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Senti a leveza do primeiro momento que respirei Coimbra. Nada me fez mais feliz do que saber que quando pisei uma cidade tão cheia de vida, cujas paredes encerravam histórias e vivências, que estaria, pela primeira vez, no lugar certo. Foi ali, que senti que todas as questões que se levantaram perante uma adolescência conturbada, todas as decisões, tudo aquilo de que abdiquei, se tinham finalmente reunido numa espécie de epifania e clareza e que todos os momentos de sofrimento se tinham traduzido finalmente, no culminar de um bem maior.

O sentimento de presenciar a primeira aula de direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi única, de um abalo extremo, apesar das limitações impostas para que o convívio não se traduzisse numa fonte de propagação. As tradições tinham sido encerradas, mas mantiveram-se vivas pela memória daqueles que tiveram oportunidade de as viver e de as transmitir. A essência de Coimbra passou a estar na boca daqueles que tiveram oportunidade de a conhecer e fazer parte da sua História.

Foi nos posto o rótulo “os caloiros do covid” como uma espécie de ironia, mas que se traduziu em todo o percurso de um estudante que acabava de entrar pela primeira vez no Ensino Superior. Eramos, de facto, os caloiros do covid, com todas as consequências que isso implicou. Chamavam-nos de corajosos e construtores da história. No entanto, eu própria integrada nesta nova geração, não via motivo para nos chamarem de corajosos, afinal o covid também não deveria ser um obstáculo tão grande.

Rapidamente mudei esta opinião tão ilusória de uma caloira revestida de esperança.

O medo da solidão nunca existiu, porque conseguimos reinventar os meios de comunicação e fomos criando os nossos laços mesmo que remotamente. Num regime misto de aulas online e de aulas presenciais, pela primeira vez senti a falta que a convivência num ambiente de sala de aula fazia. Conheci colegas que nunca frequentaram a faculdade presencialmente, porque nunca lhes foi dada a oportunidade de saírem de um regime remoto. Isto levou a que , indiscutivelmente, se criassem barreiras à sua integração, à sua ligação com a cidade e à sua própria experiência, sendo que pela primeira vez muitos de nós acabamos por ter a necessidade de construir a nossa 2º família já que saímos de junto da nossa.

Quando tinha a sorte de ser selecionada para uma aula presencial sentia a felicidade do conviver, mesmo que distanciada, das reações, das expressões, do comportamento, da troca de ideias, da interação que é tão importante para os estudantes de direito, que acabam por aprender com as opiniões vincadas do outro. O sonho de poder vivenciar aquele ambiente todos os dias, parecia tão descabido, mas tão desejado, porque sentia já a falta de quem ainda não conhecia, da proximidade, do toque, e do abraço nas horas de consolo, quando a saudades de casa invadiam o coração.

À medida que os números cresciam exponencialmente, crescia a dificuldade nas relações, na exigência adquirida, na confusão normal do primeiro ano, nas dúvidas, e no sentimento de desnorteamento medido pela falta de experiência. Começou a surgir nesta geração dos “caloiros do covid”, as primeiras falhas emocionais, o esgotamento de um semestre marcado por uma pandemia que não dava sinais de melhorar, o cansaço de um semestre atribulado em regime online e presencial, que levaram a que rapidamente surgisse na comunidade estudantil grande sentimento de ansiedade e stresse que levam consecutivamente a um esgotamento emocional e psicológico. Estávamos em época de exames quando Portugal se tornou o pior país pandémico por milhões de habitantes do mundo. A partir daquele momento estávamos constantemente equilibrados pela incerteza e andávamos ao sabor da pandemia. Sai da faculdade às 18h30 depois de fazer um exame, quando no próprio dia às 22h30, se procedeu ao encerramento de todas as faculdades sem data de reabertura. Nesse momento, a vida pára, e muda radicalmente. Sentimos que pela primeira vez, não temos qualquer controle sobre ela, nem sobre as nossas próprias emoções, e é nesse momento, de reconhecimento de que o risco é maior que a certeza, que desabamos. A acumulação da incerteza e da desesperança e de todo o stresse de uma época de exames que não conhecíamos, levou a que os números que foram expostos pela Associação de Estudantes falassem por si, mostrando o impacto que a pandemia teve na vida dos estudantes, essencialmente naqueles que entraram no ensino superior iludidos pelas experiências alheias.

Foi, provavelmente, das fases mais desafiantes que os estudantes viveram em toda a sua vida, e presenciaram desde logo, com a entrada no ensino superior, as dificuldades amargas que a vida pode trazer. No entanto, foi o desafio que nos fez olhar para trás e ver que fomos tão corajosos por nos mantermos firmes apesar de todas as dificuldades que nos foram impostas. 

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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