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Emigrar é uma mudança enorme. Embora não me considere ainda um emigrante. Ainda assim, emigrei e lá estou. Saí para estudar. O futuro que queria não podia ser em Portugal. Então saí. A princípio reticente, depois entusiasmado. Para lá chegar, muito tive de fazer, por muitas peripécias passei. Ainda assim, consegui. Do secundário para uma universidade estrangeira. Uma mudança enorme.

Os primeiros tempos foram… movimentados, à falta de palavra melhor (que apenas encontro no inglês, eventful). Comprar tudo o que é necessário para começar uma vida nova, conhecer novas pessoas numa realidade em que cada uma das pessoas que via era um desconhecido, despedir-me dos meus pais e vê-los a afastarem-se com lágrimas nos olhos, eles a quem muito raramente vejo chorar, habituar-me a uma nova língua (que agora, em retrospetiva, vejo que não sabia falar decentemente), a uma nova forma de aprender, à vida de adulto. Foi um início que mexeu com as minhas emoções. O que vale é que domino (na minha opinião) bem as minhas emoções.



Para além de agitados, nos primeiros tempos eu sentia-me estranho. Sentia-me estranho porque estava a explorar um quarto escuro às apalpadelas. Quarto escuro esse que representa a cultura britânica. Vendo de longe, não parece ser muito diferente da portuguesa. Mas, quando nos aproximamos, vemos aqui e ali pequenas diferenças. E essas pequenas diferenças acabam por se acumular para formar uma grande diferença.

Eu estava, portanto, a tentar aprender a viver da maneira britânica, a tentar apreender aquelas regras sagradas que não estão escritas em lado nenhum, mas que toda a gente respeita. Isto era estranho para mim porque eu sou uma pessoa bastante anormal. Qualquer pessoa que me conheça vai concordar com esta afirmação. Muitas das coisas que são mais minhas, que me definem em larga escala, são coisas que não são normais (uso normal aqui para me referir à forma como a maioria das pessoas se comporta). Ser anormal é das coisas de que mais tenho orgulho em mim.

Ora, enquanto tentava mapear aquele quarto escuro às apalpadelas, a minha anormalidade foi algo que acabei por suprimir, porque não a queria a derrubar os eventuais vasos chineses da dinastia Ming que pudessem estar no quarto (estou a estender um pouco a metáfora, espero que continuem a acompanhar). E isto acabou por, sem eu dar muito por isso, afetar um pouco a experiência que estava a ter. E por isso sentia-me estranho.

Eventualmente, acabei por perceber o que tinha subconscientemente estado a fazer durante meses, e apercebi-me de que, para realmente desfrutar do que estava a viver, tinha de voltar a ser quem era, tinha de trazer a anormalidade de volta à minha pessoa. Foi o que fiz. E desde aí que tudo voltou ao normal e as pequenas nuvens que estavam a cobrir o sol da minha felicidade afastaram-se a deixaram o dito sol brilhar em todo o seu esplendor.

Tenho, portanto, conselhos. São os conselhos de alguém que teve de se habituar a outro país, mas creio que podem ser também úteis para quem fica a estudar em Portugal, mas longe de casa. Ou mesmo perto de casa. Não sei, vocês que me digam.

Não há nada que possam fazer para evitar aquele período de adaptação, porque é algo necessário para que não acabem, por exemplo, na Arábia Saudita com um coto ao invés da vossa mão esquerda porque não sabiam que lá cortam a mão a quem é apanhado a roubar (não tenho a certeza se ainda se faz isso, mas costumava ser algo bastante comum). Obviamente que este é um exemplo muito extremo, mas quero apenas fazer-vos entender que há certas coisas que são muito ofensivas ou inapropriadas, e vocês só conseguem perceber o que devem e não devem fazer se tiverem cuidado com o que dizem e fazem nos vossos primeiros tempos numa nova cultura.

Dito isto, creio que se tiverem em mente que este período existe e que há a possibilidade de se sentirem um pouco estranhos durante esse período, é mais fácil lidar com a situação. Portanto, é isto que tenho para vos dizer. Durante os vossos primeiros tempos num novo sítio ou numa nova cultura, podem sentir-se um pouco estranhos enquanto tentam perceber como é que se vive a vida nessa nova realidade. Mas, eventualmente, esse período vai acabar e tudo vai ser melhor a partir daí. Estejam atentos e não se deixem ir abaixo. Falem com alguém sobre o que estão a sentir. Escrevam sobre isso. O que for preciso. Acima de tudo não abdiquem de quem são. Controlar um pouco as vossas características mais “estranhas” nos primeiros tempos é normal, mas nunca deixem que essa nova realidade vos tire a vossa individualidade, o que há de diferente em vocês. Porque é essa individualidade que vos torna únicos e especiais.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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