Diário do Caloiro

dfo97

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17 Setembro 2015
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16
Olá.

Criei este tópico pessoalmente para desabafar, mas também para incentivar outros caloiros a fazê-lo.
A pergunta que se coloca quase ao fim de uma semana na universidade é a seguinte: Como está a ocorrer esta mudança?

Bem, eu diria que está a ser a semana mais difícil e mais infeliz que vivi até hoje. A verdade é que eu sabia que iria passar por tudo isto, que me ia custar muito, mas só ao viver o momento é que realmente me apercebi do quanto. Neste momento só me apetece desistir, deixar tudo e voltar para o meu lar, onde me sinto completamente à vontade, onde posso ser quem sou sem me preocupar com o que as pessoas pensam, onde tenho os meus pais e a minha irmã que tanta mas tanta falta me fazem, só quero voltar para onde sou feliz. Quero voltar atrás no tempo e ser criança mais uma vez, sem me preocupar com o que amanhã me possa trazer. Eu só quero voltar a ser feliz. Porque neste momento não o sou e sei agora que o era, sem saber.

O facto de estar tão longe de casa sem as pessoas que mais amo, de ser uma rapariga que nunca passou mais de uma noite sozinha fora de casa, de ter um apego muito forte com os pais e a irmã, é das coisas que mais me custa. Sair da zona de conforto nunca é fácil, eu sempre soube. O facto de chegar ao apartamento e não ter lá os meus pais para me confortarem dizendo que tudo vai ficar bem e abraçando-me, não poder ver a sua cara, o seu sorriso reconfortante, não poder ouvir o riso da minha irmã custa tanto...

Para piorar, neste momento sinto que não me conheço. Eu sei quem sou, mas não o consigo expressar. O facto de ser uma rapariga introvertida, que não faz amizades com facilidade, dificulta tudo muito mais. Até agora, mesmo que mudasse de turma, tinha sempre alguém. Tinha sempre alguém com quem já tinha uma certa empatia. Neste momento estou completamente sozinha, sem pais, sem caras familiares, sem nada. E até agora não encontrei ninguém com quem tenha empatia. Uma coisa que reparo agora é que a maneira como fiz todas essas amizades ao longo dos anos foi muito natural, eu sei que as fiz sendo quem sou, introvertida e tímida. Agora, quando falo com alguém sinto que é muito forçado, que quem está a falar não sou eu. É por isso que digo que sinto que não me conheço.

Outra coisa que reparo é que nem sempre me senti assim. Nestes 5 dias, tive dias que só me apetecia fazer as malas e voltar para casa, outros que até estava a gostar da experiência e ainda outros em que me senti das duas formas. Isto é muito confuso, eu sei, mas é como me sinto. Sinto-me confusa, triste, ansiosa e incompleta.

Por outro lado, e nos momentos mais "felizes" destes últimos dias, pensei Eu vou gostar disto, eu sei, deixa passar esta semana. A primeira semana é sempre a pior. E imaginava mesmo na minha cabeça, ao olhar para as pessoas mais velhas a conversarem umas com as outras de uma forma tão natural, que um dia iria ser eu, que iria voltar a ter amigos com os quais poderia ser quem sou sem forçar e que iria voltar a ser feliz. E neste momento, depois dos parágrafos mais negativos acima, sinto-me assim, esperançosa e mais "feliz", o que é confuso, mais uma vez, visto que esses parágrafos foram escritos enquanto chorava... coisa que tenho feito imenso.

Neste momento nem sei se publico o texto, porque ao voltar a lê-lo sinto-me um bocado estúpida, mas vou publicá-lo porque mesmo que ninguém se identifique comigo, pode ser que isto ajude vocês caloiros a abrirem-se e desabafarem também. E sei que muitos de vocês precisam. Mesmo que se sintam como eu, uma confusão tremenda, que parece que são bipolares, escrevam porque ajuda imenso. Podem encontrar alguém que se identifique com a vossa situação e neste momento das nossas vidas precisamos de um pilar para não cairmos. Quem sabe não o encontram aqui no fórum? E mesmo os mais velhos, que já passaram pelo mesmo, podem e de certeza que ajudam, partilhando a sua experiência e oferecendo conselhos. Espero eu...

A sério, façam como eu e desabafem. Acima de tudo sejam sinceros. Ninguém sabe quem sois. E quando se é como eu, introvertida, isso é uma vantagem.

Obrigada e desculpem o texto longo.

Espero que o tópico tenha futuro.
 

Miguel Páscoa

Membro Caloiro
Matrícula
17 Setembro 2015
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2
Acho que nesta primeira semana me sinto exatamente como tu, enquanto que os outros meus colegas já se falam como se se conhecessem desde o secundario, eu ainda não falo assim tanto. Sou timído e estou ainda um pouco à toa na turma. Vou fazer o que puder para melhorar, sou timido acho eu, não consigo puxar muito assunto mas vamos ver...
 

Kard

Membro
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5 Setembro 2015
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22
Eu também já passei por isso tudo. Os primeiros dias são sempre os mais complicados, mas com o passar do tempo acabam por se habituar. Tal como vocês, eu também sou tímido, sempre fui e sempre serei, faz parte da nossa personalidade e não vale a pena tentar mudar isso. Isso não nos impede de criar amizades, só demoramos é mais tempo...
Não sei se vocês estão nas praxes, mas eu fui apenas ao 1º dia e depois deixei de ir, mas isso não me impediu de fazer amizades com outras pessoas, principalmente da minha turma. Assim que começam a conhecer outras pessoas, as coisas ficam muito mais fáceis.
O mais importante é terem a certeza de que estão no curso certo. O resto resolve-se com o tempo.
 

Brunofilipe48

Membro
Matrícula
15 Março 2015
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Na realidade identifico-me com quase tudo o que foi dito anteriormente, excepto o facto de nao estar a viver longe de casa, o que ajuda a atenuar o choque inicial de entrar num mundo completamente novo sozinhos, sem nenhum amigo que nos possa ajudar e acompanhar.

Como sou tímido é muito complicado começar a falar com alguém, ter a iniciativa de começar a falar.
Todos os dias penso que tenho de me abrir mais e tentar ultrapassar o problema da tímidez,mas é complicado colocar em prática. Ao ver os meus colegas a conversarem entre si em grupos fico triste por não conseguir fazer o mesmo, por não ter a confiança de chegar lá e entrar no grupo sem medos e ser eu mesmo.

Despeço-me um pouco mais leve por soltar aquilo que estou a sentir e,tal como foi dito, fico a aguardar tempos melhores, mais felizes.
Ainda nao perdi a esperança de encontrar novos amigos,porque sem eles a vida universitária não é completa e feliz.
 

Brunofilipe48

Membro
Matrícula
15 Março 2015
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17
Ao ler todos estes comentários fico um pouco mais reconfortado por nao ser o único a passar por este problema.
Realmente o comentário do Kard ajudou-me a não perder a esperança e, agora, acredito que nos vamos conseguir ultrapassar esta situação!
No meu caso espero que a praxe me ajude a vencer este obstáculo, porque esta tem sido excelente, nada de violência e humilhação!

Boa sorte para todos:)
 

casodafruta

Membro Dux
Colaborador Editorial
Matrícula
31 Agosto 2015
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3,002
Curso
Ciências da Linguagem [FUTURO]
Instituição
FLUL [FUTURO]
Perguntem-se: Como seria a integração na Universidade se não houvessem praxes? Será a praxe uma obrigação para a integração de um caloiro/aluno?
Boa sorte para os tímidos do fórum. Assino por baixo por pertencer a este grupo (mas talvez mais do delírio mental).
 

hum

Membro Veterano
Matrícula
5 Setembro 2015
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262
Curso
Engenharia Electrotécnica e de Computadores
Instituição
FEUP
Perguntem-se: Como seria a integração na Universidade se não houvessem praxes? Será a praxe uma obrigação para a integração de um caloiro/aluno?
Boa sorte para os tímidos do fórum. Assino por baixo por pertencer a este grupo (mas talvez mais do delírio mental).
Não é uma obrigação, mas posso falar no meu caso pessoal, da maneira como tinha medo de falar com pessoas, se não tivesse sido a praxe provavelmente tinha passado os meus 5+1 anos de curso completamente sozinha. Mas quem sabe!
 
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casodafruta

Membro Dux
Colaborador Editorial
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31 Agosto 2015
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3,002
Curso
Ciências da Linguagem [FUTURO]
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FLUL [FUTURO]
Não é uma obrigação, mas posso falar no meu caso pessoal, da maneira como tinha medo de falar com pessoas, se não tivesse sido a praxe provavelmente tinha passado os meus 5+1 anos de curso completamente sozinha. Mas quem sabe!
É o medo que atormenta.
 

hum

Membro Veterano
Matrícula
5 Setembro 2015
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262
Curso
Engenharia Electrotécnica e de Computadores
Instituição
FEUP
É o medo que atormenta.
Também depende do nível de "timidez" da pessoa. Havia pessoas timidas que não foram à praxe e andavam em grupos. A praxe não é a única coisa que existe na faculdade. Há tunas, há associações de estudantes, há 1001 núcleos de estudo, há equipas de várias modalidades de desportos, etc... Não podem esperar que ao fim de 1 semana já saibam o que existe na faculdade e em que atividades participar.
Encontrem 1 ou 2 ou 3 que até achem porreiras e mandem-se. De certeza que, inserindo-se em grupos mais pequenos, será mais fácil de fazer amizades.

Eu escolhi a praxe. Mas podia ter escolhido outra coisa qualquer. E de certeza que tinha feito amigos lá também
 

casodafruta

Membro Dux
Colaborador Editorial
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31 Agosto 2015
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3,002
Curso
Ciências da Linguagem [FUTURO]
Instituição
FLUL [FUTURO]
Também depende do nível de "timidez" da pessoa. Havia pessoas timidas que não foram à praxe e andavam em grupos. A praxe não é a única coisa que existe na faculdade. Há tunas, há associações de estudantes, há 1001 núcleos de estudo, há equipas de várias modalidades de desportos, etc... Não podem esperar que ao fim de 1 semana já saibam o que existe na faculdade e em que atividades participar.
Encontrem 1 ou 2 ou 3 que até achem porreiras e mandem-se. De certeza que, inserindo-se em grupos mais pequenos, será mais fácil de fazer amizades.

Eu escolhi a praxe. Mas podia ter escolhido outra coisa qualquer. E de certeza que tinha feito amigos lá também
Nunca tive mais de acordo.
 
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RitAlex

Membro
Matrícula
26 Junho 2015
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91
Curso
Engenharia de Micro e Nanotecnologias
Instituição
FCT-UNL
Sei o que isso é. Durante anos fechei-me do resto do mundo com as pessoas que já cá estavam. Agora, na faculdade, vejo as minhas amigas a conhecer pessoas enquanto eu fico calada por trás. Esta insegurança de falar dá cabo de mim tem sido a minha maior inimiga nos últimos anos. O lado positivo é que não estou sozinha no meu curso e não precisei de sair de casa, só de hora e meia de transportes e quase 100€ de passe.
Falar não é problema, o que me atormenta são os grupos grandes, onde temo ficar de parte e não ser ouvida. Sozinha é muito difícil começar a falar, mas descobri que é muito mais fácil do que pensava! Ninguém se conhece aqui e a conversa vai é algo obrigatório para nos conhecermos uns aos outros. Ninguém pode julgar ninguém porque ninguém sabe de onde vimos e como somos. Aqueles que tiram conclusões das primeiras impressões são poucos, por isso não desanimem, não é o fim do mundo ;)
Quanto a mim, as praxes obrigam-me a falar e até me divirto. Saiam da carapaça que ninguém vos vai comer nem esmagar, até vão fazer bons amigos :)
 

Anabela Lopes

Membro Caloiro
Matrícula
10 Junho 2015
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Curso
Mestrado em Engenharia de Serviços e Gestão
Instituição
FEUP
Estava aqui a ler os vossos problemas e achei que precisava de vos contar a minha experiência. De momento sou aluna de Mestrado na FEUP, e tudo parece correr às mil maravilhas. Mas não, no inicio nada é perfeito. A minha vida académica começou em Coimbra a cerca de 250 Km de casa. Estava no meu curso de sonho, com 18 anos numa cidade que não conhecia e completamente sozinha. Adormeci muitas vezes a chorar agarrada à almofada, não é fácil.
Mas acreditem, foi essa experiência que me tornou na pessoa que sou hoje. Hoje consigo "desenrascar-me" sozinha para quase tudo e tornei-me super independente e sem duvida uma mulher com M grande.

O meu conselho é deixarem tudo acontecer naturalmente, não tenham medo de ficar sozinhos porque esses "grupinhos" que se juntam agora no inicio, provavelmente não vão durar mais de um mês (é tudo fogo de vista). Alguém virá ter convosco eventualmente e aí pensem bem se essas pessoas MERECEM A VOSSA AMIZADE. Não se desvalorizem e acreditem em mim, a melhor forma de calar invejosos e "pessoas populares" é empenharem-se e tirarem boas notas logo de inicio.

Sejam ativos no curso, na faculdade e na vida extra-curricular. Eventualmente vocês vão dar nas vistas e aí sim, todos vão querer ser vossos amigos. Cabe-vos depois decidir quem é merecedor dessa honra.

Desculpem o texto longo, mas espero ajudar!

Be proud, stay strong :)
 

Teresa97

Membro Caloiro
Matrícula
19 Julho 2015
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2
Eu como caloira sinto muito o que cada um de vocês tem sentido. A falta da minha casa, dos meus pais, da minha irmã, enfim...de tudo o que era hábito e me confortava. Inicialmente sempre pensei que estivesse mentalizada para esta mudança, mas quando caí na realidade e vi que o meu mundo era outro nem sabia o que sentia. Não sou antipraxe, mas acho que gritar com os caloiros e chamar nomes não é forma nenhuma de integrar. Eu não conseguia assistir àquilo, pensava que ia ser divertido mas a partir do momento que tentam ferir a dignidade de alguém não consigo gostar daquelas praxes. Decidi então não ir às próximas, secalhar até posso participar noutras atividades mas tudo com conta peso e medida. Claro que me quero divertir e isso para mim nunca foi problema, e essa foi secalhar a minha maior desilusão.
 
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Dannyps

Membro
Matrícula
30 Junho 2015
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Curso
MI em Engenharia Eletrotécnica e Computadores
Instituição
FEUP
Perguntem-se: Como seria a integração na Universidade se não houvessem praxes? Será a praxe uma obrigação para a integração de um caloiro/aluno?
Boa sorte para os tímidos do fórum. Assino por baixo por pertencer a este grupo (mas talvez mais do delírio mental).
Não sei em que posição dizes isso (caloiro, praxista, formado), mas gostava.

Após esta primeira semana, a análise que posso fazer é: na praxe, parecemos os alcoólicos anónimos. Vai uma pessoa à frente, e diz, O meu nome é João, e todos, na matriz, respondemos, Olá Joãozinho, e o doutor pergunta, De onde és Joãozinho, e o João responde, Sou de Milheirós, ao que a matriz volta a responder, em uníssono, Olá Joãozinho de Milheirós. Acham que me lembro de algum destes coitados? Nada... No almoço, estamos com pessoal que é de outros cursos. Apresentamo-nos, dizemos que onde somos e por aí fora, mas passado 20 minutos já nem nos lembramos dos nomes uns dos outros. Por outro lado, na FEUP, onde ando, temos uma UC chamada Projeto FEUP. Aí sim, tenho conhecido pessoas. Estar a praxe toda a levantar e baixar, a fazer auto-contagens, e a cantar músicas com cujas mensagens não me identifico, não é de todo a minha definição de "um tempo bem passado". E se a praxe não está a meu favor, está contra mim.

Ainda faz sentido, numa sociedade em que se tem vindo a dar cada vez mais valor à igualdade e ao respeito mútuo, a prática da praxe? Deixo a minha pergunta no ar.
 
Última edição:

Anabela Lopes

Membro Caloiro
Matrícula
10 Junho 2015
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2
Curso
Mestrado em Engenharia de Serviços e Gestão
Instituição
FEUP
Eu como caloira sinto muito o que cada um de vocês tem sentido. A falta da minha casa, dos meus pais, da minha irmã, enfim...de tudo o que era hábito e me confortava. Inicialmente sempre pensei que estivesse mentalizada para esta mudança, mas quando caí na realidade e vi que o meu mundo era outro nem sabia o que sentia. Não sou antipraxe, mas acho que gritar com os caloiros e chamar nomes não é forma nenhuma de integrar. Eu não conseguia assistir àquilo, pensava que ia ser divertido mas a partir do momento que tentam ferir a dignidade de alguém não consigo gostar daquelas praxes. Decidi então não ir às próximas, secalhar até posso participar noutras atividades mas tudo com conta peso e medida. Claro que me quero divertir e isso para mim nunca foi problema, e essa foi secalhar a minha maior desilusão.
A minha sugestão é que tentes integrar-te na vida académica por outra via. Procura na tua faculdade atividades em que possas participar. Voluntariados, projetos, workshops. Eu acho divertido e um dia mais tarde, o teu CV vai agradecer ;)
 

Vanessa97

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20 Julho 2015
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11
Ola!
Primeiro que tudo UAU!! Obrigada por este texto a sério... É reconfortante saber que não estou nesta batalha sozinha!Tudo o que disseste é como se fosse eu!! Estou longe da minha família e os últimos dias eu pareço uma bipolar.
Mas vamos lutar porque tudo isto vai passar e temos que lutar por um futuro bom!! E no fim olhar para tras com orgulho ver que tudo valeu a pena..