O relatório “Balanço Anual da Educação 2026”, elaborado pelo EDULOG (o think tank da Fundação Belmiro de Azevedo), revela que Portugal concluiu uma das mais rápidas convergências educativas do continente. No entanto, o mesmo estudo acende os alertas: em 2025, a nova exigência das duas provas de ingresso e o fim das regras da pandemia provocaram uma quebra inédita de candidatos no Concurso Nacional de Acesso (CNA).
Portugal alcançou um marco histórico na última geração. Aquela que tantas vezes foi apelidada de “geração mais qualificada de sempre” já não é apenas um chavão nacional: é uma realidade consolidada face aos nossos parceiros europeus. De acordo com os dados apresentados no relatório Balanço Anual da Educação 2026, a convergência dos níveis de instrução da população com menos de 35 anos está praticamente completa.
Olhando para a faixa etária dos 23 aos 27 anos, Portugal situa-se hoje nos lugares cimeiros da União Europeia, com 43% dos jovens a possuírem o ensino superior completo. Além disso, o país destaca-se na proporção de mestres (13%) neste mesmo grupo etário, posicionando-se substancialmente acima da média da UE-27 para a população ativa global. Outro dado impressionante revela que, em 2024, 50% dos jovens portugueses entre os 18 e os 20 anos estavam inscritos no ensino superior, o que representa um crescimento expressivo de 13 pontos percentuais face ao período pré-pandémico.
O reverso da medalha: Um choque geracional profundo
Embora o topo da pirâmide geracional brilhe na Europa, o relatório da Fundação Belmiro de Azevedo faz questão de sublinhar o forte contraste intergeracional, que continua a ser a principal marca distintiva do perfil educacional português. Se os jovens lideram as tabelas, as gerações mais velhas ainda arrastam o peso do atraso estrutural do século passado: na faixa dos 35 aos 45 anos, a proporção de cidadãos com o ensino secundário completo fica 10 pontos percentuais abaixo da média europeia, uma barreira que se agrava para uma diferença de mais de 35 pontos no segmento dos trabalhadores em fim de carreira ativa.
A boa notícia é que o sistema de formação de adultos está a dar sinais de forte dinamismo, com a taxa de participação da população adulta (25-64 anos) a atingir os 17% em 2025, superando a média da UE-27 e aproximando-se da fronteira dos países com melhor desempenho.
O Alerta: Acesso ao Ensino Superior regista quebra sem paralelo em 2025
Apesar deste cenário de elevada qualificação, o relatório dedica uma análise minuciosa àquilo que classifica como um verdadeiro terramoto na procura de ensino superior no último ano letivo. Em 2025, o número de candidatos à 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA) caiu 16,4%, traduzindo-se na perda de quase 9.600 candidatos (-9.587) face ao ano anterior.
Pela primeira vez em dez anos, configurou-se uma inversão histórica no sistema: o número total de candidatos únicos ao longo das três fases (54.494) ficou abaixo do número total de vagas oferecidas (55.292). O resultado direto foi uma queda drástica na taxa de ocupação global, que recuou de 96% para 89%, sendo que na 1.ª fase a ocupação ficou nuns inéditos 79%, o valor mais baixo da última década.
De onde veio a quebra? O efeito combinatório de três “filtros”
Os investigadores do EDULOG explicam que este recuo acentuado não pode ser imputado a uma causa isolada, resultando antes de uma sucessão de barreiras regulamentares e demográficas:
- A demografia a esvaziar a base: A população residente com 17 anos e o número de inscritos no 12.º ano mantêm uma trajetória descendente sustentada. Em 2024/25, registou-se uma quebra de 2.720 inscritos no último ano do Secundário, afetando de forma mais vincada os Cursos Científico-Humanísticos (-4,4%).
- O regresso dos exames obrigatórios no Secundário: O ano letivo de 2024/25 marcou o fim definitivo do regime excecional da pandemia (onde os exames nacionais serviam apenas como provas de ingresso). Com a reintrodução da obrigatoriedade de realizar três exames nacionais para concluir os Cursos Científico-Humanísticos (valendo 25% da nota da disciplina), a taxa de conclusão do Secundário nestas vias caiu quase 5 pontos percentuais, fixando-se nos 85,1%. Menos alunos a concluir significa, imediatamente, menos candidatos elegíveis.
- A barreira das duas provas de ingresso: Esta foi a grande mudança regulamentar de 2025. A exigência de pelo menos duas provas de ingresso positivas para a candidatura e o aumento do seu peso mínimo para 45% (que na prática se traduz em 50% na fórmula da nota de candidatura na maioria das instituições) funcionou como um enorme travão. Cerca de 61% do volume total da quebra de candidatos gerou-se precisamente nesta etapa, afetando de forma severa os alunos oriundos das vias profissionais e tecnológicas, cujo percurso nunca esteve tão focado na realização de exames nacionais e para quem o “custo” e a incerteza de concorrer duplicaram.
Assimetrias agravadas: Politécnicos e Interior pagam a fatura
A quebra de procura não se espalhou de forma uniforme, tendo vindo a cavar ainda mais o fosso entre subsistemas e regiões.
O subsistema universitário demonstrou uma sólida resiliência: embora tenha perdido 11% de candidatos em 1.ª opção, o “excedente” de procura habitual absorveu o impacto, resultando numa redução de apenas 5,7% nos alunos efetivamente colocados na 1.ª fase. Por oposição, o subsistema politécnico sofreu uma quebra severa de 27% nos candidatos em 1.ª opção, o que provocou um tombo de 21,6% no número de colocados, deixando milhares de vagas por preencher.
Territorialmente, os distritos de Lisboa, Porto, Coimbra e Braga concentraram 62% da quebra absoluta de candidatos. Todavia, em termos relativos, o Interior foi fortemente penalizado: Beja viu a sua procura colapsar para metade (-50,2%), seguida da Guarda (-39,8%) e de Santarém (-37,7%). A grande e surpreendente exceção em todo o mapa nacional foi Évora, a única região a registar uma variação positiva na procura, crescendo 7,8%.
Nas áreas de estudo, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) viram as suas vulnerabilidades acentuadas, tombando para uma pressão de procura de apenas 0,5 candidatos por vaga. Em sentido inverso, a área da Educação (cursos de formação de professores) continuou a sua rota de recuperação em contracorrente, registando um aumento de candidatos e colocados.
Um “filtro de qualidade” não intencional?
Apesar do impacto negativo nas instituições de ensino, o relatório levanta um ponto de debate crucial: a quebra de candidatos concentrou-se maioritariamente nos cursos com perfis de sucesso académico mais frágeis.
Historicamente, os alunos que entravam no Ensino Superior com apenas uma prova de ingresso registavam uma taxa de abandono no 1.º ano cerca de 0,6 p.p. superior à dos restantes colegas. Ao analisar o comportamento do concurso de 2025, o EDULOG descobriu que os cursos situados no quartil com menor taxa de abandono histórico (os mais concorridos e estáveis) quase não perderam procura (-4,5% de candidatos). Pelo contrário, os cursos situados no quartil de maior abandono histórico (onde a taxa média de desistência ronda os 8,5%) viram o número de candidatos desabar cerca de 30%.
Isto indica que as novas regras funcionaram como um elemento dissuasor focado sobretudo em candidatos mais indecisos ou com menor preparação académica de base. Resta saber se, nos próximos anos, esta triagem se vai traduzir numa redução efetiva das taxas de abandono escolar no 1.º ano.
O caminho a seguir segundo o EDULOG
Para garantir que Portugal não perde o balanço da qualificação da sua população, o think tank defende que as políticas públicas devem focar-se em:
- Reduzir o custo de concorrer para o Ensino Profissional: Apoiar pedagogicamente e orientar os alunos das vias profissionalizantes na preparação para exames.
- Reorganização e revisão de vagas: Adaptar e rever urgentemente a oferta de vagas e os perfis dos cursos nas regiões periféricas onde as sobras se tornaram crónicas, alinhando-as com as reais necessidades locais.
- Diversificação de públicos: Expandir o recrutamento de novos estudantes para além dos jovens que saem diretamente do Secundário, atraindo adultos que necessitam de requalificação profissional ao longo da vida.
E tu, o que pensas destas conclusões? Achas que as duas provas de ingresso vieram credibilizar o acesso ou afastar injustamente os candidatos? Partilha a tua experiência no nosso fórum!

