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Educação e saúde mental: conversemos (mais) sobre a temática


Recentemente foi publicado um Despacho, em Diário da República, através do qual o governo passa a limitar (ainda mais) a venda nas escolas públicas de produtos considerados prejudiciais à saúde das/os alunas/os. Discorde-se ou concorde-se com estas restrições, certo é que existe aqui uma tentativa de perceber melhor a saúde física das/os mais jovens e os modos de a promover. No entanto, venho introduzir uma outra dimensão: e a saúde mental?

Por favor, para quem conhece o conceito de whataboutism, não o desejo invocar neste contexto de escrita. Não é a minha intenção desvalorizar as medidas que o poder central elaborou relativamente à alimentação nas instituições escolares já referenciadas, mas sim simplesmente trazer ao debate a saúde mental e a sua relação com a educação. Isto porque, num mundo que desejamos mais informado, a escola não pode escusar-se da responsabilidade que é compreender as vivências e as representações das/os suas/seus estudantes. Ou melhor: para além de não poder desistir desse entendimento, deve estar na vanguarda dos pensamentos e das ações que protejam e promovam a saúde mental das crianças e das/os jovens (claro, de todas/os as/os trabalhadoras/os dos recintos escolares também).

Há um texto no jornal Público, do Professor em Ensino Básico e Secundário Emanuel Barbeitos, que traça muito bem as/os alunas/os que hoje encontramos no universo educativo. O artigo de opinião aborda a construção social e psicológica da felicidade, mas começa por salientar um diálogo entre aquele docente e as/os respetivas/os discentes sobre o estado anímico destas/es últimas/os. Conclusão: o professor questiona qual a razão da existência da ansiedade das/os alunas/os e um responde, assertivamente, que é a sociedade, a entidade vaga que invocamos para justificar vários dos nossos problemas, mas que não deixa de nos exercer os seus constrangimentos. Barbeitos afirma, pois, que nunca se deparou com tantas/os alunas/os com transtornos de ansiedade e síndromes do pânico. Se essa ansiedade é amplificada pela escola ou não, nem sempre sabemos; contudo, o principal objetivo é o de que, contando que a escola faz parte da tal “sociedade” por ser uma instituição que nela funciona, todas/os trabalhem para atenuar as manifestações mais dolorosas das perturbações psicológicas e psiquiátricas.

O meu ponto é, portanto, o de que a educação deve ter um papel privilegiado relativamente a uma reflexão esclarecida e a uma tomada de posição responsável quando discutimos a saúde mental. Mesmo sabendo que tenho falado muito das instituições escolares, mantenho o argumento para o ensino superior, o qual, dada a suposta maturidade da sua população-alvo ou frequentadora, é muitas vezes olvidado deste assunto (a pandemia ajudou a reverter pelo menos um pouco essa situação). Há um desconhecimento constante do potencial da pedagogia, pelas pessoas em geral e por entidades políticas e diretoras em particular, para a saúde mental. O que não faltam são estudos e informações de outras vias acerca deste tema – de onde nascem debates sobre fenómenos de violência infantil, violência familiar e no namoro, discriminações múltiplas, abuso de substâncias e práticas desviantes, etc. – pelo que o apelo é o de uma acrescida consciencialização e valorização desta ligação entre educação e saúde psicológica e das suas consequências sociais, sob pena de estarmos a intensificar os sintomas que o Professor Emanuel Barbeitos identificou e que um crescendo de docentes irá e continuará, certamente, a identificar.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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