O que nos dizem os debates: a questão do eixo esquerda-direita
Tenho assistido, sem exceção, a todos os debates para as próximas eleições legislativas e a vários dos comentários que lhes dizem respeito em diferentes canais televisivos. Já muito se disse acerca dos seus tamanho e estilo – curtos, frequentemente com temáticas soltas e pouco aprofundadas, enviesados por propostas que exigem posterior clarificação por parte das/os líderes partidárias/os e algumas vezes excessivamente centrados nas questões da governabilidade do país. Por isso, venho discutir uma outra questão que me tem feito pensar acerca da forma como se encontra estruturada a própria política – a operacionalidade do eixo esquerda-direita.
O que quero dizer com isto? Bem, atentemos no caso de três partidos, todos eles distintos entre si: Partido Social Democrata (PSD), Pessoas-Animais-Natureza (PAN) e Iniciativa Liberal (IL). O PSD, sob a égide da liderança de Rui Rio, afirma-se atualmente como um partido de centro, por vezes de centro-esquerda, quando é tantas vezes conotado de centro-direita ou mesmo de direita. Já o PAN e a IL, amiúde associados, respetivamente, ao centro-esquerda e à direita liberal, não se identificam como parte de um eixo que consideram redutor para representar as causas por que pugnam. Ora, diante destes três exemplos, podemos questionar-nos até que ponto falar de esquerda ou de direita é suficiente – portanto, operacional – para classificarmos os partidos quanto às suas posições económicas, sociais e ideológicas e, como tal, para tornarmos as discussões mais organizadas e certeiras.
É claro que muitas pessoas defendem que esta característica continua viva e marcante para o entendimento das propostas partidárias, em particular, e da política, em geral. Por exemplo, a jornalista do Expresso Ângela Silva, no Jornal da Meia-Noite da SIC Notícias, afirmou que tem existido uma certa tendência para deixar de se falar de esquerda e de direita, mas que os debates para as legislativas têm permitido ver o leque de opções que as/os eleitoras/es têm dentro desse horizonte ou esquema político-partidário, logo, fazendo o mesmo sentido. E mesmo numa lógica mais científica, como argumenta a Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa Sílvia Mangerona, “continua a existir interesse teórico na definição de esquerda e direita como elemento de medição entre ideologias e os conceitos continuam a ser utilizados na linguagem política do debate, luta e exercício do poder”. Veja-se, de resto, como prontamente partidos como o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP), por um lado, e o Centro Democrático Social-Partido Popular (CDS-PP) e o Chega, por outro, se atacam mutuamente reduzindo esquerda a socialismo e comunismo e direita a neoliberalismo, confundindo ou fazendo confundir uma matriz ideológica com um conjunto bem mais amplo de matrizes, posições e reivindicações.
A utilidade da dicotomia que tenho vindo a referir equipara-se à do conceito sociológico de classe social. Também aqui há quem defenda a presença material das classes sociais e quem a distinga da sua existência social ou intelectual. Contudo, a verdade é que a postura mais profícua, tanto ao nível analítico como ao nível das vivências reais, é a conciliação das duas anteriores, dado que as classes sociais, em si mesmas, não passam de uma teorização das condições de vida dos grupos sociais, mas tal concetualização, ao nível dos rendimentos e das questões socioculturais, tem uma sobreposição na realidade que possibilita a sua validade. O mesmo acontece com a esquerda e a direita políticas, que traduzem perspetivas sobre a sociedade efetivamente existentes e com vozes próprias. Isto significa que não podemos descartar sem mais nem menos o eixo a que estamos habituadas/os a ver e a empregar nas nossas conversas e debates, ao mesmo tempo considerando que determinadas ideologias, como o ecologismo e o liberalismo, e as causas que lhe subjazem percorrem tal reta política ao ponto de encontrarem cruzamentos legítimos e viáveis para uma construção de pontes democráticas e relevantes a fim de darem resposta aos problemas sociais que nos afligem.
Leonardo Camargo Ferreira