Ciência vs Pseudociência: onde está a fronteira?

Emptyrooms

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Já agora @Emptyrooms os adeptos das terapias não convencionais usam muito o argumento de se venderem homeopáticos na farmácia para credibilizar estes produtos e ao mesmo tempo mostrar alguma hipocrisia do lado convencional (se não é bom então porque aprovam e vendem). Inclusive isto é usado como arma de arremesso para credibilizar a venda de mezinhas fora da farmácia e aqueles suplementos horrorosos da televisão. Até que ponto estão as farmácias comunitárias presas a estes produtos e até que ponto se pode fazer alguma coisa para que se "desprendam"? Sendo estes medicamentos previstos na diretiva europeia e lei nacional transposta, percebo que seja difícil recusar a sua venda, o que leva à discussão de porque é que estão sequer previstos na legislação europeia.

EDIT:



São os Beles desta vida que ao sobre-simplificar estas coisas conseguem facilmente manipular as pessoas, pois os seus argumentos são muito mais fáceis de compreender. Mas a verdade é mais complicada, infelizmente. Por acaso quero ver se me inscrevo na PG em estatística para a saúde do IHMT, não só mas também para melhorar as minhas bases nesta área, espero não me desiludir.
Não acho que a venda de homeopáticos os credibilize. Muito pelo contrário. Descredibiliza a profissão farmacêutica, já de si subvalorizada. A probabilidade de entrarmos numa farmácia e sermos atendidos por um farmacêutico e não por um senhor com o 9ºano não me parece ser muito elevada. E esse, com todo o respeito, não se importa com vendas de paracetamol, homeopáticos ou escovas do cabelo, nem tem uma Ordem a quem se justificar (não é que a OF faça grande coisa em boa verdade...).
Perdi a conta ao número de utentes/doentes que arregalaram os olhos perante a minha recusa em validar a sua prescrição. Não percebem que a prescrição e dispensa são actos distintos e que a primeira não obriga a segunda, porque, lá está, aparentemente os farmacêuticos podem ser substituídos por pessoal sem o secundário concluído. A venda de homeopáticos e os farmacêuticos que os defendem (por mais chocante que seja estas criaturas existem) só ajuda à festa.

Eu não trabalhei em comunitaria para além das horas obriatórias. Numa das farmácias por onde passei só o Oscillococcinum fazia parte das metas (talvez por ter estagiado depois do Verão). Enquanto estagiária, das duas vezes em que falhei a venda de homeopáticos, fui advertida por não seguir os "procedimentos da farmácia" e, caso não me sentisse "confortável" com aquela venda, na qualidade de estagiária, passei a ter indicação para transferi-la para outro colega.
Os incentivos aumentavam a pressão para vender, mas, naquela farmácia em especifíco, ninguém seria corrido por causa de vendas falhadas de geles de arnica e R07s. Podiam atingir outros objectivos com os MNSRM e apostar no aconselhamento farmacêutico que francamente era muito bom. Noutras farmácias, particularmente de proprietários não farmacêuticos (não digo que os farmacêuticos sejam todos santinhos), pelo o que me contam, não ponho as minhas mãos no fogo. Mesmo não percebendo minimamente de saúde, gostam de mandar o seu bitaite.

A tua última questão é a pergunta que ninguém cala. A alteração do sistema de margens e a liberalização da venda dos MNSRM prejudicaram imenso farmácias que não sabem trabalhar vendas cruzadas racionais. Com superiores a 30%, a banha da cobra ajuda naturalmente, mas parece-me ser perfeitamente dispensável. Apostar em serviços farmacêuticos diferenciados que trazem valor acrescentado dá trabalho, requer contrataçao de pessoal especializado e são uma grande maçada, logo vamos pelo caminho mais fácil. Pessoalmente gostaria que os técnicos de farmácia e farmacêuticos se dissociassem completamente destas práticas e que se limitassem à dispensa de medicamentos e produtos de saúde (e que o senhor Correia de Campos fosse exilado para a Antártica). Se calhar é pedir muito.

Em suma, há ainda muito trabalhinho a fazer nos programas de promoção e educação para a saúde.

Edit: A publicidade de suplementos, a composição de alguns e o facto de estes continuarem sob alçada da DGAV, com o INFARMED novamente de mãos atadas, são outras macadas. Na notificação de RAM nem é possível adicionar suplementos concomitantes ao campo respectivo do portal (para não falar do caso bicudo em que o suplemento É o suspeito 🙃), mas isto já é assunto para outro tópico.
 
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Snarky_Puppy

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Então achas que a liberalização da propriedade das farmácias foi um fator decisivo para esta degradação da farmácia comunitária, ou as coisas já estavam mal antes? Confesso que não me lembro de ver homeopáticos nas farmácias antes mas isso pode dever-se a mil vieses da minha parte e as coisas já estarem assim muito antes disso.
 

Emptyrooms

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Os glóbulos e as soluções já são vendidos em farmácias há bastante tempo. Com a praga dos produtos e suplementos "naturais", inócuos e maravilhosos que entretanto se abateu por aí, os homeopáticos ganharam maior exposição. Condutas duvidosas à parte, entre vender um antibiótico sem prescrição e na ausência de qualquer indicação para tal ou um homeopático, é preferível vender bolinhas de açúcar. Não há efeito farmacológico, não fomenta resistências e a margem é bem melhor.
As farmácias não são a Santa Casa e há utentes extremamente complicdaos. Por cada farmácia que não dispensa uma cipro e o utente sai sem qualquer produto, há outra noutra esquina a esfregar as mãos de contente. Eu tenho o maior respeito pelos farmacêuticos a sério que conseguem conciliar a vertente humana e comercial, sem nunca comprometer o seu papel como profissional de saúde. Eu nunca consegui fazê-lo. Mas eu também era demasiado fundamentalista e não tenho, de todo, o perfil para trabalhar em comunitária.
Tendo em conta os moldes actuais, não prevejo que os homeopáticos saiam das farmácias tão cedo. Antes disso, ainda há a questão dos MNSRM-EF.
 

Snarky_Puppy

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Como nunca comprei antibióticos sem prescrição e não sou farmacêutico, não sei até que ponto estas vendas são feitas. Não existe nenhuma forma de monitorizar isto? A mim parece escandaloso, tendo em conta as tendências preocupantes de resistência a antibióticos, além de que só contribui para confundir mais as pessoas, que depois de ouvirem campanhas para o uso prescrito de antibióticos podem simplesmente ir buscá-los às farmácias (vistas como casas de saúde onde as pessoas atrás do balcão são acima de tudo profissionais de saúde) sem qualquer controlo.

E já agora reviam também os medicamentos que realmente precisavam de receita ou que podiam ser venda livre ou mesmo EF, vá (eg, paracetamol 1000).
 
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a fish

(mandem-me ir estudar, sff)
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Expliquem-me só uma coisa, porque eu não sei: há controlo de medicamentos sujeitos a receita médica?
Diria que hoje em dia, com a esmagadora maioria das receitas informatizadas, seria fácil controlar a dispensa de antibióticos sem receita... A farmácia compra X caixas de um certo antibiótico à farmacêutica, vende Y, para as quais teve Y receitas, e por isso tem N=X-Y em armazém. Só as receitas passadas à mão poderiam baralhar um esquema destes, mas se o sistema informático for fiável (que nem sempre é...), com a prescrição hoje em dia a poder ser feita até por telemóvel, poder-se-ia passar a ter só receitas informatizadas.
Ou estou a ser demasiado idealista?
Não é suposto haver monitorização, até para evitar aquelas situações de exportação fraudulenta de medicamentos...?
 

davis

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Não é suposto haver monitorização, até para evitar aquelas situações de exportação fraudulenta de medicamentos...?
Diria que o problema pode é ser falta de meios para que a fiscalização exista. Pelo menos se isto estiver na alçada da ASAE, atualmente os meios são muito insuficientes. As queixas têm pouco seguimento.

Para teres uma ideia, o meu alojamento local, segundo a lei, deveria ter sido sujeito a uma vistoria para garantir que cumpro as condições de segurança até 30 dias após o pedido da licença. Já está a funcionar há 2 anos sem que ela tenha sido feita, porque não há meios suficientes.
 

Emptyrooms

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Como nunca comprei antibióticos sem prescrição e não sou farmacêutico, não sei até que ponto estas vendas são feitas. Não existe nenhuma forma de monitorizar isto? A mim parece escandaloso, tendo em conta as tendências preocupantes de resistência a antibióticos, além de que só contribui para confundir mais as pessoas, que depois de ouvirem campanhas para o uso prescrito de antibióticos podem simplesmente ir buscá-los às farmácias (vistas como casas de saúde onde as pessoas atrás do balcão são acima de tudo profissionais de saúde) sem qualquer controlo.

E já agora reviam também os medicamentos que realmente precisavam de receita ou que podiam ser venda livre ou mesmo EF, vá (eg, paracetamol 1000).
Claro que há monitorização. A dispensa de um MSRM sem prescrição é uma contra-ordenação (no caso dos psicotrópicos já é considerado crime). Perante um inspetor do Infarmed, a farmacia é obrigada a disponibilizar os registos e se os mesmos nao existirem, coimas serão aplicadas. Não obstante o estatuto legal do medicamento ser uma medida de minimizaçao de risco de rotina, esta classificação é algo dúbia; há MNSRM que podem ser mais perigosos que um MSRM. O paracetamol é considerado um dos fármacos mais seguros. No entanto, as formulações de libertação modificada foram suspensas. Acresce ainda o facto desta substância estar incluída em diversos OTCs para constipações e afins. Há pessoas em overdose sem o saberem.
Por norma (numa farmácia normal, pelo menos) só se dispensa MSRM sem prescrição caso o doente seja cliente habitual, ou seja, tem ficha, tem acompanhamento farmacoterapêutico e a medicação é crónica. O sistema de vendas suspensas existe para isto mesmo. Há n razões para o doente falhar a consulta médica e infelizmente a acessibilidade aos cuidados de saúde não é uniforme. Além do mais, a colaboração entre médicos e farmacêuticos comunitários deixa muito, mas muito a desejar, o que tende a deixar estes últimos numa posição um pouco infeliz. É fundamental que um farmacêutico esteja bem ciente do limite das suas competências, até porque farmacoterapia vai um bocadinho mais além dos calhamaços que nunca viram a luz do dia, mas por vezes não existe alternativa e isto é especialmente perigoso quando a aconselhar não está um farmacêutico, nem um técnico de farmácia, mas sim um senhor que nem o secundário concluiu. Os dois primeiros têm obrigação de reconhecer os critérios de referenciação.

O princípio básico da farmacoterapia "a primeira abordagem é a não farmacológica" é bonito, mas na prática não funciona. O médico que não prescreve, não presta ou é o "estagiário" lá do sítio. Se a farmácia não dispensa, o doente procura outra.
Recordo-me perfeitamente de um episódio de uma senhora que usava uma receita francesa, com validade expirada há 4/3anos (não que isso me interessasse para grande coisa), para adquirir benzos em Portugal, qual pacote de bolachas. Perante a recusa da dispensa, a senhora principia o primeiro espectáculo do dia. O primeiro de muitos. Isto era sistemático. A pressão para prescrever e dispensar é imensa.

É escandoloso vender-se MSRM sem receita, é escandaloso vender-se loperamida no supermercado, é escandoloso assistir a engenheiros proprietários de farmácia a interferir nos protocolos de dispensa, é escandaloso substituir alopurinol por um qualquer R...Temos de começar por algum lado e não sei se os homeopáticos estarão na lista de prioridades.

Expliquem-me só uma coisa, porque eu não sei: há controlo de medicamentos sujeitos a receita médica?
Diria que hoje em dia, com a esmagadora maioria das receitas informatizadas, seria fácil controlar a dispensa de antibióticos sem receita... A farmácia compra X caixas de um certo antibiótico à farmacêutica, vende Y, para as quais teve Y receitas, e por isso tem N=X-Y em armazém. Só as receitas passadas à mão poderiam baralhar um esquema destes, mas se o sistema informático for fiável (que nem sempre é...), com a prescrição hoje em dia a poder ser feita até por telemóvel, poder-se-ia passar a ter só receitas informatizadas.
Ou estou a ser demasiado idealista?
Não é suposto haver monitorização, até para evitar aquelas situações de exportação fraudulenta de medicamentos...?
Todas as vendas ficam registadas no sistema informático. Envolvam elas nimesulida ou um elástico do cabelo qualquer. Mesmo que façam vendas fora do sistema, a farmácia pode ser obrigada a mostrar os registos (se a receita é electrónica ou manual é irrelevante). O controlo de psicotrópicos é muito mais rigoroso. Mensalmente, os registos de entradas e saídas tinham de ser enviados ao INFARMED. Para além, disso, os dados do médico prescritor e doente/pessoa que levanta a prescrição ficavam guardados no sistema.
 
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