Aproveitando o momento em que a epopeia de Homero volta a ter protagonismo na sétima arte, talvez não fosse má ideia convidar o Sr. Ministro a acompanhar Ulisses até Ítaca, desde que os marujos garantissem a abertura do jarro com os ventos de Éolo pelo caminho. O acesso ao ensino superior em Portugal sempre foi fértil em peripécias homéricas, mas desta vez esmerou-se. Parece que os 24 cantos originais não bastaram; já vamos a meio do 25.º, ou, quiçá, a inaugurar o 26.º.
Mas deixemos o Ministério de lado. A verdadeira odisseia, a que importa traduzir para que se compreenda o ridículo do momento, tem outro protagonista. Coloquemos o estudante no lugar de Ulisses. A sua Tróia já foi conquistada: sobreviveu a anos de cerco no secundário e enfrentou estoicamente as trincheiras dos exames nacionais. Logo a seguir, teve de escapar à caverna do Ciclope, onde a burocracia cega do sistema de acesso, com um só olho, mede os estudantes e teima em reduzi-los a um mero número, tratando o talento e a vocação como um autêntico “Ninguém”.
Sobrevivendo ao gigante e de candidatura submetida, o nosso herói preparava-se para uma viagem tranquila rumo a Ítaca. O problema é que, no alto mar, vê-se atraiçoado por um Poseidon de fato e gravata. Quando o gajeiro finalmente avistou terra e a chegada parecia inevitável, bastou uma “inovação” administrativa para libertar uma tempestade. As classificações ficaram aprisionadas numa plataforma e, de um momento para o outro, toda a embarcação voltou ao alto mar da incerteza.
Foi na ressaca deste abalo que a embarcação deu por si encurralada entre Cila e Caríbdis. De um lado, as exigências inflexíveis de um redemoinho burocrático de regras de ingresso em constante vai-vem; do outro, o monstro de seis cabeças da crise do alojamento, de boca aberta para devorar as poupanças da família. Escapar a um significa, quase sempre, chocar com o outro. Não seria difícil compreender se o nosso Ulisses ponderasse arranjar um passaporte para o outro lado do mundo; com certeza Penélope compreenderá que, hoje em dia, a emigração se tornou o atalho mais lógico para o sucesso.
Mas teimoso como é, resiste.
Ulisses continuou a remar. Não porque acreditasse que o mar lhe passaria a fazer favores, mas porque, como tantos estudantes, já aprendera que desistir nunca figurou entre as opções oferecidas pelo sistema.
Já de regresso a casa, avistando os portões do seu polo universitário, Ulisses aproxima-se. Está exausto, desgastado, irreconhecível em relação ao jovem que, meses antes, não adivinhava que o estudo para o exame de Matemática A viria a ser o menor dos seus problemas. É então que encontra Argos: a vocação que nunca perdeu e o olhar orgulhoso de quem sempre acreditou nele. Este canídeo, mesmo perante um herói em farrapos, reconhece-o, abana a cauda e finalmente descansa. A pior parte, afinal, ficou para trás.
Agora apenas terá de enfrentar os inevitáveis pretendentes que ocupam qualquer universidade: noites mal dormidas, avaliações, burocracias e pequenas injustiças. Depois de tudo o que passou, será apenas mais uma batalha. Ao menos, a partir daí, a vida recomeça, uma nova história tem o seu início e Ítaca volta finalmente a ser casa. O ensino superior prova ser, mais uma vez, um lugar pelo qual valeu a pena lutar.
E talvez, apenas talvez, no final de toda esta tormenta, quando o nosso herói finalmente se sentar no anfiteatro, Poseidon já se tenha demitido.
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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.
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