O medo não desaparece e a incerteza nunca acaba

Já dizia a sabedoria popular: “O medo corrói e destrói!”. E o ser humano, como algo imperfeito que é e sempre será, é naturalmente um ser amedrontado e cheio de incertezas. Podemos aprender a viver com isso, a combater e a ir ultrapassando, mas nunca nos livraremos em definitivo de tudo o que nos deixa com dúvidas, desconfianças e medos.

Para um estudante que acaba de chegar ao ensino superior, atualmente a maior fonte de dúvidas, desconfianças, temores e medos tem a ver com a Praxe. Naquela altura, a primeira vez que entramos pelas portas de uma faculdade, tudo é novidade: novas instalações, novas pessoas, novos professores, novas formas de encarar o dia-a- dia…é um mundo totalmente novo. E aliado a esse mundo novo com que nos acabamos de confrontar, existe ainda uma outra realidade diferente daquilo a que se estava habituado. Nesta realidade são-nos retiradas todas as manias de nos acharmos os maiores, é-nos retirada toda e qualquer ponta de falta de humildade que possamos ter, aprende-se a olhar para seres diferentes de nós como se fossem iguais. No fundo, os primeiros impactos que temos ao escolher estar em Praxe é estarmos iguais entre iguais.



Aqui tudo é uma novidade e cabe-nos a nós ir em busca, pois nesta realidade nada nos é dado de mão beijada mas sim conquistado com o nosso esforço e persistência. E é também aqui que os medos e incertezas vêm ao de cima. O medo do desconhecido está sempre presente, o medo de nos darmos a conhecer a alguém é uma constante, o medo que rumores e afirmações (falsas como mais tarde nos iremos aperceber) que se vão ouvindo um pouco pela sociedade e pela comunicação social sejam verdade…o medo, tantas vezes o medo que nos ocupa a alma e que nos tolhe o discernimento! E se há algo que alimenta o medo são as nossas incertezas, as dúvidas sobre se seremos capazes, as questões retóricas que por vezes colocamos sobre o porquê de nos sujeitarmos a algumas coisas, as perguntas cuja veracidade das respostas iremos descobrir mais tarde.

Mas tal como em tudo na vida, um Caloiro também aprende a lidar com isto. Aos poucos vai-se apercebendo da realidade que o rodeia, aos poucos vai descobrindo a resposta a tantas das suas questões, aos poucos aprende a valorizar o que antigamente poderia nem fazer sentido para si…aos poucos vai exorcizando os seus medos, receios e incertezas. Aos poucos, quase sem se dar por isso, o primeiro ano e o primeiro impacto já passou e não foram os medos que ficaram, mas sim as boas recordações e as ótimas pessoas que se ganharam nesta batalha constante por eliminar tudo aquilo que nos ocupava e enchia a cabeça no início.

No entanto, e voltando ao conceito de ser imperfeito, os medos e as incertezas renovam-se. A diferença é que agora já não têm a ver só connosco próprios, mas sim com os outros que inevitavelmente acabarão por passar pelas nossas mãos. O medo de não estar à altura da ocasião, de não ter a capacidade de transmitir aos outros o que de tão bom nos passaram a nós, de ao dar o nosso cunho pessoal acabarmos por estragar e distorcer as mensagens…o simples medo de olhar em frente e ver as caras inseguras e amedrontadas que nos vão aparecer e vermos nessas caras também um bocadinho daquilo que nós fomos, de ver nos olhos de algum Caloiro o espelho daquilo que nós éramos.

Desengane-se quem pensa que apenas um Caloiro sente medo. Ainda hoje me lembro de ter as minhas pernas a tremer quando vi pela primeira vez um Caloiro minha frente, de gaguejar nas primeiras palavras que lhe disse, de estar tão nervoso que o meu olhar não era fixado neles mas sim em algo abstrato que me ajudasse a superar o nervosismo.

O medo existe sempre, quer seja da parte de quem vem de novo (e que vai embarcar numa nova aventura), quer seja da parte de quem recebe e tem a responsabilidade de cativar e fazer superar o “novato” daquela timidez, ansiedade e inquietude inicial.

Ao contrário do que muitos pensam, a quantidade de anos que passa não aumenta o poder de quem está inserido nesta realidade. Só há uma única coisa que a experiência traz: responsabilidade. Cada vez serão mais olhos colocados em nós, à procura que a nossa experiência possa ajudar em momentos mais complicados, à procura de um exemplo a quem seguir, à procura de alguém em quem confiar.

Medos e incertezas teremos sempre e isso não há volta a dar. O que importa é ir sabendo superá-los em cada uma das etapas e, no final de um percurso que se deseja bonito, repleto de boas experiências e recheado de ótimas pessoas, conseguir olhar e ver que as seguintes frases fazem todo o sentido: “Um dia vais olhar para trás e saudades sentirás. O tempo passou a correr numa nova forma de viver. Cantaste com o coração, marcaste uma geração. E a tua maior recompensa? Tu fizeste a diferença!”.

Só capas, só fitas…a Praxe continua!

Dura Praxis, Sed Praxis.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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