao cliente para uma operadora de telecomunicações.



Más notas? Não necessariamente. No meu primeiro ano como trabalhadora-estudante, sim, foi difícil. Não consegui gerir bem o meu tempo, dei prioridade a coisas que se calhar não devia ter dado prioridade, e não mantive o foco no que era realmente importante e no único motivo pelo qual me tinha tornado trabalhadora-estudante: a faculdade.

E é normal, vendo bem. De repente todo o tempo livro que tinha para estudar já não é assim tão livre porque é ocupado com o trabalho, e de repente temos que nos preocupar em ter resultados positivos em dois sítios diferentes: a faculdade e o trabalho. Se não tivermos bons resultados no trabalho, somos despedidos; se somos despedidos, não temos dinheiro para pagar a faculdade nem o empréstimo que fizemos para andar na faculdade; se não conseguirmos andar na faculdade, nunca vamos formar-nos na área que queremos e nunca vamos pagar aquele maldito empréstimo.

É, os trabalhadores-estudantes realmente não têm preocupações nenhumas e bem feita por terem piores notas.

Depois habituamo-nos. Já não andamos tão cansados e passamos a ter energia suficiente para ainda estudar depois do trabalho e das aulas; aprendemos que o estatuto de trabalhador-estudante no trabalho afinal serve para alguma coisa; tornamo-nos melhores profissionais e estudantes porque as nossas capacidades de gerir o tempo são praticamente perfeitas. E apesar de termos o melhor dos dois mundos, há sempre algo que nos escapa.

Não podemos ir sair às Quintas-feiras Negras porque no dia a seguir trabalhamos; não podemos ficar a estudar até às 4 da manhã porque no dia a seguir trabalhamos; não podemos ficar na ronha até ao meio-dia e comer pequeno-almoço ao almoço porque às 9 já temos de estar no trabalho e só temos uma hora de almoço; não podemos ir beber imperiais para o Arco do Cego ao fim da tarde porque é a essa hora que saímos do trabalho e ainda temos aulas a seguir; não podemos ir ao Encontro Nacional dos estudantes do nosso curso porque apanha também dias de semana e temos de trabalhar e não podemos pôr férias com tão pouca antecedência; não aproveitas o fim-de-semana como deve ser porque é das poucas alturas em que tens tempo livre para estudar; não consegues ir a aulas extra porque calham sempre no teu horário de trabalho.

Os trabalhadores-estudantes não têm mal nenhum. Ainda hoje em dia vejo anúncios para alugueres de quartos e vejo especificamente a pedirem para serem ‘apenas estudantes’ e pergunto-me: mas que mal é que nós temos? Não temos mal nenhum. Até somos mais organizados e mais sossegados que um estudante normal.

Resumindo e concluindo: devido a várias circunstâncias pessoais e privadas, os trabalhadores-estudantes não têm a sorte de se dedicarem única e exclusivamente aos estudos. Pode ser por vários motivos: podem ser mais velhos, lá está, e decidirem agora tirar a licenciatura; podem ser pessoas que devido a problemas financeiros dos pais não têm a possibilidade de ser suportados por eles, mas que não são elegíveis para uma bolsa de estudo; podem ser pessoas de todo o tipo e feitio.

Uma coisa é certa: ninguém se esforça mais do que um trabalhador-estudante e ninguém valoriza mais a faculdade do que um trabalhador-estudante. E, infelizmente, só quando já não temos a sorte de ter uma coisa é que a aprendemos a valorizar.

Por isso, se tens de começar a trabalhar e a estudar ao mesmo tempo e tens receio de que corra tudo mal, não te preocupes: pode não ser o ideal, mas a experiência ninguém ta tira.

Além disso, existem muitos pontos positivos em se ser trabalhador-estudante: um 10 vale por um 20; conseguires participar nas aulas práticas é um verdadeiro feito; conseguires tirar uma tarde ou uma noite para estudar sabe-te melhor que passares a tarde a jogar no computador. Ok, não há assim tantos pontos positivos, mas a verdade é que cada pequena coisa, que para os estudantes ditos ‘normais’ é só mais uma e chega a ser até insignificante, para nós é tudo.

No fundo é isto: ninguém sente mais as pequenas vitórias do que um trabalhador-estudante.

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Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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