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Sempre ouvir dizer que ser um entrevistando é saber vender o nosso peixe, é transmitir boa impressão, mas não creio que se tenha de vender coisa alguma, até porque a maioria dos vendedores são aqueles que não acreditam verdadeiramente no seu produto e por isso mesmo precisam de propaganda. Não precisas de te bajular, precisas de te apresentar. Mostrar a realidade que és e que esperas de um trabalho. A loja que tu gostas de frequentar não precisa de panfletos para que entres nela, tal como uma loja que não aprecias te irá convencer com floreados. A loja que gostas deixa em ti uma expectativa confortante que não é nada mais do que uma segurança de que vais gostar daquilo que vais encontrar. É exatamente essa expectativa de caráter profissional, essa segurança nas tuas convicções e moldes de trabalho que deves semear no entrevistador. Assim tornar-te-às numa crença.



Também não creio que uma entrevista se tenha de arquitetar em torno de uma falácia de apelo ao sentimento em que a impressão afetiva se sobrepõe à curiosidade profissional. Não procuramos criar laços, procuramos um futuro sólido em que possamos oferecer também um conhecimento sólido e recetivo a evoluir. É fundamental esse traço de adaptabilidade, de resiliência face a qualquer circunstância. A empresa já vai ter uma equipa formada e ambientada à sua rotina e local de trabalho, pelo que tu vais ser o fator diferença, vais ser o elemento novo, a lupa vai recair sobre ti e, assim, é fulcral a ambientação psicológica e a praticidade face às ordens. Encara com normalidade aquilo que por dentro te poderá afetar, não por parecer bem, mas por criares em ti esse hábito de força interior. Serve para o trabalho e serve para a vida. É bem diferente de seres submisso. Podes estar calmo e seres respeitador face a uma situação que te incomoda, o que não te impede de verbalizar a tua ideia. Dá a tua opinião, liberta-te, e procura dizer sempre algo construtivo, porque por mais radical que seja a tua ideia, se a disseres de forma construtiva, com uma lição subjacente, nunca te irás arrepender de a dizer. A melhor forma de conquistar inconscientemente o próximo é torná-lo uma pessoa melhor. Ninguém se esquecerá do teu altruísmo, da tua maturidade em escolher as palavras. 

É cliché pedir para que sejas tu próprio numa entrevista, mas é tão simples quanto isso, porque criar imagens erradas de nós mesmos vai tornar a nossa versão original um erro. Rapidamente passamos a ser quem nós não queremos aceitar e nos tornamos na nossa própria deceção. E encontrar um emprego não pode pisar assim a nossa identidade. Trabalha-se para sustento, regra geral, não para terapia de choque psicológico. E essa questão é fundamental: conhecermo-nos como mais ninguém nos conhece. Estar apto a reconhecer humildemente qualidades e defeitos, vitórias e fragilidades. Isso fará de nós conhecedores de todo o nosso espetro, e a isso chamo de auto-perspicácia. Esse conceito também se desdobra em mostrar várias vezes aquilo que sabemos que fazemos bem, mas também não ter medo de sair da zona de conforto e de errar. Mostrar que não se enfrenta um medo é mais receoso do que o ter. O erro é só a evolução no seu estado prematuro. 

Depois vem a questão do discurso. Não precisamos de eloquência quando somos sensatos, precisamos apenas de transparência, de honestidade. Usar palavras sem as sentir é algo desmascarado pelos olhos. E tudo isso só é possível se preservarmos a calma em nós, porque a calma vai ser aliada do nosso estado natural, sem filtros. A calma permite-nos responder a perguntas complexas de forma mais fácil. Imaginar que estamos num sítio amplo com natureza e paz, sem um entrevistador à frente, eleva-nos a criatividade de resposta pelo conforto que nós próprios nos proporcionamos e nos permitimos.

Outro ponto fulcral é a preparação para a entrevista. Ela simplesmente não deve existir! Não devem existir papéis, possíveis perguntas escritas, possíveis respostas, não deve existir qualquer tipo de antecipação porque isso é sinónimo de nervosismo e temor. Sempre que tentamos antecipar algo estamos forçosamente a planear. Somos capazes de imaginar o cenário, até a cor das paredes e a forma da cadeira, e todas as possíveis feições do entrevistador. Isso vai reduzir o leque de possibilidades daquilo que somos, vai tolher a nossa adaptação. Se chegamos ao local e nada é como esperamos existe automaticamente uma queda da nossa confiança, é como se o nosso inconsciente dissesse “se não foste capaz de prever o cenário, como serás capaz de antecipar boas respostas?”. Por isso dorme pacificamente como se no dia seguinte fosse somente mais um dia, porque de facto o é.

Esse tópico da confiança é outro grande pilar. Não existem formas perfeitas ou padronizadas de explicares em que consistiu o teu curso ou os teus estágios, porque o teu percurso não é, por si só, um padrão porque não há currículos iguais. Ao passares na prática por um curso de três, quatro ou cinco anos, logicamente saberás abordar de forma simplista o que aprendeste. Não precisas de discurso, precisas apenas de alguma memória. Só quando aceitares isso é que a tua confiança estará pronta.

Lembra-te: tu és o teu melhor argumento.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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