O sistema de ensino português, nomeadamente a escolaridade obrigatória, carateriza-se por ser pouco personalizado e pouco adaptado às preferências e aptidões de cada um.  Somos rodeados por uma amálgama de equações, casos notáveis, orações, fórmulas químicas e verbos irregulares. Quase todos os programas curriculares foram escolhidos por alguém que não nós, alunos. Se adquirimos muito conhecimento? Sim.  Se perdemos capacidade de escolha? Também.

Muitos dizem que “vamos precisar dos conhecimentos um dia mais tarde”, isso é inegável. Mas na altura de escolher um curso universitário é preciso mais do que esse amontoar de teoria. Se é verdade que há muitas competências que não cabem em livros escolares, a capacidade de decisão é uma delas.



Fala-se de médias que condicionam a entrada dos alunos na universidade, de vagas e contingentes especiais, mas esquece-se que grande parte da nossa geração simplesmente não consegue decidir o que quer para si, grande parte de nós leva meses e meses às voltas na cabeça, incertos com o que possa vir depois. Isto preocupa-me. Isto devia ser mais falado. Simplesmente acho que devia ser mais aceite o facto de não se saber o que fazer depois do 12.º ano sem se ser conotado como alguém “inseguro” que não sabe o que quer da vida. Agora que se aproxima o fim do prazo das candidaturas ao Ensino Superior acho mais importante do que nunca que assuntos como este sejam tratados com a importância merecem.

Há um ano estava no lugar de muitos de vós. Acedia ao site de Acesso ao Ensino Superior e a minha mente era invadida por ansiedade, mil perguntas e medo, parece que nunca tinha estado numa situação semelhante. Senti que o sistema de ensino português não me tinha preparado para aquele momento. Tinha medo de não estar a escolher bem. Tinha medo de não estar a dar ouvidos à minha voz interior. Tinha medo de me estar a meter por caminhos complicados e de “perder o comboio”, porque depois podia ser tarde para o apanhar e para escolher um novo destino. “E se eu não acertar? Se eu não gostar? Terei coragem suficiente para deixar tudo e recomeçar? E se…? E se…?”, basicamente muitos “e ses” irrespondíveis.

Chegou o fim do prazo de inscrição. Escolhi quatro vezes. Escolhi quatro cursos completamente diferentes em quatro opções. O que tinham em comum? Eram “muito eu”. Era como se me visse ao espelho. A minha voz interior dizia-me que eu gostava de todos os quatro,  por isso não me consegui decidir por um. Se estás na mesma situação, isso não é um drama. É a certeza de que há muitos caminhos pelos quais gostarias de caminhar, muitas rotas e muitas maneiras para chegares onde queres. No meu caso, entrei na primeira opção, Ciências da Comunicação na  NOVA FCSH, pode parecer hipócrita, mas no dia em que soube teria ficado igualmente feliz se tivesse entrado na segunda opção. Lá fui eu. Gosto de pensar na vida como uma viagem: esta seria inesquecível, iniciava os “melhores anos das nossas vidas”, segundo dizem. E se foi (ainda está a ser).

O tempo passou a correr e o ano de caloira entre praxes, livros, aulas, festas e jantares chegou ao fim. É bom olhar para trás e perceber que tudo correu bem. Com isto quero dizer-te que é normal não gostares de todas as cadeiras, existirão sempre algumas para as quais, à partida, não vês utilidade e não fazem o teu género. No fundo, importa que gostes de algumas cadeiras, que te consigas imaginar a trabalhar na área, que te identifiques, que encontres a tua vocação. Se escolheste com o coração, acredita que quando perguntas do género “será que escolhi bem?” assaltarem a tua mente a tua resposta será “mas eu não me vejo a estudar mais nada.” Quando isto te acontecer, não sabes o que o futuro te reservará, sabes, porém, que estás a seguir o teu caminho pelos próprios pés.  Quando isto te acontecer, respiras fundo de alívio e pensas no bom que foi teres “acertado” à primeira. Mas e se isto não acontecer? É completamente normal. Talvez não estejas pronto para ir para a universidade ou talvez nem seja esse o teu caminho. Não tem de ser. Pensa que nada estará perdido, lembra-te que só a morte é irreversível. Vais sempre a tempo de apanhar o comboio para o destino que quiseres. Porque tanto o comboio, como o destino são construções tuas. Esse destino tão teu é aquele lugar que ambicionas e para o qual te esforças todos os dias para conseguir alcançar.

Agora, para muitos de vós, “o que importa é partir”. Coragem.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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