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Estou neste momento a tirar um mestrado em Ciências da Comunicação, depois de já ter tirado uma licenciatura também na área da Comunicação Social. No contexto desse mesmo mestrado, que não é o protagonista deste texto, estou a fazer um estágio numa empresa cujo nome não interessa nem aqui vai ser revelado, porque este texto não é sobre a empresa em questão, mas sobre um problema social que penso que ultrapassa as empresas que “contratam” estagiários.

A reflexão poderia começar pela realidade aceite amplamente neste nosso país de que é legítimo admitir numa empresa um estagiário sem lhe pagar qualquer tipo de despesa (ordenado, subsídio de transporte ou subsídio de refeição). Mas como no meu entender, esta questão já está tão intrínseca na sociedade, o debate de uma geração inteira qualificada que corre estágio não remunerado atrás de estágio não remunerado pouco interessa àqueles que confortavelmente todos os meses encontram o seu ordenado depositado na conta.



É um problema dos jovens que os mais velhos ignoram normalmente com a frase: “É mais um investimento na tua carreira”. Isto enquanto nós olhamos para os anos a passar e a capacidade de investimento dos nossos pais na nossa carreira a esgotar-se cada vez mais e com toda a razão. Isto porque as empresas e as universidades talvez se esqueçam durante o processo, mas supondo que nós podemos gastar a tempo inteiro o nosso dia numa atividade não remunerada isso significa que apesar de sermos adultos qualificados não temos qualquer rendimento, por isso têm de ser os eternos patrocinadores da nossa carreira (os pais) a patrocinar “só mais este investimento” que se sucede a outro e a outro e a outro…

Mas não foi este tema que me trouxe ao aqui, porque como disse essa é uma causa perdida… O que me trouxe aqui foi um pouco diferente. Eu, outros colegas e amigos meus que estamos expostos a esta realidade de estágios em empresas para fazer mestrados, para ganhar experiência, para tentar (na nossa ilusão) arranjar um possível emprego, também estamos confinados e não sei quanto a toda a gente, mas se antes estar nesta posição numa empresa já era estranho o confinamento e a distância tornam tudo tão esquisito.

Ser estagiário é algo muito estranho porque é um lugar complexo na hierarquia empresarial. Imagine-se então, é qualificado por isso aspira a ter um lugar semelhante aos que estão lá a fazer o mesmo, mas com um ordenado, no entanto, ainda lhe falta a experiência necessária para merecer essa dádiva que é um ordenado no final do mês. A acrescentar a isto, é alguém com que convém não ter uma relação muito próxima tendo em conta que entre 3 a 6 meses ele se vai embora e naquela cadeira onde aquele se sentou durante meses, na semana seguinte outro igual vai lá estar com os mesmos sonhos na cabeça e com a mesma vontade doentia de aprender para o qual as empresas já devem começar a perder a paciência.

Eu percebo… Eu também tento fazer o exercício de que se eu tivesse um emprego (numa realidade alternativa) não sei bem se me apetecia aturar um miúdo inexperiente que chega à minha empresa, que não sabe nada de como se fazem as coisas e ao qual eu tenho de ensinar tudo até a mandar mails naquele servidor específico. Eu percebo, ainda por cima porque a maior parte das vezes não cabe a quem atura o estagiário, a sua contratação, simplesmente cai-lhe lá aquilo e agora aguenta. É lixado… Eu sei…

Mas eu convidava toda a gente a fazer o exercício contrário, ponham-se uns segundos só do nosso lado. Do lado de quem vai para uma empresa sem lhe pagarem (e já o sabe previamente), do lado de quem vai cheio de projetos profissionais com imensa esperança que vai ser agora que os vai conseguir realizar, mas sobretudo de alguém que vai para aprender e só quer 20 minutos diários do vosso tempo, para que pelo menos algum do dito “investimento” valha a pena.

É lixado eu sei… Eu nunca trabalhei mesmo a sério porque não dá, não é?! Mas deve ser mesmo chato… Eu sei, no vosso tempo as coisas eram diferentes, não havia este tipo de estágio talvez, ou se havia era diferente. Vocês estavam todos melhor preparados e sabiam muito melhor enfrentar o mundo do trabalho, mas pronto agora é diferente, e nós precisamos tanto da vossa ajuda.

E agora juntando ainda mais achas para a fogueira juntemos o teletrabalho. Que é toda esta realidade já de si muito peculiar, mas em casa, constantemente… Ou seja, o estagiário lá da cadeira distante que passado meses é substituído não é mais do que um email que espera que o tempo e o trabalho lhe concedam uns dois minutos de atenção, entre todas as outras tarefas que os confinamentos implicam.

Não estando em lugar para de alguma maneira me considerar a mim e aos meus colegas vítimas da pandemia (porque existem problemas mais sérios e realidades muito piores) convidava a todos vocês que porventura têm estagiários a vosso cargo a pensarem um bocadinho neles, uns minutos. Porque apesar de todos vocês nem os considerarem parte das vossas equipas (que admito que não somos) eles estão ansiosamente à espera que lhes respondam, que lhes ensinem coisas, que falem com eles, que os ajudem a que os meses passem e que este não seja só mais um “investimento” que não deu em nada…

E se vocês têm medo do futuro, se mantém o vosso emprego, se são aumentados, se conseguem trabalhar nas condições perfeitas etc… Imaginem quem nem consegue chegar a esse estado? O estado em que nem sabe onde vai estar no fim do estágio? O estado em que teme esse dia porque não sabe o que fazer no meio de uma pandemia? O estado em que o fim do mestrado se aproxima, mas a possibilidade de arranjar emprego se arrasta para nunca… O estado em que o fim do estágio significa ficar sem fazer nada, outra vez a mandar currículos para todo o lado, a pedir ajuda e a passar por tudo outra vez para no fim quem sabe ficar outra vez no mesmo sítio à espera daquela oportunidade que nunca mais chega tudo no meio de uma pandemia global.

Não sou nada de me queixar porque sinceramente ser jovem hoje em dia é mesmo assim, e mais vale aceitar estas realidades e seguir em frente tentando ser otimista em relação ao futuro, mas digo-vos existem dias em que é mesmo complicado e peço a toda a gente que pense um bocadinho nisto com carinho. 

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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