Discussões Filosóficas

 
Ora essa, Karl.

É uma pergunta muito ampla; já li os textos da Brihadaranyaka Upanishad do Adi Shankaracharya, e outras coisas pequeninas como Sakya Pandita e Mazu Daoyi. Conheço os outlines do Confucionismo e das duas grandes escolas Budistas, e muito pouco do Xintoísmo, mas não muito. O Japão é onde sou mais fraco.

Tenho um amigo com quem troco notas acerca dos Upanishads, até porque os Védicos fascinam-me muito, e essa é a minha motivação para os ler. Mas tenho muito pouco tempo para tantos interesses. Tinhas alguma coisa em mente, Karl?
Fico feliz pelas as suas leituras já feitas sobre este tópico, mas gostava de lhe aconselhar ver este canal de youtube, que também têm uma playlist sobre Western philosophy, mais precisamente gostava que visse esta playlist, os videos não são massadores, felizmente, The School of Life , é só escolher a primeira playlist que aparece, (é a que diz eastern philosophy)


Acrescentando que o aconselho a descobrir mais sobre o taoismo:
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Ora essa, Karl.

É uma pergunta muito ampla; já li os textos da Brihadaranyaka Upanishad do Adi Shankaracharya, e outras coisas pequeninas como Sakya Pandita e Mazu Daoyi. Conheço os outlines do Confucionismo e das duas grandes escolas Budistas, e muito pouco do Xintoísmo, mas não muito. O Japão é onde sou mais fraco.

Tenho um amigo com quem troco notas acerca dos Upanishads, até porque os Védicos fascinam-me muito, e essa é a minha motivação para os ler. Mas tenho muito pouco tempo para tantos interesses. Tinhas alguma coisa em mente, Karl?
Esqueci-me de perguntar se o João aconselhava alguma leitura sobre um filosofo especifico, ou vários filosofos, pode ser tanto eastern como western, visto que parece saber muito sobre filosofia
 
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Fico feliz pelas as suas leituras já feitas sobre este tópico, mas gostava de lhe aconselhar ver este canal de youtube, que também têm uma playlist sobre Western philosophy, mais precisamente gostava que visse esta playlist, os videos não são massadores, felizmente, The School of Life , é só escolher a primeira playlist que aparece, (é a que diz eastern philosophy)


Acrescentando que o aconselho a descobrir mais sobre o taoismo:

Karl, por favor, ainda sou um puto. Até me sinto estranho, haha.

Já vi o School of Life uma vez ou outra, e confesso que achei bom numas ocasiões e demasiado condensador noutras. Prefiro aceder aos textos porque o meu primeiro amor é a língua e a linguagem, de forma a que apenas posso aceder às texturas básicas destes textos através da sua digestão directa. Por exemplo, o vídeo sobre Kierkegaard é muito bom, mas ler Kierkegaard é outra vida, é outro mundo, é incomparável.
 
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Karl, por favor, ainda sou um puto. Até me sinto estranho, haha.

Por exemplo, o vídeo sobre Kierkegaard é muito bom, mas ler Kierkegaard é outra vida, é outro mundo, é incomparável.
Ah ahahahahah
Por que livro aconselhas começar no que toca aos livros do Kierkegaard? (Ou se prefires qual gostaste mais)
 
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Ah ahahahahah
Por que livro aconselhas começar no que toca aos livros do Kierkegaard? (Ou se prefires qual gostaste mais)

Olha, eu comecei com as Migalhas Filosóficas, que foi mau da minha parte, porque apesar de já ter lido Hegel, não tinha lido o "de omnibus dubitandum est" e não tinha assim tantas bases em Platão como deveria. Mesmo assim, fiquei apaixonado com o estilo filosófico do Kierke, deixar-te-ei um exemplo do que falo:

“And now, the moment. Such a moment is unique. It is, of course, brief and temporal, as moments are, ephemeral, as moments are, elapsed, as moments are, in the next moment, and yet it is decisive, and yet it is filled with eternity. Such a moment must have a special name, let us call it: the plenitude of Time.”

Desculpa, tenho a cópia em casa e só consegui encontrar a citação que pretendia em Inglês, num pdf da Philosophical Fragments. Mas é uma escrita filosófica quasi-poética e sensual. Agora, talvez tivesse começado com o Temor e Tremor pelo aspecto de Existencialismo Cristão que depois perpassa e acomete toda a filosofia de Kierke, mas ainda assim, recomendo que tenhas bases de Hegel, seja a Ciência da Lógica, seja a Fenomenologia do Espírito. Com filosofia terás sempre esse caveat: para leres um recomendam que leias outro e outro e outro, é natural, mas começa por qualquer um e tenta pesquisar os anotamentos enquanto o lês lentamente. Depois no próximo, já haverão alguns que não precisarás de pesquisar, e depois menos, e depois menos, embora no início consiga parecer assustador, especialmente quando remetem para Kant.

Parem de remeter para Kant, por favor. Não somos todos super génios.

(Já agora, esclareço-te dúvidas filosóficas se me convidares para jogar ténis no IST, é a troca e é a mais justa)
 
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Parem de remeter para Kant, por favor. Não somos todos super génios.

Honestamente, acho Kant mais acessível que Kierkegaard. Mas isso talvez tenha a ver com a minha sensibilidade específica.
 
       
Honestamente, acho Kant mais acessível que Kierkegaard. Mas isso talvez tenha a ver com a minha sensibilidade específica.

Acessível? Estranho... Quer dizer, eu considero Kant mais interessante e aprofundante, mas mais difícil de ler, até porque a própria forma como estrutura o conhecimento é complexa e rápida. Kierkegaard parece-me mais simples.

Mas, lá está, pode ser mesmo uma questão de sensibilidade ou predisposição, mas é muito interessante, até porque nunca ouvi ninguém a dizer que Kant é acessível. P'lo contrário.
 
       
Acessível? Estranho... Quer dizer, eu considero Kant mais interessante e aprofundante, mas mais difícil de ler, até porque a própria forma como estrutura o conhecimento é complexa e rápida. Kierkegaard parece-me mais simples.

Mas, lá está, pode ser mesmo uma questão de sensibilidade ou predisposição, mas é muito interessante, até porque nunca ouvi ninguém a dizer que Kant é acessível. P'lo contrário.

É mais no sentido em que Kant parece-me estar realmente a tentar construir um argumento, ainda que esse argumento seja complexo e difícil de acompanhar, enquanto que Kierkegaard tem esse estilo mais literário que pode tornar difícil separar a linha de argumentação dos enfeites literários.

Lá está, isso tem a ver com o meu pendor mais analítico.
 
       
É mais no sentido em que Kant parece-me estar realmente a tentar construir um argumento, ainda que esse argumento seja complexo e difícil de acompanhar, enquanto que Kierkegaard tem esse estilo mais literário que pode tornar difícil separar a linha de argumentação dos enfeites literários.

Lá está, isso tem a ver com o meu pendor mais analítico.

Oh, what would the world be without some literary sparkle?

Haha, entendo-te perfeitamente, Alfa. E até te invejo um pouco. Lógica não é o meu forte, mas pronto, tenho outros, suponho.
 
       
Haha, entendo-te perfeitamente, Alfa. E até te invejo um pouco. Lógica não é o meu forte, mas pronto, tenho outros, suponho.

Nos últimos anos tenho aprendido a apreciar alguns tipos de escrita filosófica, mas a minha perspectiva continua a ser a de que o trabalho filosófico consiste em (tentar) clarificar conceitos, (tentar) responder a problemas e discutir argumentos. Nesse sentido, acabo por apreciar mais uma escrita mais "técnica". Sou inevitavelmente influenciado pela minha formação anterior em matemática.
 
       
(Já agora, esclareço-te dúvidas filosóficas se me convidares para jogar ténis no IST, é a troca e é a mais justa)
Thanks for the answer!
Parece-me uma troca de valor para ambos, mas, infelizmente, não sei jogar ténis, mas decerteza que haverá alguém nas redondezas que o saiba
 
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Uma pequena curiosidade filosófica que descobri hoje: Ludwig Wittgenstein e a sua invenção do emoji.

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🙂😉😁
 
       
Uma pequena curiosidade filosófica que descobri hoje: Ludwig Wittgenstein e a sua invenção do emoji.

Ver anexo 15822

🙂😉😁

Estás a ler as Conversas? Wittgenstein continua a ser profundamente fascinante até quando não tenta de todo. Adoro. (Mas só gosto de Schubert às vezes)
 
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Estás a ler as Conversas? Wittgenstein continua a ser profundamente fascinante até quando não tenta de todo. Adoro. (Mas só gosto de Schubert às vezes)

Não estava, mas agora estou a considerar. Estou a estudar Filosofia da Arte para o exame nacional, pelo que ando com algumas questões de Estética na cabeça. Comecei a ler o que ele diz sobre Estética depois de me ter deparado com esta pérola e agora apetece-me continuar.
 
       
Não estava, mas agora estou a considerar. Estou a estudar Filosofia da Arte para o exame nacional, pelo que ando com algumas questões de Estética na cabeça. Comecei a ler o que ele diz sobre Estética depois de me ter deparado com esta pérola e agora apetece-me continuar.

Acho que ias gostar mesmo muito de Wittgenstein, tanto no Tratactus (que, olha, por acaso até está lá nos livros da Gulbenkian) como nas Investigações. Para estética pura, não acho que ganharias muito com Wittgenstein; ele apenas "roçou" na coisa. Merleau-Ponty e Adorno são as autoridades na estética que tenho mais perto, embora hajam imensas. Eu nem sabia que o exame nacional tinha Filosofia da Arte, vê lá.
 
       
Acho que ias gostar mesmo muito de Wittgenstein, tanto no Tratactus (que, olha, por acaso até está lá nos livros da Gulbenkian) como nas Investigações.

O Tractatus é um dos que está na minha estante há anos.

Para estética pura, não acho que ganharias muito com Wittgenstein; ele apenas "roçou" na coisa. Merleau-Ponty e Adorno são as autoridades na estética que tenho mais perto, embora hajam imensas.

Obrigado pelas recomendações!

Eu nem sabia que o exame nacional tinha Filosofia da Arte, vê lá.

Antigamente não tinha (ou tinha em opção com Filosofia da Religião). Agora, com as alterações curriculares, costuma aparecer.

* * *​

Comecei a ler Os Métodos da Ética, de Henry Sidgwick, um dos livros que comprei este ano na Feira do Livro (e que se encontra agora gratuitamente disponível no site da Fundação Calouste Gulbenkian).

Na introdução do tradutor, o filósofo Pedro Galvão, este faz um comentário que não pude deixar de considerar interessante:

Assim, parece um pouco estranho que Sidgwick, mesmo nos países anglófonos, não se inclua hoje entre os filósofos morais mais estudados. (...) Como se explicará esta situação? Em parte, sem dúvida, pela dimensão dos Métodos (...) Além disso, Sidgwick sobressai pela sua prosa exemplarmente clara (mas também «seca», sem cedências ao virtuosismo literário), bem como pela sua argumentação invulgarmente explícita. E assim, por não precisar muito que o expliquem e interpretem, acabou por nunca alimentar uma indústria exegética.

Ou seja, Sidgwick não tem tido a devida atenção por ser de tal modo claro que não necessita de interpretação! Ao mesmo tempo, filósofos cuja escrita é dominada por um certo (atrevo-me a dizer) obscurantismo ocupam lugares de destaque em determinadas disciplinas filosóficas. Alguém que, como eu, valoriza a clareza na escrita e na argumentação (que não é incompatível com um certo "virtuosismo literário", pelo que não tem de ser sempre ao estilo de Sidgwick) não deixa de achar esta situação um pouco bizarra.

(De notar que o próprio Pedro Galvão costuma incluir os Métodos na bibliografia da disciplina de Ética que lecciona.)
 
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Isto é interessante 🧐 Portanto, na tua opinião, há um conjunto de acções que são ambíguas e não pertencem nem ao certo, nem ao errado, ficando assim numa área mais cinzenta? Com pequenos delitos referia-me a coisas do género pequenos furtos, pequenas acções de vandalismo, tráfico de drogas em pequena escala ou até coisas mais simples e relativamente comuns, como a venda de álcool e tabaco a menores. Dirias que nenhuma destas acções é "certa" ou "errada", mas que se tratam apenas de pequenas convenções que formulamos, "não deixar crianças beber/fumar, não vender drogas, não roubar", com o mero propósito de facilitar a convivência? Isto quer então dizer que a moralidade das acções não está dependente do sistema jurídico, que, embora talvez muito óbvio, é frequentemente confundido. Isto é bastante fora do domínio da política pura e está a cair mais numa discussão sobre ética, mas, se não é o sistema jurídico que define a moral, o que define a moral, então?*

*Se achardes bem, podes sempre responder no tópico das discussões filosóficas, perdão o extrapolar das fronteiras, mas é impensável pensar num debate político sem filosofia :cry:

Já agora, para quem quiser ler um bocadinho pequenininho sobre uma comparação entre as penas em Portugal e na restante Europa: 25 anos de prisão. A história da pena máxima em Portugal

Continuo esta discussão aqui, como referido, por uma questão de organização e para eu poder derivar com menos vergonha para o debate de moral versus lei.

Em primeiro lugar, e para o dizer sem sombra de dúvida, acredito que a moralidade de uma acção é independente da sua legalidade. Acho que é mais ou menos historicamente óbvio que as leis e todo o sistema jurídico surgem da necessidade de organizar uma sociedade e regulamentar e regular o seu funcionamento; poderíamos, partindo disto, discutir longamente até que ponto isto é mesmo desejável, ou até que ponto esse sistema judicial pode ser (ou é) aproveitado pelas classes mais poderosas para reprimir os mais fracos, mas, como disse na discussão sócio-político-económica original, é certo que a existência de uma punição por crimes, ou por acções vistas como erradas, tem um efeito dissuasor, por um lado, e um efeito aplacador das vítimas, por outro, que podem ser bastante importantes para impedir que as situações se degradem mais.

No entanto, parece-me óbvio que admitir que uma acção é certa ou errada com base no que está escrito na lei, ou com base na deliberação do sistema judicial, é pouco razoável; creio que o que sucedeu em Auschwitz, ou nos autos-de-fé, ou nas pirâmides sacrificiais das civilizações mesoamericanas, foi perfeitamente legal no seio das sociedades da época, mas espero que não seja preciso perguntar se foi moralmente correcto. Mais do que isso, se considerarmos que uma acção é moralmente correcta ou incorrecta com base no que dizem as leis aplicáveis nessas circunstâncias, estaremos a incorrer no mais puro (e mais insustentável) dos relativismos morais: nada impede que exista uma sociedade com a lei "todos os estrangeiros que cruzem as nossas fronteiras são mortos e os seus corpos são dados a comer aos nossos animais", mas vou supor que possamos concordar que essa atitude não é lá muito desejável. Poderíamos tentar impor o critério de só as leis pertencentes a sociedades estáveis e bem-sucedidas terem valor moral, partindo do pressuposto mais ou menos razoável de que essa estabilidade das sociedades é a marca mais significativa de que o papel regulador do sistema jurídico e das leis subjacentes está a ser bem cumprido, mas, continuando o exemplo anterior, nada impede, em absoluto, a tal sociedade xenocida de ser estável e bem-sucedida, apenas sucede que não vivemos num mundo em que tenhamos encontrado uma sociedade assim. (Quer dizer, a julgar pela habitual narrativa aquando de invasões alienígenas e subsequente derrota e extermínio de toda a frota invasora por parte dos humanos, sou levado a pensar duas vezes, mas isto é um aparte idiota.)

Isto para nem falar de todas as questões já mencionadas da falibilidade do sistema judicial, desde a própria ambiguidade das leis à falta de imparcialidade (intrínseca ou induzida...) dos juízes, passando por tudo aquilo que se pode fazer em termos da produção ou supressão de provas e testemunhos. Se admitirmos que a moralidade de uma acção resulta do que é decidido pelo sistema judicial acerca dela, mais vale dizermos que, com suficiente poder e influência (ou outros conceitos s€me£hante$ que os substituam...), há muito poucas acções que não nos sejam permitidas...

Portanto, estabelecida que está a distinção entre a legalidade e a moralidade de uma acção, o que define esta última? É uma das questões que mais longamente me tem atormentado. Após muitas reflexões, chego à conclusão de que é errado tentar estipular um critério objectivo, plenamente racional, plenamente descritivo, porque, para sermos coerentemente racionais, só poderemos recair num nihilismo moral porque todas as acções que tomemos são insignificantes face à imensidão que racionalmente não podemos duvidar que o Universo tem e os seus efeitos nesse todo serão mínimos, e, nesse sentido, todos os critérios que possamos querer estabelecer ou são (racionalmente falando) unicamente um produto da conveniência e do calculismo ou uma tentativa ingénua, inútil e desnecessária de limitar as nossas possibilidades de acção. Além, claro, de que, muito à semelhança das leis, é praticamente impossível estabelecer um sistema de critérios que não possa ser contornado, ou confrontado com um caso limite em que simplesmente falhe, permitindo-nos, na pior das hipóteses, justificar virtualmente qualquer acção.

Agora, escuso de dizer que todas estas perspectivas me parecem indesejáveis, ao mesmo tempo que não vejo grandes alternativas na análise racional dos factos. Como sair daqui? Simples: não somos unicamente providos de razão, e as decisões que tomamos não têm de ser racionais. Bem sei que esta perspectiva, levada ao extremo, se torna quase anti-filosófica, e, aliás, torna-se um pouco difícil descrevê-la de um modo que até a mim não me pareça demasiado ridículo (o que provavelmente não será lá muito bom sinal para a sua validade, mas enfim...), mas, da mesma maneira como a apreensão que fazemos do Mundo que nos rodeia não parte de uma decisão racional, estou em crer que a apreensão que fazemos da moralidade de uma acção também não: parte de uma intuição, de um sentido moral, se quisermos, que distingue acções correctas de acções incorrectas com base num qualquer carácter, metafísico, transcendente ou, no mínimo, imperscrutável, que elas possuem. Acho que esta metáfora até se adequa bastante bem porque, à semelhança dos restantes sentidos, essa apreensão que fazemos da moralidade pode ter diferentes níveis de acuidade, é afectada pelo contexto, pelos nossos processos mentais, pelas nossas expectativas, pela cultura em que crescemos, mas a relatividade dessa apreensão jaz não no carácter moral das acções, que me parece ser mais razoável considerar objectivo, mas na apreensão e/ou no apreendedor em si; eu posso ser daltónico e achar que visto umas calças cinzentas mas elas não deixam por isso de ser verdes (isto pode ou não ser baseado numa história verídica) e, do mesmo modo, não é pelo facto de alguém achar admissível (ou até divertido) passar uma rasteira a um colega que isso se torna correcto.

Sou capaz de ter derivado demasiado e, como de costume, de me ter alongado mais ainda, mas devo devolver a pergunta: o que é, para ti, a moral?
 
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Se me é permitido entrar nesta discussão...

Após muitas reflexões, chego à conclusão de que é errado tentar estipular um critério objectivo, plenamente racional, plenamente descritivo, porque, para sermos coerentemente racionais, só poderemos recair num nihilismo moral porque todas as acções que tomemos são insignificantes face à imensidão que racionalmente não podemos duvidar que o Universo tem e os seus efeitos nesse todo serão mínimos, e, nesse sentido, todos os critérios que possamos querer estabelecer ou são (racionalmente falando) unicamente um produto da conveniência e do calculismo ou uma tentativa ingénua, inútil e desnecessária de limitar as nossas possibilidades de acção.

Eu não concordo com isto. Ou, melhor dizendo, não tenho propriamente uma opinião totalmente formada sobre a existência de princípios morais objectivos (embora tenda a acreditar que estes existem), mas parece-me que este argumento não é convincente.

O facto de as nossas acções serem insignificantes face à imensidão do universo não significa que não possam ser moralmente regidas por princípios objectivos que transcendam as acções em si e as intenções que as movem. Eu e tu já tivemos aqui uma discussão acerca daquilo que se deve ter em conta quando se avalia a moralidade de uma acção e talvez continuemos a ter alguma discordância no que diz respeito aos seres ou entidades dotados de estatuto moral. No entanto, mesmo pondo essa questão de parte, eu diria que aquilo que interessa para que valha a pena percebermos se uma dada acção é ou não moral não é se esta tem efeitos de relevo quando vistos à escala do universo (como disseste, provavelmente não terá), mas se tem efeitos de relevo quando vistos à escala de (alguns) seres dotados de estatuto moral.

Deixa-me clarificar com um exemplo. Imagina que a pessoa X agride a pessoa Y na rua, causando-lhe dano físico sem qualquer justificação atenuante (como a auto-defesa, por exemplo). É verdade que essa acção tem um impacto reduzidíssimo, insignificante, quando visto à escala do universo. Os efeitos dessa agressão na totalidade do universo são certamente desprezáveis. No entanto, eu não diria que isso impossibilita que se chegue a um princípio universal e objectivo que condene agressões desse tipo. Nem diria que postular um tal princípio seja meramente "um produto da conveniência" ou uma tentativa "ingénua, inútil e desnecessária de limitar as nossas possibilidades de acção".

Poderás responder-me que aquilo que torna a acção acima mencionada imoral não é um qualquer princípio objectivo, mas a tal "intuição", o tal "sentido moral" que possuímos e nos permite identificar a acção como indesejável nesse sentido. A minha resposta é que me parece que estás a incorrer numa confusão. Uma coisa são os hipotéticos princípios morais, as propriedades intrínsecas às acções (e aos seus efeitos e intenções) que as tornam aceitáveis ou condenáveis; outra coisa é a capacidade humana de apreender tais princípios. Estas duas coisas são independentes.

De facto, podemos conceber que existam princípios morais objectivos, mas que nós, seres humanos, somos incapazes de os compreender e apreender na sua totalidade e profundidade, do mesmo modo que talvez sejamos incapazes de compreender a totalidade das leis naturais. Por outro lado, podemos conceber que exista algum tipo de faculdade moral que nos permite classificar acções como permissíveis ou impermissíveis, não existindo estas categorias morais de um modo autónomo e objectivo (como pareces argumentar). Mas os princípios morais e a faculdade moral não são alternativas um ao outro.

Parece-me que tu próprio pareces reconhecer a necessidade de alguma objectividade em pelo menos alguns juízos morais na parte final do teu texto. Mas, se é esse o caso, então as categorias morais de certo e errado têm alguma forma de existência e a faculdade moral a que te referes é simplesmente um "sentido" que permite apreendê-las; usando a tua analogia, as cores têm uma existência exterior às nossas faculdades de as apreender. Algo não é verde em virtude de o apreendermos como tal, mas sim em virtude de características intrínsecas que o tornam verde. De forma análoga, eu diria que é plausível pensar que existam princípios morais objectivos (ainda que possa não existir uma "teoria de tudo" na moralidade que reduza estes princípios a apenas um cerne irredutível) e que a "faculdade moral" a que te referes, a existir, será apenas uma capacidade de percepção e apreensão do que esses princípios implicam.
 
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Eu não concordo com isto. Ou, melhor dizendo, não tenho propriamente uma opinião totalmente formada sobre a existência de princípios morais objectivos (embora tenda a acreditar que estes existem), mas parece-me que este argumento não é convincente.

O facto de as nossas acções serem insignificantes face à imensidão do universo não significa que não possam ser moralmente regidas por princípios objectivos que transcendam as acções em si e as intenções que as movem. Eu e tu já tivemos aqui uma discussão acerca daquilo que se deve ter em conta quando se avalia a moralidade de uma acção e talvez continuemos a ter alguma discordância no que diz respeito aos seres ou entidades dotados de estatuto moral. No entanto, mesmo pondo essa questão de parte, eu diria que aquilo que interessa para que valha a pena percebermos se uma dada acção é ou não moral não é se esta tem efeitos de relevo quando vistos à escala do universo (como disseste, provavelmente não terá), mas se tem efeitos de relevo quando vistos à escala de (alguns) seres dotados de estatuto moral.

Deixa-me clarificar com um exemplo. Imagina que a pessoa X agride a pessoa Y na rua, causando-lhe dano físico sem qualquer justificação atenuante (como a auto-defesa, por exemplo). É verdade que essa acção tem um impacto reduzidíssimo, insignificante, quando visto à escala do universo. Os efeitos dessa agressão na totalidade do universo são certamente desprezáveis. No entanto, eu não diria que isso impossibilita que se chegue a um princípio universal e objectivo que condene agressões desse tipo. Nem diria que postular um tal princípio seja meramente "um produto da conveniência" ou uma tentativa "ingénua, inútil e desnecessária de limitar as nossas possibilidades de acção".

Racionalmente falando, ou imparcialmente falando, isto é, tentando analisar as coisas o mais independentemente possível das nossas próprias tendências, emoções ou empatias, que razão teremos para condenar uma agressão nessas circunstâncias? Isto é, a não ser pela tendência (irracional) de achar que essa acção deve ser condenada, que princípio racional, que característica objectiva do Universo racionalmente aferível nos obriga a condenar essa acção?

Mais uma vez, deixando de parte, se quisermos, a nossa humanidade e a nossa tendência inata e irracional para achar que essas acções são condenáveis, o que nos obrigaria, de um ponto de vista puramente racional, a postular esse princípio de que "agredir outra pessoa é mau"? Talvez a falha seja minha, mas não vejo outras razões racionais senão as que se enquadrem em produtos da conveniência (não ser preso/ostracizado pela comunidade, não ser agredido de volta, poder ter uma sociedade organizada e mais ou menos pacífica, etc.); em alternativa, se, por qualquer razão, postularmos princípios que as condenem mesmo sabendo que não há motivo para tal, terei forçosamente de concluir que, mais uma vez ao abrigo desta análise racional, estaremos a limitar as nossas possibilidades de acção desnecessariamente, e, enfim, posso ter sido levado pela retórica ao designar isso "uma tentativa ingénua [e] inútil".

Como seguidamente referes (e, da minha perspectiva, bem), o facto de termos a tendência inata e irracional para considerar essas acções incorrectas pode ser um sinal de que efectivamente o são, mas aí já começamos a entrar na perspectiva que defendo: a moralidade não pode ser avaliada à luz de critérios racionais.

Poderás responder-me que aquilo que torna a acção acima mencionada imoral não é um qualquer princípio objectivo, mas a tal "intuição", o tal "sentido moral" que possuímos e nos permite identificar a acção como indesejável nesse sentido. A minha resposta é que me parece que estás a incorrer numa confusão. Uma coisa são os hipotéticos princípios morais, as propriedades intrínsecas às acções (e aos seus efeitos e intenções) que as tornam aceitáveis ou condenáveis; outra coisa é a capacidade humana de apreender tais princípios. Estas duas coisas são independentes.

De facto, podemos conceber que existam princípios morais objectivos, mas que nós, seres humanos, somos incapazes de os compreender e apreender na sua totalidade e profundidade, do mesmo modo que talvez sejamos incapazes de compreender a totalidade das leis naturais. Por outro lado, podemos conceber que exista algum tipo de faculdade moral que nos permite classificar acções como permissíveis ou impermissíveis, não existindo estas categorias morais de um modo autónomo e objectivo (como pareces argumentar). Mas os princípios morais e a faculdade moral não são alternativas um ao outro.

Parece-me que tu próprio pareces reconhecer a necessidade de alguma objectividade em pelo menos alguns juízos morais na parte final do teu texto. Mas, se é esse o caso, então as categorias morais de certo e errado têm alguma forma de existência e a faculdade moral a que te referes é simplesmente um "sentido" que permite apreendê-las; usando a tua analogia, as cores têm uma existência exterior às nossas faculdades de as apreender. Algo não é verde em virtude de o apreendermos como tal, mas sim em virtude de características intrínsecas que o tornam verde. De forma análoga, eu diria que é plausível pensar que existam princípios morais objectivos (ainda que possa não existir uma "teoria de tudo" na moralidade que reduza estes princípios a apenas um cerne irredutível) e que a "faculdade moral" a que te referes, a existir, será apenas uma capacidade de percepção e apreensão do que esses princípios implicam.

Provavelmente não fui muito claro, mas o que pretendia efectivamente defender, incluindo com os exemplos, é que as acções têm uma componente moral que é objectiva e lhes é intrínseca, mas a percepção que dela fazemos pode não o ser.

Isto, no entanto, não quer dizer, para mim, que essa componente moral possa ser decidida com base num conjunto de princípios racionalmente exprimíveis: podemos tentar encontrar, se quisermos chamar-lhe assim, uma teoria explicativa das propriedades morais com base na experiência acumulada que nos permita fazer previsões e, eventualmente, ajudar a suplantar as insuficiências desse nosso sentido moral, mesmo sem ambicionar a tal "teoria do tudo", mas parece-me que estaremos a tentar "racionalizar o irracionalizável". Isso não quer dizer que a tarefa seja intrinsecamente inútil ou inglória (não mais do que o é a racionalização do irracionalizável que se pratica commumente sob o nome de "Ciência"...), mas, da minha perspectiva, estamos a usar os instrumentos errados na análise.

Não consigo fazer uma metáfora tão vívida quanto queria, mas era como se tentássemos adivinhar a forma da membrana de um tambor só pelo som, o que é um problema matemático interessante, já agora, e a resposta pode até ter alguma utilidade mesmo que indirecta, mas acho que todos podemos concordar que olhar e/ou mexer nele acaba por ser uma melhor opção...
 
       
Ocasionalmente discute-se (não necessariamente neste tópico) o tema do aborto. Deixo aqui um artigo, extraído do Compêndio em Linha de Problemas de Filosofia Analítica, sobre o aborto, da autoria de Pedro Galvão:

 
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