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Os teus medos teriam de se anular em prol do tempo que te restava. A tua ânsia por descobrir o propósito deste fim teria de ser inferior ao amor que te resta. O pânico seria estrondosamente maior que o provocado pelo noticiário e o ser humano beberia da sua própria efemeridade.

Mas o universo permitiu-nos pensar, parar, ponderar. Neste momento, estarias onde sempre quiseste estar? Alcançaste algo de substancial neste teu ínfimo trajeto de vida? Que diriam disto as pessoas que partiram? Que dirão lá no céu sossegado acerca desta alarmante terra? Que diria Saramago ou Pessoa? Que diriam os filósofos gregos ou os exércitos romanos? Viveríamos as últimas horas com nostalgia daquilo que fomos ou gratidão pelo que conquistámos? Estaríamos perto do sucesso ou às portas da decadência? Perto de ser felizes ou a esperança na humanidade continuaria a ser uma miragem? É tempo de refletir, vestir a quarentena e a dignidade.



Afinal, quem somos, nós, raça humana? Aqueles que não desistem da comunidade até ao último segundo ou aqueles que salvam apenas o seu barco com lugar para poucos? Aqueles que fazem da religião a sua filosofia de vida ou aqueles que se limitam a ser falsos fiéis nas horas difíceis?
Se nos julgávamos os seres apaixonantes e inspiradores desenhados por Deus, hoje sabemos que somos a praga do meio ambiente, da poluição, dos combustíveis fósseis, a mesma praga a quem talvez Deus queira dar uma lição.

Hoje valorizamos as relações humanas que nos deram horas de felicidade na esplanada, que nos ofereceram a sua paciência nos shoppings, aqueles que tiraram a sua folga para ir beber um café connosco, aqueles que sempre foram parceiros fiéis das festas à noite, os parceiros dos filmes no cinema, os parceiros dos jantares nos restaurantes da cidade, os parceiros do carnaval e do halloween, os colegas de trabalho e até os desconhecidos que íamos conhecendo quando a liberdade ainda era a nossa maior crença.

Esta é uma avalanche que diminui o ser humano e as suas excentricidades. Percebemos que a vida social nos preenchia todo o tempo, mas seria essa a nossa essência? O que resta fora dos eventos sociais? Resta o culto da nossa alma, resta a gratidão da nossa existência e o apelo ao silêncio interior. Todos falam também da valorização do abraço, muitos deles são quem nunca abraça ninguém frequentemente e que, numa tentativa de suplicar por essa oportunidade e refazer o que nunca fez, profere o valor do abraço.

Estes são tempos em que as pessoas se arrependem daquilo que não fizeram, que olham para a estupidez de nunca terem beijado ou abraçado em tempos saudáveis. Tudo o que fazia parte do pré-vírus é algo que se vai tornar sagrado nesta jornada, na tentativa de remediar o pós-vírus, e será que ainda vamos a tempo? Ou poderemos continuar a brincar com a humanidade às escondidas?

Sempre julgámos que os fatores naturais eram os parasitas quando chega um vírus e nos diz que os parasitas somos nós. Um vírus que chegou de mansinho e nos possibilitou, num ponto inicial, ironizar e desvalorizar a situação, até nos provar que era mais forte do que isso. Um vírus que, agora, nos faz olhar à saúde do próximo, perceber de onde veio e se tem aspeto saudável, quando antes isso era totalmente irrelevante. Um vírus que colocou os pais a amar os filhos não amados, a podar o jardim outrora desprezado, a limpar a casa apenas limpa pela empregada, um vírus que trouxe uma prioridade individual requintada, um propósito de simplicidade. Um vírus que nos tornou a todos conscientes daquilo que é uma ação coletiva e comunitária. Um vírus que nos faz padecer a saúde, mas que nos fez entender que é nesse ponto em que somos verdadeiramente iguais. Um vírus que nos tornou a todos como não consumidores, não exuberantes, não vaidosos. Um vírus que diluiu partidos políticos e unificou as suas vozes. Um vírus que nos colocou o futuro como uma nuvem negra mas o presente como uma luta de união nítida e convicta. Um vírus que colocou profissionais a lutar por todos e a ser aplaudidos pelo país. Um vírus que nos fez olhar ao esforço das profissões mais necessárias. Será um altruísmo forçado ou a humanidade a vir ao de cima?

Deixou de se pedir empréstimos para aquilo que não se precisa, olhou-se apenas aos bens essenciais, deixou de haver azáfama nos semáforos todas as manhãs, deixou de se olhar a caixas a faturar e a números a subir, deixou de se procurar a aprovação pessoal nos outros, porque isso era de âmbito social. Deixámos o social e agarrámos o individual. Deixou de se planear o dia de amanhã e apenas sobrou espaço para se viver lentamente e sem expectativas o presente.

As sensações são ainda hoje estranhas porque ninguém sabe lidar consigo mesmo, o ser humano é incapaz de se sentar à mesa consigo próprio, de estabelecer conversas mentais com a sua singularidade e, principalmente, de permitir que a solidão lhe possa expandir a intelectualidade. Para todos os saudáveis vos digo que isto é uma oportunidade de se conhecerem. E tudo porque o universo nos deu o bem mais precioso: o tempo. Vivíamos numa sociedade de pressa e tensão temporal, mas que nos fazia acreditar que tudo estava garantido. Hoje saboreamos o tempo da escolha, da refleção, o nosso tempo de vida, e isso dá-nos lucidez para entender que nada é garantido nem possível de se extrapolar além dos nossos pequenos sonhos terrestres. A natureza calou-nos. Sempre nos achámos o topo do mundo, quando nem no topo do Everest conseguiríamos resistir. Temos um papel igualitário comparativamente a todas as outras espécies e sempre nos recusámos a essa simbiose. O protagonismo deixa de existir quando se fala de destruir o mundo. Somos pequeninos. Somos meros residentes num planeta que durante milhões de anos não foi nosso. Sempre fomos os primeiros a chegar à festa para a qual nem sequer tivémos convite. Somos somente visitantes com bilhete de ida e volta. Aos poucos estamos a tomar consciência de qual a melhor arma a usar: o amor. O amor em tempos de cólera, como diria a literatura. Da mesma forma que um vírus sem rosto nos assolou, também a solução ultrapassará o mundo físico. O amor é essa chave multiplicadora de resistência, de coragem e de fé. O amor foi escrito pela raça humana e por isso seremos os mais habilitados a praticá-lo. Nem que a última palavra que disseres atrás da tua máscara for “amo-te”.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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