Olá! Sei que as perguntas não eram de todo direccionadas para mim, mas visto frequentar a FLUL há uns anos (vai fazer 5, na verdade

), acho que posso responder-te a algumas questões, com base nos conhecimentos que fui obtendo quer da minha própria experiência, quer de companheiros de percurso (e ter trabalhado com os Serviços Académicos

). O
@casodafruta que me perdoe a resposta a algumas das questões, mas tudo o que disser é apenas o meu próprio conhecimento e em momento algum pretende replicar o que serão as opiniões dele. Tudo o que ele tiver a acrescentar será mais do que bem-vindo e espero que possa esclarecer-te
Sou aluna de Mestrado e acompanhei alguns processos de admissão a mestrados ao longo do último ano. O que a minha experiência me diz, relativamente à FLUL e sobretudo a esta instituição, é que as licenciaturas são bastante encaradas como uma formação inicial dentro de algumas áreas científicas. Com isto, eu diria que não perdes nada em orientar as tuas opções livres para as duas áreas se assim o entenderes. Na admissão a mestrado, os professores que avaliam a candidatura consideram sobretudo a média da tua licenciatura e a tua carta de motivação (às vezes acompanhada de uma entrevista). A minha experiência diz-me que várias vezes entram em mestrado alunos que não têm imeeeensa formação numa determinada área, nem isso é exigido - o que comprova sobretudo bons candidatos é também muitas vezes a capacidade de terem conhecimentos interdisciplinares e na carta de motivação demonstrarem a coerência da sua escolha por aquele mestrado; em que medida contribui para a formação do candidato, podes até especificar áreas de interesse que tenhas e referir que ter x cadeira ou y cadeira motivou-te a escolheres essa formação. Por isso, o meu conselho é que escolhas essas opções de acordo com o que mais te motiva e achas que complementaria o teu currículo. Não acho, de todo, que não escolheres todas as opções livres orientadas para a área x será um factor de exclusão na tua admissão ao mestrado - mas, como bem dizes, depois do primeiro ano terás uma maior percepção dos teus interesses.
Outro conselho que te dou é a teres algum cuidado na avaliação das taxas de empregabilidade dos cursos e das estatísticas. É verdade que são feitas com dados factuais, mas não são de uma leitura tão simplificada quanto podemos pensar. Estas estatísticas são um pouco enviesadas e não reflectem a verdadeira empregabilidade dos cursos, de um modo muito geral porque:
1) não avaliam se os alunos que estão empregados estão a trabalhar na área de formação;
2) apenas avaliam os números dos alunos que estão inscritos como desempregados no centro de emprego - há alunos que nunca se registam como desempregados, por exemplo, então nunca devemos olhar para um curso como "aparece 0% de desemprego, então de certeza que isto vai garantir-me um emprego". Não é assim tão simples. Por outro lado, há uma boa notícia nisto:
3) há alunos que estão registados como "desempregados" que podem estar a trabalhar na área. Como é que isto se explica? Nos últimos anos, são cada vez mais populares os estágios do IEFP. Muitos deles são de determinadas áreas (na minha por exemplo, há vários estágios para produção em companhias de teatro). A questão aqui é que para as pessoas se candidatarem a esses estágios IEFP (em que um licenciado ganha à volta dos 900 euros, são valores tabelados) têm de se inscrever no centro de emprego como desempregados. E o que é que vem nas estatísticas? Que os alunos estão desempregados, quando na verdade estão a fazer um estágio profissional remunerado. Por exemplo, para quem é de Estudos Portugueses, alguns desses alunos fazem estágios desses em centros de explicações, a dar aulas de disciplinas como Português.
Quanto às saídas profissionais de Estudos Portugueses, vão depender bastante da orientação do currículo de disciplinas que o aluno escolhe, mas é um curso bastante indicado para quem pretende ser professor de Português, por exemplo. A maior parte das licenciaturas não têm saídas profissionais muito específicas porque cada vez mais o mercado de trabalho não só procura pessoas com formações interdisciplinares e capacidade de flexibilização de conhecimentos, como é tendência que o nível de escolarização esteja a subir, então as licenciaturas estão cada vez mais orientadas para que os alunos a seguir façam um mestrado.
Conheço alguns alunos deste curso e se tiveres dúvidas específicas posso perguntar-lhes. As pessoas que conheço gostam/gostaram do curso, a única queixa é algo transversal aos cursos com opções livres que é o facto de estarmos sempre sujeitos ao número de vagas disponíveis na altura das inscrições e isso por vezes não correr assim tão bem e os alunos terem de optar por outras cadeiras. Mas essa é a experiência geral dos alunos da FLUL, fora quem esteja em cursos com praticamente tudo obrigatórias.
Alguém perguntou-me sobre este curso recentemente por mensagem e vou transcrever o que disse sobre o curso (tem em conta que foi em resposta a outra pessoa, então vai ter vááárias informações). Alguma pergunta que tenhas, podes sempre fazê-la
"Certamente que a minha opinião tem algum bias porque eu estudei e continuo a estudar na FLUL - fiz lá a minha licenciatura e estou a fazer o meu mestrado lá, então nunca andei numa outra instituição para poder dar a perspectiva de como são as outras; não obstante, por partilha com outros colegas acabei por ter acesso a feedback de outros lugares e quando comparo as respostas, sinto-me tentada a afirmar que a Faculdade de Letras é das instituições que possui melhor ambiente, sobretudo dentro da ULisboa. Temos 17 licenciaturas e um número considerável de alunos, as cadeiras são comuns a vários cursos então não acabas tanto por ter uma turma completamente fixa e consegues conhecer facilmente alunos de vários cursos e de forma bastante acessível. A FLUL é um lugar super LGBTQ+ friendly e muito diversificado, então existem pessoas de todos os estilos, maneiras de ser e visões políticas; no geral, considero que o ambiente é bastante agradável e sinto-me confortável nos espaços da faculdade - é verdade sim que algumas salas têm condições menos boas (por exemplo, as salas mais pequenas das caves são muito quentes) e tínhamos um pavilhão com amianto em funcionamento até há pouco tempo. Porém, acredito que as condições da faculdade vão ser melhoradas nos próximos anos, porque esse pavilhão já foi encerrado, vai ser demolido e construído um totalmente novo. Existem algumas infiltrações de água em alguns corredores, mas pessoalmente nunca me senti muito afectada por essas situações porque não são assim tão graves, a mais grave era mesmo esse pavilhão que já fecharam. A Biblioteca da faculdade é excepcionalmente boa e um lugar de estudo com as melhores condições de Lisboa - tens imensos lugares disponíveis, a biblioteca é bem iluminada e tens também gabinetes individuais e de grupo para poderes requisitar e estudar que são quase
soundproof.
Quanto à qualidade de ensino, eu considero que é muito boa porque os docentes são maioritariamente pessoas com muita experiência académica e bons investigadores, na sua grande maioria. Muitos professores são acessíveis e importam-se que os alunos gostem do que aprendam e que tirem bons resultados - claro, existem algumas excepções, mas a generalidade dos profs é efectivamente competente. Só posso dizer isto da minha experiência, mas a verdade é que conheço bastante bem a licenciatura em Estudos Clássicos porque o meu namorado é dessa licenciatura. Na verdade, não lhe fiz perguntas agora porque ele está a trabalhar até tarde hoje, mas alguma dúvida específica podes sempre vir perguntar-me que eu falo com ele! Quanto a Estudos Clássicos, tenho a certeza que a qualidade de ensino deste curso é bastante boa - não sei se é melhor ou não do que em Coimbra (que têm lá o prof Frederico Lourenço, por exemplo, um dos maiores tradutores e classicistas), mas os professores de Clássicos em Lisboa são muito bons e esforçados. Desde o director de curso, a outros profs que conheço (como o André Simões, o Luís Cerqueira e a Sofia Frade), todos eles são professores altamente qualificados, que gostam de ensinar e que recompensam bem nas notas de quem se esforça e trabalha. Fiz uma cadeira com o Luís Cerqueira e outra com a Sofia Frade e gostei bastante de ambas e acabei com resultados muito bons. Particularmente, com a Sofia Frade, adorei as aulas dela
Como Estudos Clássicos é o curso mais pequeno da FLUL, com menos alunos, a relação com os profs acaba por ser bastante próxima porque os profs sabem quem são os alunos de Estudos Clássicos, ainda que o curso tenha perfis diferentes. Sobre os perfis, não sei se já tens interesse em algum em específico, mas o meu namorado é do perfil de Tradução. Não tens que definir já o perfil que queres, na inscrição escolhes um e depois podes facilmente alterar até ao 2º ano do curso, dependendo dos teus gostos e interesses. Ele seguiu o de Tradução porque se interesse em investigação e por norma os investigadores dessa área fazem tradução de obras - este perfil tem mais essa vertente, não é particularmente útil para quem tenha mais interesse em trabalhar em museus (aí seria mais interessante o perfil de Património Clássico da União Europeia), por exemplo ou ser professor de Português e Latim porque para seres prof tens de aceder a um mestrado em Ensino e este perfil não te permite ter os requisitos para prof (mas o perfil de Estudos Clássicos e Portugueses orienta para esse mestrado).
Este perfil de Tradução é o que conheço melhor, mas tenho a certeza que o meu namorado conhece pessoas dos outros perfis e que podem falar-te melhor neles. No de Tradução sei que tens o curso sobretudo orientado para aprenderes bastante de Latim e Grego - fazes 6 níveis de cada uma dessas línguas, o que significa que em todos os semestres vais estar a aprender Grego e Latim. Depois tens algumas opcionais que podes complementar com cadeiras de outros cursos e dos outros perfis de Clássicos, mas o core do curso é sobretudo traduzires estas línguas e leres literatura Grega e Latina. Pessoalmente, acho uma vertente muito interessante porque depois nas línguas o que se trabalha é aprender a ler obras nessas línguas e a traduzi-las. Como são línguas mortas e que praticamente nenhum aluno teve contacto anterior com as mesmas (salvo algumas excepções), a esmagadora maioria dos alunos nunca aprendeu uma língua totalmente do 0 e muito menos uma língua morta. Acho que essa é a situação padrão dos alunos e os profs esperam isso, por isso as aulas são muito orientadas com fichas de trabalho para que desenvolvas os teus conhecimentos e eles são muito bons em indicarem-te que materiais deves usar (por exemplo, considera que neste curso vais ter de utilizar dicionários de Grego e de Latim; os de Grego são um pouco caros btw). Acho que o facto de vires de uma área diferente não te vai impedir de adquirir bons conhecimentos nesta licenciatura, onde podes aprender línguas e tens cadeiras de história, cultura e literatura. Pela qualidade dos profs, eu diria que esta é uma das licenciaturas mais sólidas da FLUL, mas tens de ter muita atenção no tipo de saídas profissionais e se realmente te interessam.
Sobre aprenderes estas línguas: o prof André Simões tem alguns vídeos disponibilizados no youtube com lições de Latim. Se estás curiosa com aprender estas línguas, podias experimentar ver essas lições e estudar um pouco por ti própria. Além destes materiais, podes comprar a Nova Gramática do Latim do Frederico Lourenço, que é um material utilizado nas aulas e útil. Se quiseres estudar por ti própria nestas férias, comprar a Gramática + o livro Latim do Zero seria uma boa introdução à língua. O Grego é uma língua mais desafiante, mas com muita coisa em comum com o Latim - mas prepara-te que o feedback em geral é que é a língua que exige mais trabalho. Deixo o link dos vídeos do prof André:
(este professor também faz tiktoks e é divertido)
O director de curso, o professor Rodrigo Furtado é um grande entusiasta do curso e tem um vídeo de apresentação que podes ver aqui:
Além disso, tens também a Lia Alves - uma aluna que vai agora para o 2º ano do curso. Ela também é do perfil de tradução, tem um studygram e um vídeo sobre o curso:
Se quiseres falar com ela, tenho a certeza que ela gostaria muito de falar do seu curso.
Espero que tudo isto ajude um pouco!
Boa sorte

"
Ah e só uma pequena correcção: Estudos Clássicos não é de todo uma licenciatura recente. É mesmo dos cursos mais antigos da FLUL, apenas evoluiu no nome (tal como Estudos Portugueses, que era o antigo curso de Filologia Românica): Filologia Clássica. Os cursos mudaram de nome porque a designação concentrava-se demasiado nas línguas, quando na verdade a aprendizagem é transversal a outras áreas como a história, a cultura, as artes. Espero que ajude