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Ser médica sempre foi o que quis, desde que me lembro. Sempre que os professores perguntavam o que queríamos ser nunca hesitei em responder: “quero ser médica”. Foi para isso que me esforcei durante aqueles 3 anos de secundário.

No entanto, não entrei à primeira. No ano de 2015/16 entrei em Medicina Dentária na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa (FMDUL).

Quando recebi o resultado da candidatura, ao início, acho que o choque foi tanto que nem percebi bem o que estava a acontecer, mas pouco depois percebi que aquela realidade que parecia distante, a de falhar, tinha-se tornado mais real que nunca. Chorei. É normal. É bom chorar, às vezes faz mesmo bem. Alguns podem pensar que é um exagero chorar. Não é. São três anos de trabalho que nos parecem ter sido em vão quando nos apercebemos de que não entrámos no que queríamos. A incerteza paira no ar. E agora? Será que se repetir os exames consigo entrar no próximo ano? Será que conseguirei entrar?



No primeiro dia na FMDUL sabia que não era ali que queria ficar, estava revoltada por ali estar. Não queria ir à Praxe, não queria fazer grandes amizades e queria sair no fim do 1ºsemestre para me dedicar exclusivamente aos exames nacionais. Também tinha medo de não conhecer ninguém e de estar à parte. Não conhecia ninguém quando lá entrei.

No entanto, no 1º dia, resolvi experimentar a Praxe. Afinal era só um dia e eu não tinha nada melhor para fazer. Gostei. Gostei muito e voltei mais um dia. E mais outro, até que dei por mim e a primeira semana de Praxe estava no fim. Tinha-me “esquecido” de toda aquela preocupação e incerteza em relação ao futuro, e de toda a revolta e tristeza de não ter alcançado o meu objetivo. Fiz amigos, grandes amigos, que espero manter no futuro. Comigo estavam imensos colegas que estavam na minha situação. Não estava sozinha.

Dizer que a Praxe foi a razão pela qual fiquei seria uma visão algo redutora. Fiquei pela Praxe, por culpa de gostar de ser caloira, fiquei por saber que ia ter equivalências a certas cadeiras e que iria ter algo para fazer, mas fiquei principalmente pelas pessoas que conheci, com quem formei amizades que espero conservar durante muitos anos, e porque a ideia de estar fechada em casa exclusivamente a estudar me assustava.

No 2º semestre a realidade atingiu-me. Exames nacionais, neuroanatomia e imensas cadeiras com trabalhos de grupo ou frequências que me iriam ocupar o semestre inteiro e deixar-me sem tempo. Não consegui desistir da faculdade como planeava, nem muito menos deixar cadeiras para trás. Grande parte dos meus amigos que queriam medicina e iriam fazer algum exame nacional (predominantemente FQ) desistiram da anatomia mais temida, a neuro. Os próprios professores não eram propriamente animadores. Logo na primeira aula o regente fez questão de dizer que quem queria fazer exames nacionais não iria conseguir conciliá-los com a sua cadeira.

Isto não me fez desistir. Tive momentos em que quis. Verdade seja dita, neuroanatomia mais 5 cadeiras e 2 exames nacionais pode ser para alguns uma dose de leão.

A Praxe para mim tornou-se um escape semanal. A quinta-feira era o meu dia favorito, aquele pelo qual esperava todas as semanas. Era uma forma de me motivar a estudar FQ ou BG. Só ia à praxe se estudasse x matéria nesse dia. O mesmo se aplicava aos Sábados. Se queria ir aos escuteiros tinha de estudar o que tinha planeado. Pode parecer descabido mas funcionou. O que quero dizer com isto é que devem encontrar algo que gostem de fazer, como um desporto ou outra atividade extracurricular para vos motivar a estudar e para manterem a vossa mente distraída. Vão às festas, saiam com os amigos, arranjem um desporto, em suma, arranjem algo diferente. Algo que por uns momentos vos distraia de tudo.

 

Fiz o 2º semestre todo. No primeiro semestre fiz todos os possíveis para não ter exames de recurso para fazer. Ganhei com isso umas 2 semanas que aproveitei para estudar arduamente FQ. Aconselho-vos a fazerem um calendário de estudo para se organizarem eficientemente (uma dica: façam-no a lápis). Eu, por exemplo, estudo por resumos. Primeiro sintetizo a teoria e depois faço exercícios. Organizei o meu calendário consoante a divisão temática do livro da Porto Editora (uma semana para o tema x, outra para o y). Quando o 2º semestre começou ia estudando FQ e BG, realizando os exercícios do Gave, simultaneamente com anatomia e as restantes cadeiras, se bem que o estudo de BG ficou mais para Junho.

Estudei a sério para a primeira frequência de neuro e tirei positiva, na segunda já não estudei por ser na mesma semana que FQ e tive negativa. Junho para mim foi só dedicado aos exames nacionais, daí ter deixado 2 dos exames, que antecediam o fim da época de exames nacionais, para fazer mais tarde, em recurso.

Com isto quero-vos dizer primeiro de tudo que não entrar à primeira não é o fim do mundo, nem representa o fim desta caminhada pela tão cobiçada bata branca. Não é um ano perdido se o souberem aproveitar da melhor forma, pois, irão ter algumas equivalências. Eu interpreto-o como um ano de crescimento, um ano em que aprendi o que era ser um universitário. A exigência necessária, o ritmo de estudo, o ambiente estudantil, entre outros.

Quanto a mim, gostava de deixar um agradecimento a todos os que me ajudaram em diferentes aspetos durante esta “jornada”, aos meus amigos, família e namorado. Lembrem-se que não há nada mais importante do que terem quem vos apoie. Contem com os vossos amigos e família para vos ajudarem a focarem-se no que mais vos importa. Acreditem que não estarão sozinhos nem são os únicos que não entraram à primeira. Na vossa situação estarão outros colegas do vosso curso. Apoiem-se mutuamente. Um ano passa a correr, mais depressa do que desejaríamos.

Vejo isto como uma experiência positiva em que fiz amizades e vivi momentos que nunca teria vivido se não tivesse passado por dentária. Guardo um lugar especial no coração para a FMDUL e para todos os que conheci.

Como alguém uma vez disse: “Nem tudo tem um porquê, mas tudo tem um sentido”.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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