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O céu parece mais cheio porque o mundo parece mais vazio. De repente tornámo-nos crentes das estrelas e do abstrato, e hoje somos como essas estrelas todas as noites, quando o sol se esconde e permanecemos acesos nas nossas casas, como estrelas disciplinadas num céu invertido. Somos luzes que o mundo precisou de acalmar para que o ser humano não se julgasse sol.

Em cada noite elevam-se desejos de redenção, de anjos livres e entregues ao destino. Agora desejam-se as pequenas coisas, não as substanciais, mas as rasas, deseja-se o toque do despertador, o café tomado à pressa, a cama por fazer, deseja-se o colega chato do trabalho, a falta de pausas para respirar, a ânsia da hora de saída, deseja-se a saída à noite ao fim de semana, a ilusão desses olhares da discoteca, a cabeça cheia de músicas rasas, deseja-se a empregada cansada, os cães a ladrar por falta de amor, o portão automático a fechar-se antes do pôr do sol. Deseja-se o raso porque poucos são os que sempre viveram acordados.



Não vai ser da janela do arranha céu que iremos ver além fronteiras, não vai ser com esses corações fechados para o mundo que iremos acordar, porque o problema não é o isolamento físico, é o isolamento emocional que nos anula a conexão com o universo. Podemos ver a panorâmica das cidades, mas será que nos vemos a nós?

Somos produtos da sociedade, somos como números de uma slot machine sempre a rodar. Triste como apenas se deseja a vida que se levava. Mais uma vez o ser humano cai no abismo de desejar o que perdeu. Mas seria sustentável a vida que levávamos? A mesma que era frustrante e motivo de depressões profundas, que era a origem de medos e desilusões, a vida que se converte numa luta contra o tempo, sendo que deixamos de pertencer a esse tempo e ao propósito que nos move.

Todos vivíamos num inferno, até que todos paramos e falamos da vida como se fosse um paraíso. A vida humana não era a azáfama que alimentávamos, não era o artificial leque citadino onde vivíamos. A vida humana é a solidão que estamos a viver agora, é apostar naquilo que nos faltou, é a oportunidade de nos reinventarmos. É a oportunidade de nos revolucionarmos perante regras rígidas e desumanas no trabalho quando voltarmos a ele, porque agora saboreámos o poder da paz psicológica. Não nos revoltemos com os salários baixos na ausência de trabalho, revoltemo-nos com os salários baixos quando existe trabalho árduo. Que a economia não dê voz às ambições de um país, mas que o amor coletivo dê voz à essência de um povo.

A pobreza não só vai existir depois disto, como sempre existiu, porque a pobreza não é de agora, e a pior pobreza é aquela que existe quando todos estão bem de saúde, porque a pior pobreza é a emocional, é a doença do preconceito. É a oportunidade de nos revolucionarmos perante o machismo nas relações, a objetificação dos sentimentos e o papel de elo mais fraco para aqueles que sabem amar, quando agora o amor é um papel que cabe aos elos mais fortes.

Aprendamos que ser-se um profissional de saúde em período de pandemia é como ser-se romântico nas trevas da vida, é acreditar que haverá sempre um dia de amanhã pronto a esculpir melhores seres humanos. É acreditar no poder da alma, na força da natureza. Desejemos então aquilo que nos faltou. Desejemos o tempo e o silêncio futuros, não em formato de oásis. Desejemos apreciar a arte de museus nunca vistos ou teatros desconhecidos. Dar as mãos a quem nunca nos falhou e pedir desculpa àqueles que abandonámos.

Enquanto estamos todos no nosso casulo, abracemos a comida a fumegar, a família sentada à mesa, o sofá em frente à lareira, o café da máquina, as almofadas velhas do sótão, o algodão dos nossos lençóis, as meias oferecidas no natal, a árvore mais antiga do nosso quintal, o cão do vizinho a ladrar, o céu a respirar e o pôr do sol a surgir. Se sentirmos isto vezes sem conta, dias e dias, sem nunca nos cansarmos, então já sentimos tudo o que é verdadeiramente importante e crucial.

E depois disto seremos pessoas melhores. Desejemos apreciar a vida de uma forma que nos vai voltar a ser impossibilitada, mas que essa sede de alma e mudança nunca se esgote. Desejemos o que nunca alcançámos. Já experimentámos o egoísmo, a pobreza de espírito, as prioridades materialistas, as hierarquias corruptas, experimentemos agora a vida em comunhão com a natureza.

Se, segundo Alberto Caeiro, pensar é estar doente dos olhos, então que nos curemos deste mal de pensar para abraçar esta bênção de sentir.
Poderia ser uma sociedade louca, mas não, é apenas um planeta em quarentena.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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