Fazer voluntariado no Sul Global durante o Verão ou escolher alternativas grátis?

Foto de Junior REIS / Unsplash

Fazer voluntariado no Sul Global durante o Verão ou escolher alternativas grátis?

O Sul Global refere-se aos países comumente chamados de “países em desenvolvimento” ou “países do terceiro mundo” e, fazer voluntariado nestes países é uma experiência procurada por muitas pessoas jovens. No entanto, existem uma série de problemas que são essenciais de considerar quando fazemos voluntariado no Sul Global. Neste artigo vamos dar-te a conhecer alguns dos problemas que este tipo de voluntariado traz consigo e, uma vez que fazer voluntariado nos países “mais exóticos” como os países africanos, sul americanos e asiáticos é uma oportunidade que pode ser bastante dispendiosa, vamos trazer algumas alternativas para que possas fazer voluntariado nacional e internacional sem gastar dinheiro!

O processo histórico o seu impacto no voluntariado no Sul Global

Em primeiro lugar temos que falar de colonialismo. O colonialismo criou o contexto político e económico, em que vivemos hoje. Enquanto alguns países têm acumulado recursos e riqueza ao longo de séculos através do seu envolvimento no colonialismo, outros países foram colonizados, os seus recursos foram explorados, parte das suas culturas foram destruídas e os seus povos discriminados e assassinados. 

Este processo histórico deixa os países e pessoas do Sul Global em desvantagem em comparação com o Norte Global, o que tem implicações económicas, sociais, mas também na mentalidade das pessoas. Para exemplificar, a um nível macro destacamos as instituições que oferecem apoio humanitário e, no seu trabalho hoje em dia ainda identificamos vários princípios hierárquicos que encontrávamos também na era colonial, entre os quais as estratégias de marketing para angariação de fundos que retratam os recepções de acção humanitária como pessoas incapazes e em extrema necessidade, o facto das pessoas do Norte Global ocuparem cargos mais elevados de gestão e terem condições de vida muito melhores do que os actores locais como expõe Hugo Slim, e, acima de tudo, o facto de muitas intervenções internacionais retirarem capacidade de acção aos agentes locais pela desconsideração das suas capacidades e dos seus conhecimentos como refere Barbara Harrell Bond.

O voluntariado não tem este nível, é mais micro, no entanto se na acção humanitária que se diz alicerçar nos princípios morais de dignidade, participação e empoderamento encontramos uma atitude rigida, conservadora e defensiva num sistema auto-reprodutivo em que as ONGs internacionais operam num modelo de coorporações que se auto prepetuam e foca-se nos seus interesses. Assim, abre-se uma porta para o voluntariado se alicerçar nos mesmos princípios, sendo esta a realidade a que assistimos.

As agências de voluntariado tendem também a promover a ideia de fazer publicidade a oportunidades de voluntariado no Sul Global com uma série de imagens que retratam pobreza e necessidade extrema, às quais juntam frases aliciantes que criam em nós o desejo de apoiar, entre as quais destacamos “é uma experiência única para ajudar pessoas”, “é uma oportunidade de aprender com pessoas que são felizes com tão pouco, o que nos permite reconhecer o nosso privilégio” e “é um momento para nos encontrarmos e ficar a saber qual é a nossa vocação”.

Digamos não ao volunturismo e escolhamos alternativas

O voluntariado, especialmente no Sul Global, deve ser uma experiência que requer muita formação e reflexão. Não é suficiente pagar para ir fazer voluntariado durante quinze dias, pois esse tipo de voluntariado tem um impacto negativo na comunidade que acolhe novas pessoas que vão fazer voluntariado sempre por um curto período de tempo, os voluntários tendem a não ter formação adequada e inconscientemente existe um desrespeito sobre a cultura local, o que perpetua uma lógica de poder e superioridade cultural. 

Antes de pensarmos em fazer voluntariado precisamos de aprender sobre colonialismo, neocolonialismo, racismo, complexo do salvador branco, cultura, igualdade e empatia. É necessário acumular experiências anteriores num contexto nacional e Europeu para desenvolver capacidades e compreender que, talvez fazer voluntariado no outro lado do mundo não seja uma necessidade em termos pessoais. Antes de escolhermos um projecto temos de perceber se as nossas competências são mesmo necessárias e, acima de tudo é urgente compreender o que é volunturismo e se o programa no qual queremos participar tem como foco o empoderamento da comunidade ou se é uma experiência que visa dar continuidade a uma dependência histórica. Atenção: que não é fácil, as estratégias de marketing sabem aliciar-nos!

Neste momento talvez estejas a questionar se é possível fazer voluntariado, por exemplo nas ex-colónias e não alimentar este ciclo de dependência. E sim, é possível, existem alguns programas de voluntariado que são criados com o objectivo de durar um ano inteiro, durante o qual recebes formação contínua nas mais diversas áreas para te preparares para essa experiência, por exemplo, o Gastagus, Gasnova e Gasporto. E alguns programas governamentais com o UN Volunteers ou EU Aid Volunteers.  Enquanto estas oportunidades tendem a ser muito melhores, ainda assim precisamos sempre de ter um espírito crítico, fazer um minucioso trabalho de pesquisa antes e durante o projecto, constantemente avaliar o trabalho que fazemos e o impacto que temos e mudar comportamento sempre que nos sentimos a cair em tendências neocolonialistas e de promoção de dependência em detrimento de empoderamento.

Alternativas financiadas em Portugal e na Europa para este Verão

Como exposto, acreditamos que devemos primeiro fazer voluntariado nacional. Na verdade, soa um pouco irónico querer ir para o outro lado do mundo fazer voluntariado, quando nem ajudamos as associações e pessoas mais próximas de nós. 

Ao nível nacional destacamos os programas da juventude do IPDJ que, com o início do Verão começam a ter mais oportunidades em todo o país e nas mais diversas áreas, desde ambiente com o programa Voluntariado Jovem para a Natureza e Florestas; área associativa com o programa Geração Z ou até podes criar o teu próprio projecto de voluntariado com uma instituição à tua escolha com o OTL de longa duração. Estas oportunidades são financiadas, logo vais receber um apoio em termos de formação e ajudas de custos pelo teu trabalho voluntário. Durante o ano podes escolher alguma associação que trabalhe numa área do teu interesse e dedica fins de semana ou tardes livres.

Se queres uma experiência internacional que não fica nada atrás em termos de aventura em comparação com voluntariado no Sul Global, mas que tem um impacto positivo na comunidade, aconselhamos a que explores as oportunidades de curta duração do Corpo Europeu de Solidariedade. Através deste programa podes estar entre 2 semanas e 2 meses a fazer voluntariado em diversas áreas, desde a ambiental à social com um grupo de jovens de vários países da UE. Todos os custos de transporte, alojamento e refeições são cobertos pelo programa. No Instagram da Youth Cluster já partilhamos imensas oportunidades!

Se procuras oportunidades com uma duração mais longa , há vários programas totalmente financiados que partilhamos no artigo “Já não tens paciência para programas em que tens de pagar para participar? Boa, porque temos a solução para ti!

Convidamos a que te juntes a nós no workshop online e gratuito “Desconstruir o Voluntariado” financiado pelo Corpo Europeu de Solidariedade. Durante este workshop vais adquirir ferramentas para aprender mais sobre o tópico e receber um kit de activista para que te possas juntar nesta luta por um voluntariado mais consciente. Inscrições neste link.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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