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No tempo certo: Histórias de Vida de quem entrou na universidade após os 20 anos


Parece existir uma certa tendência para padronizar determinados eventos da nossa vida, principalmente no que diz respeito aos estudos: entramos para a Primária aos 6 anos; aos 15 temos que tomar a difícil tarefa de decidir o que fazer depois do Ensino Básico para, aos 18 anos, estarmos prestes a entrar no Ensino Superior. E é-nos enraizada a ideia de que, tudo o que fugir a esse padrão, pode ser visto como uma falha.

Se entramos na Primária com 7 anos das duas uma: ou tivemos o azar de nascer no mês errado, ou os nossos pais é que não têm noção do impacto negativo que isso vai ter – afinal de contas, o seu filho/a vai ser o mais velho/a da turma! Mas, por outro lado, se a criança entrar ainda antes de completar os 6 anos, é quase que colocada num pedestal, como se o sucesso de uma pessoa pudesse ser determinado por esta se antecipar ou atrasar a esse padrão predefinido.

No final do Ensino Básico, elogiado é o/a jovem que decidir ir para o Ensino Secundário. Porque a sociedade dita que este é o melhor caminho para quem quer ir para a Universidade, não é? Mas e quando isso não acontece? E quando a vida nos troca as voltas e aquilo que queremos representa um rompimento deste padrão? Ficamos muitas vezes divididos entre o desejo de agradar à família e a vontade de criarmos o nosso próprio caminho, talvez com receio daquilo que a sociedade possa pensar sobre nós.

Neste artigo abordaremos algumas questões relevantes, principalmente para aqueles que, sendo mais velhos, desejam agora prosseguir os seus estudos no Ensino Superior.

“Será que faz sentido ir para a Universidade quando já não tenho 18 anos? Será que serei muito velho/a?”

Em primeiro lugar, só tu poderás saber se faz ou não sentido para ti entrares no Ensino Superior. Independentemente dos motivos que te levaram a não entrar antes, é importante saberes isto: não és mais nem menos que os outros por não o teres feito. Se para ti faz sentido investir num curso superior, seja por motivos profissionais ou porque simplesmente gostas de estudar e queres aprender mais, então vai em frente!

Deixamos-te os testemunhos de seis pessoas que romperam com esse padrão e entraram no Ensino Superior com mais de 20 anos. A todas elas, o nosso maior agradecimento por aceitarem colaborar connosco e partilharem um pouco da seu percurso académico e pessoal. Podes ainda encontrar no final do artigo alguns conselhos deixados para quem pretende entrar na Universidade, sendo mais velho.


“Soube tarde a área que queria estudar, era a típica “indecisa”. Foi difícil escolher no secundário e não quis passar por isso novamente ao escolher um curso de faculdade. Com 18 anos fui trabalhar e só nessa altura comecei a perceber o caminho que queria seguir. Aos 22 anos candidatei-me pelo Concurso Nacional de Acesso, entrei na minha última opção, mas isso não me desmotivou. Mais tarde consegui mudar para aquela que era a minha 2ª opção, tudo enquanto mantive o meu trabalho a tempo inteiro. Ser mais velha traz-me um maior foco nos objetivos e sei exatamente o que quero retirar desta experiência. Sei que precisava de amadurecer para valorizar aquilo que o ensino superior tem para me oferecer.” – Inês Palma


“A minha experiência ao entrar com 21 anos, foi efetivamente positiva e surpreendente. A questão da idade deixou-me no começo um pouco receosa na parte das amizades ou até de não me adaptar bem, mas esses medos foram todos postos de parte após perceber que existem várias faixas etárias a completarem os seus estudos e que não existia dentro da faculdade nenhum tipo de julgamento nessa questão.  E a meu ver o que torna a experiência universitária tão enriquecedora é o convívio com várias pessoas de sítios, idades e mentalidades diferentes.” – Tamara Rego


“Eu entrei na Faculdade através do programa M23, com 36 anos, no curso de Tradução. Como preparação para os exames de acesso participei em várias oficinas organizadas pela Reitoria, o que me ajudou bastante a retomar o ritmo de estudar. Imaginei que a adaptação fosse mais difícil, não apenas por ter saído da escola há 18 anos, mas também pela diferença de idades entre mim e os meus colegas. Para minha surpresa, a idade não é relevante, não sinto nenhuma diferença no tratamento por parte dos colegas ou professores. Nas aulas sinto que a minha experiência de vida é útil, principalmente por ser mais fácil entender conceitos que adquiri nos últimos 20 anos no mercado de trabalho.” – Débora Dias


“Ciências da Comunicação teria sido a minha escolha, caso tivesse ingressado no ensino superior quando terminei o 12º ano. Mais tarde, as vivências pessoais e profissionais fizeram com que fosse despertando o interesse pelas questões sociais e, a pouco e pouco, fui projetando a ideia de um dia ingressar na licenciatura em Sociologia, mas sempre adiando por um motivo ou outro. Depois ter vivido um acontecimento traumático, percebi que não podia adiar mais. Em fevereiro de 2020 iniciava a frequência num curso de Escrita Académica e Pensamento Crítico, em junho fazia a prova e a entrevista de admissão, e em outubro, com 47 anos, entrava pela primeira vez na universidade e no curso que escolhi, como trabalhadora-estudante e em horário pós-laboral, com os olhos no futuro e numa adaptação rápida e bem-sucedida. Chego ao último ano, que ainda corre, muito feliz e com a certeza de que foi uma das decisões mais importantes da minha vida.” – Maria Salete Silva


“Aos 40 anos em 2015 decido voltar a estudar, especificamente Sociologia pois considero que o sucesso de voltar a estudar, passa sempre pela escolha/identificação do curso. Com uma colega exatamente com a mesma idade, candidatamo-nos à Licenciatura em Sociologia (única opção) e entramos pela via dos maiores de 23. E dei então início a uma montanha russa: conjugar a vida pessoal, profissional e académica. A minha motivação sempre foi o meu interesse pela área e atingir uma categoria técnica superior no emprego. Não foi fácil e só foi possível devido ao apoio familiar que tinha. O que ganhei com a licenciatura: sabedoria, conhecimento, mudança de categoria profissional e com isso uma melhoria na situação financeira. Terminei a licenciatura com 13 valores em Junho e em Setembro do mesmo ano senti-me motivada para abraçar um novo desafio: Mestrado em Administração Publica. Mais uma vez assumi um compromisso para a obtenção do grau de Mestre, com empenho e rigor que me é caraterizado. Neste momento estou no Mestrado a tempo parcial com 6 cadeiras feitas e com media de 16 valores.” – Odete Mendes


“Creio que para quem entre para a Universidade com 20 anos ou mais idade vai ter perspetivas diferentes, vontades diferentes e vai acusar um grau de responsabilidade também diferente. Devido à minha idade, 44 anos, e por não estudar há mais de 20 anos, eu comecei inicialmente por fazer 2 Unidades Curriculares antes mesmo de fazer o exame para o curso pois tinha medo de não conseguir passar. E como comecei devagar isso deu-me uma visão daquilo que poderia esperar para a frente e deu-me a prova de que era capaz de me adaptar novamente ao ensino” – Sílvia Vasconcelos


Conselhos para quem é mais velho e pretende entrar no Ensino Superior:

Procurei informação, na universidade que tinha como referência, sobre os requisitos para o ingresso através do programa Maiores de 23. O ISCTE tem uma oferta de cursos institucionais, que preparam os futuros candidatos para a prova de admissão, e eu comecei por aí. Foi um processo longo, mas que aconselho muito.” – Maria Salete Silva

Dei por mim a fazer horários concretos de dias em que eram contempladas as horas em que a dedicação era para estudar, leituras, trabalho. (…) Todo o processo foi mais fácil devido a ter sempre traçado objetivos e ir sempre adaptando à minha realidade (não faço tudo este ano, mas no próximo faço). Não há limite para estudar” – Odete Mendes

Ler a bibliografia indicada para o exame e tentar descobrir se existe online mais informação acerca das mesmas; procurar informação que seja pertinente em todos os locais (Reitoria, Serviços Académicos, Associação de Estudantes, colegas, etc…), ou seja, não ter medo de perguntar e tentar se enturmar; não fazer muitas cadeiras por semestre, pois se fizerem muitas e caso as coisas corram mal, pode ser um passo para desistir; manter a cabeça lúcida, ter motivação e tentar controlar a ansiedade/ stress; fazer uma boa gestão entre as aulas e o estudo em casa, que é fundamental para acompanhar a matéria dada e ter um bom desempenho”. – Sílvia Vasconcelos

Artigo dedicado a todos os estudantes do Ensino Superior, de modo particular aos que entraram mais tarde, para que sirva como um exemplo de que o sucesso não se mede pela idade, mas sim pelos feitos;

E a todos/as aqueles que neste momento se preparam para entrar pela primeira vez, como um incentivo para que a vossa coragem nunca se perca, independentemente das dificuldades que possam surgir no caminho.