Toda a ideia de chegar ao ensino superior é já de si um fardo assustadoramente pesado, no entanto entrar no mundo da faculdade não é a parte mais difícil daquilo em que consiste a vida universitária. Não são os exames, as potenciais praxes abusivas ou a deslocação para um mundo novo aquilo que custa mais na entrada no mundo académico, aquilo que consome qualquer jovem por dentro.

Na minha opinião pessoal a pior parte é simplesmente estar perdido. É a frustração de entrar para um curso estando convicto de que é aquilo que realmente queremos mas ao fim de algum tempo desistir, ou melhor dizendo, não se saber o que se quer.



Quer seja nestes parâmetros ou noutros semelhantes, como não ter média para entrar no mesmo ano que a maioria dos nossos amigos, ou simplesmente tirar um gap year forçado, graças às nossas perspetivas futuras toldadas, as pessoas à nossa volta têm, sempre tiveram e eventualmente sempre vão ter, a tendência de nos fazer sentir ainda pior com esse facto, e qualquer pessoa que esteja na mesma posição que eu, ou seja perdido na vida, sabe do que falo e já ouviu ao certo uma boa dezena de “A culpa é dos pais”, “Os jovens de hoje em dia…”, “Não querem é fazer nada”, ou tantas outras expressões como esta que ao fim ao cabo invalidam completamente o que sentimos, que não passa de medo de crescer, e põe toda a responsabilidade na nossa mítica “preguiça geracional”.

A verdade é que não há nada de errado com o não saber o que se quer, não há nada de errado com ter medo do futuro e querer tomar a decisão certa, porque escolher o nosso futuro é algo que nos é imposto à pressão desde muito novos, e nem todos nós temos de traçar a nossa vida inteira ao mesmo tempo, muito menos temos de nos sentir culpados por não sermos capazes de tomar essa decisão consoante a felicidade dos outros. “Não se pode agradar a gregos e a troianos”, ao fim de 18 anos percebi o verdadeiro significado disto.

Não sei melhor maneira de falar sobre este assunto sem ser explicando o meu caso pessoal, na expectativa de que todas as pessoas que este ano tinham a “missão” de subir mais um degrau académico e não o fizeram, ou pelos não da maneira previamente planeada, encontrem aqui a sensação de compreensão. Falo por mim quando digo que toda esta ideia de ser uma inutilidade, é uma merda.

Setembro de 2015, altura da tão esperada entrada na universidade, eu entrei na ESCS em Jornalismo, e não me interpretem mal, foi a melhor experiência da minha vida, mas em Fevereiro de 2016, após meses de consideração senti aquele aperto no estômago com o qual pelo menos metade das pessoas que está a ler isto já se deparou no mínimo uma vez na vida, aquela sensação de asfixia, de arrependimento, a falta de motivação, e a descoberta de que algo talvez não seja para nós. Se me perguntarem se fiz bem em sair da ESCS eu digo que não, dá me a volta ao estômago cada vez que penso nisso, cada vez que penso em tudo o que estou a perder tenho vontade de chorar como um bebé e voltar a correr para lá, ainda nem tive coragem de dizer a verdade aos meus padrinhos de praxe… Mas se me perguntarem se fiz bem em sair de jornalismo, eu respondo que sim, ou pelo menos que acho que sim, porque na verdade a esta altura do campeonato aquilo que eu ainda me sinto segura em afirmar que sei é muito limitado.

Não sei o que quero, tenho medo de estar a desperdiçar tempo da minha vida e de ter perdido uma oportunidade acertada, sim tenho medo de me arrepender, o que causa a própria sensação de arrependimento e tenho medo de nunca vir a ter a certeza absoluta daquilo que quero, de momento tenho medo de tudo. Toda esta história aplica-se a mim e a centenas de outros jovens que não têm a vocação a saltar à tona da pele, e há que aceitar o facto de que não somos “preguiçosos” por isso, aliás nada me deixaria mais feliz do que saber exatamente o que quero desde os 5 anos de idade, eventualmente teria poupado a minha cabeça a imensas frustrações.

No fim de contas apenas tenho o objetivo de relembrar ao mundo que esta parte da vida académica, ou seja o medo, é algo muito constante, mas com tendência a ser esquecido, ou menosprezado, não o façam por favor. Ter medo de não ter um futuro é o pior presente de todos.

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Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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