Chegou o momento tão aguardado. Após vários anos de estudo afincado, compromissos feitos connosco e com quem nos apoia, alguns sacrifícios e muita expectativa, a altura das colocações. Este deveria ser um momento de grande alegria, a recompensa por todo um trabalho que, para muitos, começa anos antes, quando dizemos pela primeira vez em resposta à costumeira pergunta “o que queres ser quando fores grande?”: “quero ser médica”.

Mas o que fazer quando tentámos e não conseguimos? Como gerir as expectativas, nossas e da nossa família, amigos e até professores, quando nos apercebemos que ficámos de fora? Qual o melhor caminho a seguir?



Claro que esta é uma pergunta a que só o próprio pode responder. Eu já fiquei de fora de uma colocação em Medicina várias vezes, e de cada vez reagi de forma diferente.

Desde que deixei de querer ser cabeleireira de casamentos aos 6 anos de idade que quero ser médica. Contudo, ao ver que talvez não conseguisse entrar à primeira, concorri como plano B para Ciências Farmacêuticas. A escolha de um curso como plano B deve ser consciente: tentei conciliar as potenciais equivalências com alguma coisa que me visse minimamente a fazer no futuro. Acabei por entrar em CF e, com algumas tentativas de entrada em Medicina pelo meio (que incluíram conciliar o curso com os exames nacionais, mas também estar um ano parada a preparar-me apenas para estes últimos), concluí o curso e cheguei a trabalhar. Reconheço que ganhei muito com estes anos de farmácia: tornei-me mais calma e sei lidar melhor com a frustração e o medo de falhar, mas também ganhei um sentido de responsabilidade que só se consegue com uma passagem pelo mercado de trabalho. Para além disso espero conseguir ser uma melhor médica do que seria se tivesse entrado à primeira tentativa, porque agora acredito na importância de uma verdadeira equipa multidisciplinar e nutro um maior respeito por todas as profissões ligadas à saúde.

Este processo não teve só vantagens. Assim que me apercebi que não iria de todo ser feliz como farmacêutica tive de lidar com o medo de nunca conseguir entrar em Medicina, mas também com sentimentos de fracasso e desilusão para com a minha família (que felizmente sempre me apoiou) e comigo própria.

A minha história culmina com um final (que é apenas mais um início) feliz, porque acabei por entrar em Medicina pelo concurso especial para titulares de Licenciatura.

Não existe um método infalível para tentar de novo Medicina quando não se entra à primeira tentativa, mas primeiro que tudo há que responder às seguintes perguntas: há algo que me veja a fazer para além de Medicina? Será que coloquei outras opções na minha candidatura? Devo ir para outro curso? Devo ficar um ano parado? Estas duas alternativas são as imediatas à maioria dos candidatos.



 

Como é conciliar um curso com o estudo para os exames?

É difícil. No meu caso não resultou, mas todos os anos entram pessoas que estiveram o ano lectivo anterior (completo ou não) noutro curso, tendo repetido os exames nacionais. O que precisas de ser: organizado! Um curso superior, se feito com o mínimo de brio, exige trabalho mais ou menos regular. O estudo para os exames nacionais também! O melhor será dividir a matéria dos exames em partes e distribuir o estudo ao longo do ano lectivo inteiro, salvaguardando as épocas de exames da faculdade. Porque não contemplar no horário das aulas algumas horas para o estudo dos exames nacionais? Uma alternativa é ter um 2º semestre o mais leve possível. No fundo é uma questão de se estabelecer prioridades e pensar “o que é que eu prefiro?”, e agir em conformidade. Eu não fui a todas as festas e não aproveitei o meu ano de caloira em CF e não me arrependo, afinal eu estava a fazer por mim. Será demasiado pedir isto a pessoas de 17/18 anos? Será a maturidade ou falta dela um factor determinante para a escolha de tentar conciliar um curso com o estudo para os exames nacionais? Não me parece.

Vantagens

  • Cresce-se e ganha-se maturidade
  • Ganha-se um maior ritmo de estudo
  • Conhecem-se pessoas novas, algumas com iguais objectivos
  • Aprende-se a respeitar melhor o trabalho das outras profissões em saúde

Desvantagens

  • Potenciais encargos financeiros
  • Possível deslumbramento com a vida académica e perda do foco no objectivo
  • Potenciais perdas de tempo com o estudo para o curso



 

Como é estar um ano parado a estudar apenas para os exames?

É emocionalmente desgastante. Em alguns dias o estudo corre bem, noutros não e tive de aprender a lidar com essas situações. O facto de o único verdadeiro momento de avaliação, em que ia ser posta à prova e demonstrar que o esforço de 9 meses valeu a pena, é a altura dos exames nacionais, e isso pode ser assustador. Pensamentos como “e se no fim isto não resultar é porque nunca vou entrar, porque mesmo estando um ano focada apenas nisto não consigo, então a fazer outras coisas muito menos” podem ser problemáticos e é importante tentar não estar sozinho. O apoio da família torna-se fundamental, não a nível emocional mas também logístico!

Se, quando tentas conciliar um curso com o estudo para os exames nacionais tens de ser organizado de modo a conseguir cumprir com tudo, quando estudas apenas para os exames tens de sê-lo também: mais uma vez é muito fácil perderes o controlo do teu estudo, e fazer um calendário só traz vantagens. Porque não criar um sistema de objectivos/recompensas? Aquele filme que queres muito ir ver ao cinema com os teus amigos, poderás ir se até ao fim do mês tiveres a X unidade da disciplina Y estudada e revista. Esta abordagem ajuda a manter a motivação. Estar um ano lectivo inteiro a estudar em casa (ou na biblioteca) para 9 horas de exames que acontecerão apenas em Junho é comparável a correr uma maratona: é necessário treino, determinação, alguma coragem e muito auto controlo.

Vantagens

  • Economicamente favorável
  • Total concentração nos exames nacionais
  • Construção do nosso próprio horário
  • Possibilidade de arranjar um hobby, fazer voluntariado, arranjar um trabalho ou viajar

Desvantagens

  • Emocionalmente difícil
  • Risco de solidão
  • Maior vulnerabilidade a pressões externas e internas
  • Potencial exacerbação do sentimento de “ano perdido”

 

Em ambos os casos é importante tentares-te rodear de pessoas que gostam de ti: ninguém precisa de discursos desmoralizantes.

Se é este o teu sonho, se não correu bem à primeira tentativa, não faz mal! Não desmoralizes, e demore o tempo que demorar (eu demorei 8 anos até finalmente entrar e agora tenho um curso inteiro para fazer), um dia seremos todos médicos 🙂

Colabora!

Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

Gostavas de publicar um texto? Colabora connosco.