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Quando em Bolonha, século XI, se fundou a primeira universidade do mundo, bastante longe se estaria de imaginar aquilo em que se tornaria o ensino universitário 10 séculos depois.

Se nos primórdios eram um espaço de trabalho, aprendizagem e investigação, há algo que, hoje em dia, torna por vezes as universidades num espaço mais dedicado ao convívio entre académicos, do que num espaço de trabalho, aprendizagem e investigação.

Porque será?

Poderiam dar-se mil e uma razões, mas a principal, a meu ver, talvez seja a de que as universidades deixaram de focar-se na teoria abstrata que resolvia problemas muitas vezes desconhecidos da maioria da população, para focar-se na integração dos indivíduos numa sociedade, preparando-os para novos empregos, para novas tecnologias, para novas vidas. E é muito por esse motivo que os campus das universidades hoje em dia, são praticamente mini-cidades quase auto-sustentáveis. Assim sendo, torna-se imperativo que a vida universitária seja vivida como um tubo de ensaio para a vida pós-universidade.



Começando pelos horários universitários, normalmente variáveis, mas em média, das 9h às 17h, tal como acontece em muitos postos de trabalho. De seguida, o alojamento muitas vezes em condições precárias, diga-se de passagem, em que os estudantes começam a ter a sua autonomia. Depois as várias relações amorosas, que por vezes também são um tubo de ensaio para vida pós-universidade. Também ainda a sustentabilidade financeira, em que os estudantes começam aí também a ter maior independência dos seus pais. Também ainda a participação nas tradições académicas, como por exemplo a inserção nas tunas, praxes, ordens religiosas, grupos secretos, núcleos de estudantes, enfim, um sem número de atividades que servem para simular a vida pós-universidade. E por fim, a mais importante no meio de tudo, mas aquela que menos tempo lhe é reservado, a aprendizagem, que provém do estudo decorrente do curso e que deve dotar os estudantes das ferramentas necessárias para que estes possam aplicar o seu talento na resolução de problemas no mundo.

Mas o que é que isto tem a haver com o burnout?

Tudo…como se observa no que descrevi, a vida universitária é muito mais do que casa-universidade e universidade-casa, e isso faz com jovens que vivem numa bolha antes de ingressarem na universidade, quando passam a viver esta vida universitária, entram em choque, muitos sentem-se abandonados, muitos começam a achar que não sabem fazer nada, muitos entram em depressão, muitos desistem de tudo. Além disso convém ainda não esquecer que hoje em dia, como o ensino universitário se focou mais em fornecer trabalhadores para as indústrias, do que na investigação das matérias abstratas, muitos estudantes estão no curso em que estão, não por vocação, mas sim por obrigação, a obrigação de estar numa área que tenha boa taxa de empregabilidade, a obrigação de entrar no elevador social e subir uns pisos e a obrigação de ter uma vida melhor que as dos pais.

E como seria de esperar, tanta pressão faz com os níveis de stress (em não ter tempo para estudar tudo) e ansiedade (de saber se consegue passar ou não) aumentem drasticamente, e chegados a este ponto, os estudantes dividem-se, uns entram em burnout, ficando muitas vezes com mazelas difíceis de curar, sim porque o burnout pode fazer com que os estudantes que o sofram, comecem a não ter vontade de ir às aulas ou até mesmo sair à rua, sentido-se também incapazes de cumprir tarefas, isolam-se do mundo, entre outras coisas. Alguns conseguem recuperar, outros recorrem a estupefacientes para se esquecerem dos problemas. Muitos “optam” pela segunda opção, aquela que empurra o problema com a barriga, em vez de o resolver, e isto faz com que nas universidades de hoje em dia existam jovens que deviam estar na universidade para terem um futuro melhor, e em vez disso transformam-se em autênticos toxicodependentes a quem a vida já não faz sentido de outra forma. Conheço até colegas que me dizem que a universidade já destruiu a vida a muita gente…E eu pergunto, Porquê? Até quando não se vai fazer nada? Compensa este modelo universitário? Quem ganha mais, as empresas ou os estudantes? Quem ganha mais, a sociedade que fica com mais toxicodependentes ou a universidade que fica com menos uma propina anual? Ninguém ganha. Todos perdemos. E enquanto não houver iniciativa por parte das direções de curso, dos conselhos pedagógicos, dos reitores, enfim, das universidades, para reformar o modelo universitário, a universidade vai estar a estragar
mais vidas do que as que melhora.

Quais são as soluções?

Soluções concretas devem caber aos especialistas das universidades que melhor saberão quais os caminhos a seguir, mas eu penso que algumas das propostas seriam: Redução do número de horas semanais e diárias de aulas; Reformulação dos métodos de ensino; Dar mais oportunidades de recursos ou segundas chamadas para transitar às unidades curriculares, e não os métodos simples de chumbar apenas para voltar no ano seguinte e pagar mais um ano de propina; Dar mais opções curriculares aos estudantes, e não obrigá-los a estudarem unidades curriculares que não lhes interessam. Estes seriam alguns exemplos.

E no fim de tudo é no mínimo irónico que, a universidade, que outrora era o sítio do saber, hoje é o sítio da desilusão, é o sítio onde os estudantes descobrem que são uns meros vencidos da vida.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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