Vamos lá fazer um pequeno ritual de necromancia neste tópico...
Existem muitos números. Mesmo muitos. Uma infinidade deles, na realidade. Nesta mensagem, vou referir-me apenas aos chamados "números naturais", ou seja, os números
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, ...
(Há quem ache que o número zero devia ser incluído no conjunto dos números naturais. Não quero meter-me nessa controvérsia hoje. Vou simplesmente chamar "números naturais" a estes, não incluindo o zero.)
Para além de existirem muitos números naturais, cada número natural pode ser descrito ou nomeado de muitas maneiras diferentes. Só para dar um exemplo, considerem o meu número natural favorito, o 13. Eis cinco maneiras diferentes de nos referirmos a ele ou de o descrevermos:
treze;
o número que resulta da adição de sete e seis;
o sexto número natural primo;
o sétimo número natural ímpar;
o menor número natural primo que dá origem a um número primo diferente quando os seus algarismos são escritos pela ordem inversa.
Poderíamos pensar numa infinidade de descrições do número 13, tal como poderíamos pensar numa infinidade de descrições para qualquer outro número natural. Algumas destas descrições são mais concisas (a primeira descrição que apresentei acima tem apenas cinco letras) e outras são mais palavrosas (a última descrição das cinco apresentadas tem cento e sete letras).
Vamos pensar na seguinte questão: será que existem números naturais que não podem ser descritos em menos de sessenta e nove letras? Muitos números naturais pequenos podem ser descritos em poucas letras (basta considerar os seus nomes usuais em português). Por exemplo, o número 235 pode ser descrito como "duzentos e trinta e cinco" e esta expressão tem apenas vinte e uma letras.
No entanto, a língua portuguesa tem apenas um número finito de letras (vinte e seis; um pouco mais se decidirmos contar as letras com acentos e outros sinais gráficos como sendo distintas). Deste modo, existe apenas um número finito de expressões em português com menos de sessenta e nove letras. Logo, existe apenas um número finito de descrições possíveis com sessenta e nove letras. Uma vez que há uma infinidade de números naturais, existirão certamente alguns que não admitem uma descrição com o limite indicado de letras.
Até aqui esta discussão não parecerá muito problemática. Mas, neste ponto, podemos fazer a seguinte observação: se existem números naturais que não podem ser descritos em menos de sessenta e nove letras, então certamente existirá um primeiro número natural que não admite uma descrição destas. Vamos chamar N a este número.
Como podemos descrever o número N? Uma forma de o fazer, tendo em conta a discussão anterior, é:
- o menor número natural que não pode ser descrito em menos de sessenta e nove letras.
Bem, quantas letras tem esta descrição? Se as contarem, constatarão que tem... sessenta e oito! Este número N, que (por definição) não admite uma descrição em menos de sessenta e nove letras, tem, afinal, uma tal descrição! O que correu mal aqui? Como explicar isto?
Este paradoxo é conhecido como "paradoxo de Berry". Uma resolução completa deste paradoxo exige algumas noções bastante sofisticadas de lógica, pelo que não vou apresentá-la aqui. Quem estiver interessado pode investigar mais sobre o assunto ou, simplesmente, tentar perceber onde está o problema por si mesmo, se se atrever.
