Ciência vs Pseudociência: onde está a fronteira?

LordKelvin

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E ainda outra novidade que está para breve no ensino superior:
Médicos contra licenciatura em Medicina Chinesa | Uniarea
«O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, disse esta quarta-feira no Porto que as acusações da Ordem dos Médicos, conhecidas esta manhã, a propósito de uma portaria governamental que regulamenta a criação de licenciaturas em medicina tradicional chinesa, “não faz[em] nenhum sentido”.»
Estamos a ser governados por um ministro da Saúde que é médico e é contra a Medicina. Estupendo.
 

NemoExNihilo

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«O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, disse esta quarta-feira no Porto que as acusações da Ordem dos Médicos, conhecidas esta manhã, a propósito de uma portaria governamental que regulamenta a criação de licenciaturas em medicina tradicional chinesa, “não faz[em] nenhum sentido”.»
Estamos a ser governados por um ministro da Saúde que é médico e é contra a Medicina. Estupendo.

Mas trata-se de uma forma de Medicina tradicional... Vossa lordice não apreciaria esse facto?
 
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LordKelvin

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Mas trata-se de uma forma de Medicina tradicional... Vossa lordice não apreciaria esse facto?
Mas não está sujeita ao crivo da razoabilidade e racionalidade científica. Como tal, não é medicina, é medecina.
 

NemoExNihilo

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O que se passa?

Mas não está sujeita ao crivo da razoabilidade e racionalidade científica. Como tal, não é medicina, é medecina.

Podes pôr em causa a utilidade dos seus fins terapêuticos, mas não deixa de ser uma área do conhecimento em que algumas pessoas estarão interessadas. Não fará vago sentido providenciar os meios por que poderão adquiri-lo?
 

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Podes pôr em causa a utilidade dos seus fins terapêuticos, mas não deixa de ser uma área do conhecimento em que algumas pessoas estarão interessadas. Não fará vago sentido providenciar os meios por que poderão adquiri-lo?

Se pretendes um sistema de ensino superior no qual formas de medicina cientificamente validadas estão lado a lado com patranhas pseudo-científicas, então sim, claro, sem dúvida.
 

LordKelvin

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Podes pôr em causa a utilidade dos seus fins terapêuticos, mas não deixa de ser uma área do conhecimento em que algumas pessoas estarão interessadas. Não fará vago sentido providenciar os meios por que poderão adquiri-lo?
Não, a partir do momento em que o Estado está a reconhecer a legitimidade de medecinas paralelas. O Estado está basicamente a dizer: "pessoas, podem optar pela medicina ou pela medecina". E isso só pode dar mau resultado.
 

Alfa

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Bem, sem querer entrar em flame wars diversas, poderemos sempre considerar algum campo do saber como vagamente pseudo-científico (não inteiramente relacionado, mas isto surgiu-me no pensamento)... Não vou, por motivos óbvios, apontar dedos, mas... enfim... há áreas leccionadas no ensino superior que não são científicas.

Há uma differença entre não ser científico e ser pseudo-científico. Há cursos de literatura, que não são científicos. Mas não têm pretensão de o ser, são outra coisa.

Bem, se seria mais bem feito distinguir mais intensamente essa medicina tradicional chinesa da medicina ocidental, sem dúvida. Se deveria ser conhecimento proibido só por não ser totalmente racional, totalmente baseada em ensaios clínicos, etc., etc., acho que não...

O problema não é esse. O problema é que não funciona, não tem qualquer legitimidade científica, apesar de pretender tê-lo. É um engano, uma burla. E o Estado está a compactuar com esse engano promovendo licenciaturas em banha da cobra, distorcendo as coisas na opinião pública. O problema é teres pessoas que adiam tratamentos e diagnósticos, piorando ou morrendo, porque acham que estas formas "alternativas" de "medicina" são legítimas e funcionam. E teres um governo que é cúmplice disto.
 

LordKelvin

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Há uma differença entre não ser científico e ser pseudo-científico. Há cursos de literatura, que não são científicos. Mas não têm pretensão de o ser, são outra coisa.
Exato. A Medicina é uma ciência que se corrige. A Medecina é um conjunto de dogmas que não são sujeitos à evolução, à correção científica.
O problema não é esse. O problema é que não funciona, não tem qualquer legitimidade científica, apesar de pretender tê-lo. É um engano, uma burla. E o Estado está a compactuar com esse engano promovendo licenciaturas em banha da cobra, distorcendo as coisas na opinião pública. O problema é teres pessoas que adiam tratamentos e diagnósticos, piorando ou morrendo, porque acham que estas formas "alternativas" de "medicina" são legítimas e funcionam. E teres um governo que é cúmplice disto.
Não diria melhor. Isto tem efeitos mais catastróficos do que abrir cursos de Astrologia porque afeta efetivamente a saúde das pessoas.
 
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Alfa

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Não diria melhor. Isto tem efeitos mais catastróficos do que abrir cursos de Astronomia porque afeta efetivamente a saúde das pessoas.

Acho que queres dizer Astrologia. Mas olha que mesmo isso não é totalmente inofensivo, a avaliar por certas chamadas telefónicas para certos programas televisivos.
 

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Em relação à licenciatura em medicina chinesa também não concordo com a sua abertura no ES. Porém, as pessoas quando estão doentes socorrem-se de tudo o que possa potencialmente ajudar, nem que no final ajude apenas o psicológico.
Não sei se aqui alguém já foi a alguma consulta deste género, mas a realidade é que por muito que não ajude, também não prejudica (a não ser nos casos em que adiam tratamentos e diagnósticos, como disseram). Em alguns casos acredito que atue um pouco como placebo, mas, se no fim, isso contribuir de alguma forma para o bem-estar do doente, porque não ser usado como complemento?
 

NemoExNihilo

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Não é conhecimento proibido porque não chega sequer a ser conhecimento. Acharias normal abrir cursos superiores de Astrologia? Que tal um Mestrado Integrado de Astrologia no IST?

Estás-me a interessar... Tens mais detalhes que me possas dar?

Há uma differença entre não ser científico e ser pseudo-científico. Há cursos de literatura, que não são científicos. Mas não têm pretensão de o ser, são outra coisa.

Já que o @LordKelvin está envolvido, vou fazer uma pergunta: que me dizes do Mestrado Integrado em Teologia? Só para dar um exemplo...

O problema não é esse. O problema é que não funciona, não tem qualquer legitimidade científica, apesar de pretender tê-lo. É um engano, uma burla. E o Estado está a compactuar com esse engano promovendo licenciaturas em banha da cobra, distorcendo as coisas na opinião pública. O problema é teres pessoas que adiam tratamentos e diagnósticos, piorando ou morrendo, porque acham que estas formas "alternativas" de "medicina" são legítimas e funcionam. E teres um governo que é cúmplice disto.

Tentando esclarecer a minha posição, não sou intrinsecamente a favor nem contra as eventuais práticas alternativas, desde que providenciem algum tipo de conforto (maioritariamente psicológico, temos de o admitir, mas há o efeito placebo e... quem sabe?); acho, claro, que todos os cidadãos devem estar o mais informados possíveis nas decisões que tomam, sobretudo naquelas que possam afectar a sua saúde e a sua sobrevivência, como as do foro da saúde, e, muito naturalmente, abomino qualquer tipo de charlatanice. No entanto, não acho que uma área (ainda para mais uma, como creio ser o caso, que até aglomera um largo conjunto de conhecimentos e/ou informações) deva ser excluída só pelo seu carácter anti-científico.

Entendo que não queiram que ela seja apresentada como científica, e naturalmente que terei de concordar, mas impedi-la de ser leccionada só pelo facto de não se enquadrar nos conhecimentos académicos verificados já me parece... quase ditatorial.

Por outro lado, admito que há o facto de vir a ser parte integrante do ensino superior, o que pode ser particularmente espinhoso para alguns (ou para muitos...); como antes mencionei, por aquela minha indecisão acerca da natureza deste, sinto-me inclinado a dizer que se trata de um problema mais vasto do que o caso particular da medicina/medecina tradicional chinesa, ainda que, admito, possa estar a incorrer numa sobrecompartimentalização dos assuntos.
 

Alfa

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Em relação à licenciatura em medicina chinesa também não concordo com a sua abertura no ES. Porém, as pessoas quando estão doentes socorrem-se de tudo o que possa potencialmente ajudar, nem que no final ajude apenas o psicológico.
Não sei se aqui alguém já foi a alguma consulta deste género, mas a realidade é que por muito que não ajude, também não prejudica (a não ser nos casos em que adiam tratamentos e diagnósticos, como disseram). Em alguns casos acredito que atue um pouco como placebo, mas, se no fim, isso contribuir de alguma forma para o bem-estar do doente, porque não ser usado como complemento?

Há uma diferença entre o efeito placebo e o alívio psicológico. As pessoas tendem a confundir estas duas coisas, presumindo que se um medicamento "tem efeito de um placebo", é porque está a provocar algum alívio psicológico que se manifesta nos sintomas físicos. Não se trata disso. Recomendo a leitura do seguinte:
https://sciencebasedmedicine.org/is-harnessing-the-power-of-placebo-worthwhile-to-treat-anything/

A partir do momento em que há quem recorra a terapias que não funcionam sob a ilusão de que são eficazes, estamos perante uma burla. Dizer "mal não faz" é uma falácia. Como disseste, há quem adie tratamentos por causa destas práticas. Há casos documentados de crianças que morreram, por exemplo, porque os pais lhes deram um cházinho "natural" para "tratar" meningites.

Aquilo de que as pessoas se esquecem é que não estamos a lidar com gente honesta. Os praticantes de medicinas alternativas são charlatões ou então iludidos (se bem que acredito que estes últimos sejam uma minoria). Legitimar por via legislativa aquilo que não tem legitimidade por via científica é uma farsa.

Já que o @LordKelvin está envolvido, vou fazer uma pergunta: que me dizes do Mestrado Integrado em Teologia? Só para dar um exemplo...

A minha opinião pessoal é que é completamente absurdo. No entanto, é uma questão separada. A teologia não tem pretensões de ser científica. As terapias alternativas revestem-se de uma capa superficial de cientificidade, usando terminologia própria da ciência, como forma de tentar ter credibilidade que não tem. São uma mentira, um engano, deliberado em muitos casos. Não acho que a comparação com a teologia faça aqui sentido.

Entendo que não queiram que ela seja apresentada como científica, e naturalmente que terei de concordar, mas impedi-la de ser leccionada só pelo facto de não se enquadrar nos conhecimentos académicos verificados já me parece... quase ditatorial.

Não é por não se enquadrar nos conhecimentos académicos já verificados. É porque diz que funciona e não funciona. Não tenho forma mais simples de dizer isto.
 

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Mais ainda, alguns produtos usados na Medicina Tradicional Chinesa têm riscos porque são adulterados com outros produtos, incluindo medicamentos retirados do mercado:
Adulteration of proprietary Chinese medicines and health products with undeclared drugs: experience of a tertiary toxicology laboratory in Hong Kong

E ainda há registos da utilização de certas plantas com riscos para a saúde; há alguns anos houve vários casos na Holanda de pessoas que desenvolveram insuficiência renal após tratamentos alternativos.

Ou seja, nem inofensivo é. E anda isto a passar por "medicina" nas nossas universidades.
 

MedDreamer

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Há uma diferença entre o efeito placebo e o alívio psicológico. As pessoas tendem a confundir estas duas coisas, presumindo que se um medicamento "tem efeito de um placebo", é porque está a provocar algum alívio psicológico que se manifesta nos sintomas físicos. Não se trata disso. Recomendo a leitura do seguinte:
https://sciencebasedmedicine.org/is-harnessing-the-power-of-placebo-worthwhile-to-treat-anything/

A partir do momento em que há quem recorra a terapias que não funcionam sob a ilusão de que são eficazes, estamos perante uma burla. Dizer "mal não faz" é uma falácia. Como disseste, há quem adie tratamentos por causa destas práticas. Há casos documentados de crianças que morreram, por exemplo, porque os pais lhes deram um cházinho "natural" para "tratar" meningites.

Aquilo de que as pessoas se esquecem é que não estamos a lidar com gente honesta. Os praticantes de medicinas alternativas são charlatões ou então iludidos (se bem que acredito que estes últimos sejam uma minoria). Legitimar por via legislativa aquilo que não tem legitimidade por via científica é uma farsa.



A minha opinião pessoal é que é completamente absurdo. No entanto, é uma questão separada. A teologia não tem pretensões de ser científica. As terapias alternativas revestem-se de uma capa superficial de cientificidade, usando terminologia própria da ciência, como forma de tentar ter credibilidade que não tem. São uma mentira, um engano, deliberado em muitos casos. Não acho que a comparação com a teologia faça aqui sentido.



Não é por não se enquadrar nos conhecimentos académicos já verificados. É porque diz que funciona e não funciona. Não tenho forma mais simples de dizer isto.

Realmente confundi esses dois termos.

No entanto eu não condeno quem recorra a estas alternativas na tentativa de sentir algum alívio, seja ele qual for (claro que os menores levados pelos pais é simplesmente tonto). Se estivermos a falar de pessoas adultas e se elas acreditarem que lhes pode trazer alguma vantagem, porque não ser algo complementar? Não digo exclusivo.

Entendo tudo isso, mas no dia a dia também fazemos escolhas que nos fazem mal e também não deve de haver uma única terapêutica que não tenha efeitos secundários. E esses que referiste acredito que sejam raros ou muito raros, como muitos dos efeitos secundários mais graves da maioria dos medicamentos. Penso que no geral é a tal situação de que não aquece nem arrefece.

Sei por experiência própria que não funciona (ou então vai da crença de cada um). Mas se um doente chegasse ao pé de mim e me dissesse que a pessoa X com a mesma patologia fez umas sessões de acupuntura ou usou uns incensos xpto e melhorou, se me perguntasse qual era a minha opinião, eu diria que não creio que seja eficaz mas desde que continuasse a fazer tudo direitinho da minha parte não vejo porque não.
 

Alfa

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No entanto eu não condeno quem recorra a estas alternativas na tentativa de sentir algum alívio, seja ele qual for (claro que os menores levados pelos pais é simplesmente tonto). Se estivermos a falar de pessoas adultas e se elas acreditarem que lhes pode trazer alguma vantagem, porque não ser algo complementar? Não digo exclusivo.

Desde que não prejudique outros tratamentos, tudo bem. Mas uma coisa é aceitar que alguém vá a um terapeuta alternativo para se sentir melhor. Outra coisa, completamente diferente, é o Estado promover cursos superiores em práticas que, comprovadamente, não funcionam.

Entendo tudo isso, mas no dia a dia também fazemos escolhas que nos fazem mal e também não deve de haver uma única terapêutica que não tenha efeitos secundários. E esses que referiste acredito que sejam raros ou muito raros, como muitos dos efeitos secundários mais graves da maioria dos medicamentos. Penso que no geral é a tal situação de que não aquece nem arrefece.

Há uma diferença importante entre um medicamento cujos efeitos secundários são estudados e documentados e cuja entrada no mercado é regulada por um processo científico e um produto cuja composição não é regulada nem passa pelo crivo dos medicamentos usuais.
 

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A minha opinião pessoal é que é completamente absurdo. No entanto, é uma questão separada. A teologia não tem pretensões de ser científica. As terapias alternativas revestem-se de uma capa superficial de cientificidade, usando terminologia própria da ciência, como forma de tentar ter credibilidade que não tem. São uma mentira, um engano, deliberado em muitos casos. Não acho que a comparação com a teologia faça aqui sentido.

Não é por não se enquadrar nos conhecimentos académicos já verificados. É porque diz que funciona e não funciona. Não tenho forma mais simples de dizer isto.

Eu creio que nem todas as terapias alternativas pretendem ser, a esse ponto, científicas. Sem dúvida que há muitas que lançam por aí chavões como "quântico", "biomagnético", "iónico" ou seja lá o que for para fingirem que são credíveis, e depois temos coisas como a homeopatia, mas (talvez esteja mal informado, não vou atestar a absoluta veracidade do que digo...) creio que a medicina tradicional chinesa se insere mais num âmbito cultural e antropológico do que essencialmente médico. E, conforme disse antes, importa fazer esta distinção, sem dúvida. Se quisermos, deverá ser visto mais uma espécie de "estudos orientais" do que "estudos médicos alternativos". Mas, mais uma vez o digo, bloquear o seu ensino? Não me parece lícito.

O mesmo direi para outras áreas mais ou menos semelhantes, que ainda nem sequer foram propostas...

Mais ainda, alguns produtos usados na Medicina Tradicional Chinesa têm riscos porque são adulterados com outros produtos, incluindo medicamentos retirados do mercado:
Adulteration of proprietary Chinese medicines and health products with undeclared drugs: experience of a tertiary toxicology laboratory in Hong Kong

E ainda há registos da utilização de certas plantas com riscos para a saúde; há alguns anos houve vários casos na Holanda de pessoas que desenvolveram insuficiência renal após tratamentos alternativos.

Ou seja, nem inofensivo é. E anda isto a passar por "medicina" nas nossas universidades.

Não sabia desses casos, o que confirma largamente a hipótese de não estar tão por dentro do assunto quanto seria desejável...

Há uma diferença importante entre um medicamento cujos efeitos secundários são estudados e documentados e cuja entrada no mercado é regulada por um processo científico e um produto cuja composição não é regulada nem passa pelo crivo dos medicamentos usuais.

Sem querer descarrilar ainda mais o tópico, estou a detectar também uma posição acerca da polémica questão debatida há algumas semanas no parlamento?

(Falo daquelas folhinhas de morfologia muito característica...)
 

Alfa

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Eu creio que nem todas as terapias alternativas pretendem ser, a esse ponto, científicas. Sem dúvida que há muitas que lançam por aí chavões como "quântico", "biomagnético", "iónico" ou seja lá o que for para fingirem que são credíveis, e depois temos coisas como a homeopatia, mas (talvez esteja mal informado, não vou atestar a absoluta veracidade do que digo...) creio que a medicina tradicional chinesa se insere mais num âmbito cultural e antropológico do que essencialmente médico. E, conforme disse antes, importa fazer esta distinção, sem dúvida.

Mas pretendem todas ser terapias. E não o são.

Mas, mais uma vez o digo, bloquear o seu ensino? Não me parece lícito.

Mais uma vez, a existência de cursos superiores em terapias que não funcionam dá uma legitimidade, pelo menos aos olhos do público, a estas práticas. E essa legitimidade deveria vir apenas de uma validação científica, que neste caso não existe. É perigoso misturar as coisas.

Uma coisa seria haver um curso que estudasse a MTC de um ponto de vista histórico ou sociológico. Mas isto é um curso que pretende formar pessoas com capacidade para tratar doenças. Desse ponto de vista, é um logro até para quem quer ingressar nele.
 
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Sou um herege. Discordo inteiramente da 3.



Deus reside no Colégio Cardinalício? Estou espantadíssimo... :hushed:
Em relação à licenciatura em medicina chinesa também não concordo com a sua abertura no ES. Porém, as pessoas quando estão doentes socorrem-se de tudo o que possa potencialmente ajudar, nem que no final ajude apenas o psicológico.
Não sei se aqui alguém já foi a alguma consulta deste género, mas a realidade é que por muito que não ajude, também não prejudica (a não ser nos casos em que adiam tratamentos e diagnósticos, como disseram). Em alguns casos acredito que atue um pouco como placebo, mas, se no fim, isso contribuir de alguma forma para o bem-estar do doente, porque não ser usado como complemento?
Estás-me a interessar... Tens mais detalhes que me possas dar?



Já que o @LordKelvin está envolvido, vou fazer uma pergunta: que me dizes do Mestrado Integrado em Teologia? Só para dar um exemplo...



Tentando esclarecer a minha posição, não sou intrinsecamente a favor nem contra as eventuais práticas alternativas, desde que providenciem algum tipo de conforto (maioritariamente psicológico, temos de o admitir, mas há o efeito placebo e... quem sabe?); acho, claro, que todos os cidadãos devem estar o mais informados possíveis nas decisões que tomam, sobretudo naquelas que possam afectar a sua saúde e a sua sobrevivência, como as do foro da saúde, e, muito naturalmente, abomino qualquer tipo de charlatanice. No entanto, não acho que uma área (ainda para mais uma, como creio ser o caso, que até aglomera um largo conjunto de conhecimentos e/ou informações) deva ser excluída só pelo seu carácter anti-científico.

Entendo que não queiram que ela seja apresentada como científica, e naturalmente que terei de concordar, mas impedi-la de ser leccionada só pelo facto de não se enquadrar nos conhecimentos académicos verificados já me parece... quase ditatorial.

Por outro lado, admito que há o facto de vir a ser parte integrante do ensino superior, o que pode ser particularmente espinhoso para alguns (ou para muitos...); como antes mencionei, por aquela minha indecisão acerca da natureza deste, sinto-me inclinado a dizer que se trata de um problema mais vasto do que o caso particular da medicina/medecina tradicional chinesa, ainda que, admito, possa estar a incorrer numa sobrecompartimentalização dos assuntos.

Eu já tive esta discussão demasiadas vezes mas: em primeiro lugar, se as medicinas alternativas funcionassem... não eram alternativas. Em segundo, mostrem-me um estudo ou ensaio clínico aleatorizado duplamente cego controlado bem desenhado que mostre que, de forma estatisticamente significante, alguma dessas práticas resulta (i.e, é melhor que placebo) e eu acredito no que quiserem. Isto não é uma imposição pouco razoável - é o processo a que todos os medicamentos e a maioria das práticas clínicas estão sujeitas. A Medicina funciona ou deve funcionar com base em evidência.

Além disto, quando falam em qi, campos biomagnéticos, espetar agulhas em meridianos, ligações entre o pé e o resto do corpo ou diluir coisas de forma a que não reste, provavelmente, no "medicamento" uma mólecula original... como é que não é suposto eu dizer "isso é uma treta, não faz sentido absolutamente nenhum e não tem qualquer fundamento científico"?

Ainda vou ter de dizer, estas tretas não são inofensivas, e além de eu achar pouco ético e triste e mau pessoas muitas vezes desesperadas darem dinheiro a charlatães, elas matam pessoas. Eu não faço esta afirmação de forma leviana.

A este propósito, vou citar o matemático e divulgador científico português Jorge Buescu, porque dificilmente poderia expor melhor esta ideia: de acordo com um estudo liderado por Donald Lanning e publicado em 1998 no "Journal of the American Medical Association", a taxa de mortalidade provocada por cancro da mama na etnia negra na Carolina do Norte é cerca de três vezes superior ao da média da população, embora a taxa de incidência da doença seja inferior à média. Aplicando métodos estatísticos, concluiu-se que a principal variável que explicava este facto é que as mulheres negras recorrem em média dois anos mais tarde aos tratamentos da medicina devido a factores culturais: começam por recorrer a supostas curas herbais, curandeiros tradicionais ou quiropraticantes da sua comunidade étnica. Esta variável é mais relevante do que o extracto sócio-económico. E no cancro, tragicamente, cada dia que passa é importante; para muitas destas mulheres a superstição e os curandeiros fazem a diferença entre a vida e a morte.

Estranhamente não consigo encontrar o artigo a que se refere, mas há outros mais recentes que chegam a conclusões tristemente semelhantes, como Use of Alternative Medicine for Cancer and Its Impact on Survival.

E, para concluir - a verdade é importante. Ainda que as tretas funcionassem e não fizessem mal, são tretas; num mundo de factos alternativos... a pseudociência é uma séria ameaça, com a qual ninguém deve compactuar - muito pelo contrário, temos o dever de expor e combater aquilo que é, em todas as aceções da palavra, uma fraude.
 
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