(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Como surgiu o ensino público?

Muito tempo antes de se idealizar um sistema de escolaridade pública universal, a sabedoria era transmitida apenas a aquelas crianças pertencentes às classes altas burguesas, nessa época o ensino era visto individualmente e como uma transferência de conhecimento do “mestre” para o “aprendiz”. Com a chegada da revolução industrial de forma mais acentuada em meados do século XIX, começou a haver uma melhoria das condições de vida das classes mais desfavorecidas da sociedade dos países industrializados, e como consequência disso também a necessidade de trabalhadores mais instruídos, que soubessem ler e escrever, fundamentalmente. Foi também nesse período que começaram a surgir os movimentos marxistas e comunistas em defesa dos trabalhadores e dos  direitos dos seus filhos a uma educação pública. E devido a essa “luta” entre o proletariado e a burguesia, desenvolveu-se então um sistema de ensino público, no entanto este sistema continuava a perpetuar muitas das diferenças presentes na sociedade de então, uma vez que os alunos mais desfavorecidos não tinham dinheiro para poderem comprar os livros, muitos desses alunos estudavam e trabalhavam (quer fosse em campos agrícolas ou em indústrias), as meninas, na sua maioria só estudavam até ao fim do ensino primário, e todas estas vicissitudes faziam com que estas crianças deixassem de estudar devido à dificuldade de aprendizagem em relação aos colegas “burgueses”, e eram muitas das vezes humilhados por essa razão, quando na verdade poderiam até ter as mesmas capacidades ou até mais do que esses colegas mas pelo simples facto de não terem acesso aos mesmos recursos, não conseguiam aprender, e no final aqueles que conseguiam continuar os estudos eram as crianças “burguesas” que depois viriam a ter acesso a melhores condições de vida precisamente pelos seus estudos, ou seja a escola pública continuava a perpetuar a riqueza de quem mais tinha, e a pobreza de quem menos tinha.



O método de ensino

A forma como os conteúdos eram leccionados no século XIX, visava sobretudo manter a disciplina perante uma figura de autoridade (professor ou professora), algo que preparava bem os alunos para obedecer a regimes autoritários(ditaduras), mesmo que não conseguissem compreender os conteúdos leccionados, nas escolas os vários governos dos diversos países impunham as suas mensagens nos conteúdos leccionados e nos símbolos presentes nas salas de aulas.

O método de ensino utilizado naquela época era expositivo, no qual o professor escrevia os conteúdos a giz num quadro de lousa, os alunos copiavam para os seus cadernos, ou memorizavam (aqueles que não podiam ter cadernos), depois havia um exame extenso e escrito no qual os alunos mostravam aquilo que sabiam (ou aquilo que tinham memorizado) e aqueles que não aprovassem tinham que repetir novamente o ano.

Este método era do século XIX, mas e hoje em dia qual é o método de ensino usado?

Analisando o sistema educativo português em concreto e na sua generalidade, podemos dizer que nas escolas primárias o professor escreve os conteúdos num quadro talvez agora magnético e não de lousa e os alunos copiam para o seus cadernos. Alguma semelhança com o século XIX?

O professor também ordena trabalhos para casa, que regra geral são exercícios dos livros, os alunos chegam a casa e aqueles cujas famílias não têm muitos recursos financeiros já têm os exercícios resolvidos porque o livro que usam é do ano anterior e alguém já escreveu no livro, fazendo com que esses alunos não tenham que pensar muito nas soluções para os problemas, o que poderá torná-los menos capacitados que outros colegas com mais recursos. Alguma semelhança com o século XIX?.

O ano lectivo está dividido por períodos, e ao longo de cada período existem testes nos quais cada aluno mostra o que sabe ou que memorizou, e aqueles que não aprovarem nesses testes, têm de repetir o ano. Alguma semelhança com o século XIX?

Já no ensino secundário, os alunos continuam a “aprender” segundo este método de ensino, sendo que têm que memorizar matérias para fazer exames que englobam conteúdos de dois anos e de três anos. Além disso devido à extensividade e complexidade dos conteúdos, aqueles alunos oriundos de famílias com maior capacidade financeira podem frequentar apoios individuais especializados (também conhecidos como explicações), ao contrário daqueles colegas com menos recursos, que têm assim muita mais dificuldade em perceber os conteúdos. Alguma semelhança com o século XIX?

No ensino universitário, o método de ensino será diferente? A resposta infelizmente é não, por estranho que possa parecer e apesar de nas universidades o docente ter mais liberdade em termos escolha de conteúdos e de métodos de ensino, a quase totalidade dos docentes universitários em Portugal continuam a ser bastante conservadores e a cair no mesmo erro de seguir modelos educativos do século XIX e não adequá-los ao século XXI.

Mas vamos a exemplos concretos: na minha experiência quando entrei para o ensino universitário, dos primeiros conceitos que fiquei a saber foi o de existirem aulas teóricas e aulas práticas, algo interessante, no entanto aquilo que normalmente acontece é que nas aulas teóricas a maioria dos docentes não estão minimamente interessados em saber se os alunos estão a perceber os conteúdos ou não, simplesmente seguem o modelo de ensino expositivo, mostram um conjuntos de slides e durante a aula toda é só isso, uma pessoa a falar ou a ler os slides dos conteúdos, depois cabe ao aluno chegar casa e memorizar os slides, para depois “despejá-los” nos testes das unidades curriculares. Nas aulas práticas, essas que à partida seriam mais úteis, aquilo que se faz é ver o professor a resolver exercícios, copiar para o caderno e depois memorizar as resoluções para aplicá-las nos testes, além disso muitos docentes não elaboram um plano de aula e quando estão a resolver os exercícios perdem-se, erram as soluções, perdendo-se algum tempo útil de aula nestes atrasos. Analisando isto perguntei várias vezes, qual é a diferença entre ter um professor a ler o slides numa aula ou eu estar em casa a ler os slides? Qual é a diferença entre ver o professor a resolver os exercícios ou ver um vídeo a resolver o mesmo exercício?

E é precisamente estas perguntas que os docentes, os diretores de cursos, os reitores das universidades portuguesas devem fazer-se, porque a continuar com este conservadorismo das metodologias de ensino, vamos formar graduados que vão estar em desvantagem comparativamente a outros de outras universidades onde se começam a implementar novas metodologias de ensino, e depois é esperar que não haja “gerações perdidas”, por culpa da falta de qualidade do ensino universitário português.

Quais a soluções?

Como é óbvio, uma solução definitiva será sempre discutível e difícil de alcançar, mas para isso existem as associações académicas que representam os estudantes, ou até mesmo inquéritos feitos diretamente aos mesmos.

Na minha opinião penso que se devia deixar seguir o modelo atual (expositivo), e introduzir os conceitos do método Problem Based Learning ou aprendizagem baseada em problemas, segundo o qual problemas do mundo real são usados para os alunos poderem adquirir conhecimentos através de trabalhos em equipa, aumentando assim não só a compreensão dos conteúdos leccionados, como também a aplicabilidade dos mesmos, além disso também se poderia retirar conceitos interessantes de outros sistemas educativos como o caso do sistema Finlandês, no qual os alunos têm cerca de cinco horas de aulas por dia, com vários intervalos de vinte minutos, sendo que por dia normalmente apenas são lecionadas duas disciplinas.

Ao longo do meu percurso académico presenciei vários factos, desde as escolas primárias que ainda tinham na parede um crucifixo e a professora “mantinha a ordem” com um vara de madeira, (e isto foi em 2003, não há tanto tempo), desde nas escolas secundárias não ter apoios a certas disciplinas que outros colegas tinham e depois ter mais dificuldade em perceber os conteúdos, desde nas universidades onde os professores eram distantes e não estavam minimamente interessados em que aprendesse,(recordo-me até de um professor que dizia nas aulas, que quer os alunos aprendessem ou não, ele recebia o ordenado na mesma, achando ele que com esta frase nos estava a motivar), mas como eu existem milhares de estudantes que passaram por situações destas, e é por isso que é necessário inovar e melhorar o nosso sistema de ensino, e não é só com livros grátis ou com a abolição de alguns exames que se faz isso, é preciso melhorar os conteúdos, melhorar a forma como estes são leccionados, e sobretudo focar o ensino não no aluno ou no docente, mas sim na relação entre alunos e docente, e de que forma se poderá obter o melhor resultado desta relação que deve ser mutualista.

Colabora!

Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

Gostavas de publicar um texto? Colabora connosco.