Na Queima sente-se uma estranha felicidade que sabe a saudade…

… E de repente passaram-se três, quatro, cinco ou talvez mais anos e está a chegar a ‘última’. A última Queima das Fitas.

Na verdade, o fim começa a dar sinais de si logo no início do último ano, o ano em que se pode tudo, o ano em que se vai dar tudo e viver tudo.

Com o passar do tempo todos os momentos de praxe e academismo passam a saber a pouco e o fado de Coimbra começa a fazer sentido (e a doer cada vez mais).

E eis que ela chega.

Ainda não bateu a meia-noite e um e a descer os Aliados o coração já começa a ficar apertado. Na confusão, os primeiros acordes passam ao lado. São os últimos que ainda não chegaram e já preocupam. Já se pensa nas lágrimas que se vão tentar conter.



Começa a Balada de Despedida e todo o Senhor Doutor vira menino e chora a saudade à capa que, por enquanto, ainda lhe pesa nos ombros. O abraço de um afilhado, a palmada nas costas do padrinho, dois «F*#a-se, já passou.» mentais e lá se enxugam as lágrimas na ponta de um rasgão… para já, que a Queima é grande.

Ainda as capas não aterraram do FRA e já se procura o meio de transporte mais rápido para o recinto. Não se vá desperdiçar tempo de boémia à procura de um táxi milagroso ou na multidão para os autocarros.

Logo na primeira noite brindamos aos nossos, a elas, aos bons velhos tempos e à ‘casa’ que a todos uniu… e assim se leva a noite.

… Um esforço enorme para acordar, um «Nunca mais bebo na vida!», um «Há coca-cola?!» e já se traja para ir a correr ter com os pais para a missa da Benção das Pastas.

Nesse dia o trajar é diferente… tem o mesmo brio da primeira vez mas os nervos, esses, são o dobro.

Se é o pai quem paga, domingo é dia de abandonar a pizza congelada e o almoço é de festa e reforçado (ou forçado se a noite tiver sido dura). Mas neste dia a comida custa a passar e a cabeça já está no que se vai passar a seguir.

Está na hora.

Faculdade cheia. Sobe-se a palco. Vai-se a pasta e vão-se as fitas. Vai-se a capa e com ela o peso da responsabilidade. Cartola na cabeça, uma frase ao ouvido, três bengaladas e acabou.

A tarde desenrola-se e a tabuada do 3 não chega para as bengaladas que se levam. Dão-se abraços, ouve-se aquela frase guardada para aquele dia e ouvem-se parabéns que soam a pêsames.

Sai-se da Imposição com a cabeça dorida mas a certeza de um futuro cheio de sucesso, saúde e sexo.

A noite volta a cair e é dia de jantar com a família. A família que escolhemos. A família que nos escolheu. A família de Praxe.

Os novos são sempre as vítimas, nunca podem faltar a sangria e a receita, e até no mais verdadeiro tasco nos sentimos em casa a relembrar os tempos passados com os mais velhos, a falar alto, de uma ponta para a outra da mesa. Com eles voltamos a sentir-nos ‘os miúdos’, e em boa verdade, agradecemos por isso.

Agora os brindes significam mais e são mais verdadeiros: Brindamos aos nossos. Brindamos aos que estiveram sempre lá. Brindamos novamente a elas. Brindamos aos que nos orgulharam e por quem eramos capazes de levar um tiro. Brindamos aos que nos desiludiram mas por quem levávamos um tiro na mesma. É da Praxe. E brinda-se às memórias (e à falta delas), ao cabrão do Professor, aos ‘amores de estudante’ e às voltas que a vida deu e às que esperamos que venha a dar. Brinda-se muito. Ajuda a esquecer que é a última.

E eis que chega o dia do Cortejo.

Desta vez os Clérigos chegam mais depressa. Desta vez parece que as largadas são mais curtas. Desta vez a cerveja quente «até se bebe». Desta vez olha-se para os Caloiros com inveja do que para eles ainda está para vir e para nós já foi.

Ao cimo dos Aliados já se vê a tribuna. As caras dos finalistas mudam e, se antes sorriam à Invicta, agora coram e olham para o chão de olhos embaciados. Ao subir a Avenida relembram-se momentos. Olha-se em volta à procura das caras que nos fizeram quem somos e das que nos fazem sentir que a missão valeu a pena.

Passa-se a tribuna de quatro para acabar como começamos e logo de seguida desdobram- se abraços aos pastranos, que até há bem pouco tempo praxávamos e chamávamos de ’’bestas’’, mas que eram a razão pela qual vestimos de preto todos os dias.

Desta vez a água suja dos Leões não incomoda e mergulha-se com um sorriso. Afinal, é a última vez em que o podemos fazer sem parecer ridículos. Agora sim, de traje molhado, acabou.

A Queima continua por entre brindes, concertos e autocarros saturados de gente que nos relembra que «de hoje a oito é para a semana».

Acaba-se a Queima e é tempo de reler as fitas. Pendurar pela última vez o traje. Pôr a cartola amassada como um troféu na cómoda do quarto. Aí sim, já sem o entorpecimento causado pelas confusões, pelas bengaladas, pelas noites, pelos copos e pelas ressacas, é que se sente que acabou, ao dobrar a capa pela última vez.

Na Queima sente-se uma estranha felicidade que sabe a saudade. Na Queima vale tudo, pode-se tudo. Na Queima brinda-se muito, a tudo e a mais alguma coisa, para ajudar a esquecer que a vida académica acabou.

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Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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