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Esquecer aquele mês de Setembro é, a meu ver, impossível. Embebi-me nas minhas próprias ilusões que o meu futuro iria passar por um caminho certo, sem margem para qualquer dúvida. As médias de entrada em Gestão até nem eram muito altas, e eu até tinha uma média de entrada mais ou menos suficiente. Mas o mais ou menos não chegou. A mensagem chegou, e a esperança dissipou-se em torno da desilusão. Das minhas seis opções, tinha acabado de falhar as três primeiras, que representavam exatamente o mesmo campo de estudos: Gestão. Os meus planos, o meu futuro, fosse qual fosse a minha decisão (matrícula ou tentativa de embarcar na jornada que é a segunda fase de inscrições), iam contra tudo aquilo que era, para mim, expectável. Na verdade, tinha um mínimo de consideração e interesse pelos cursos em última opção, mas nada nem ninguém me conseguiria convencer do que estava a acontecer. Tinha mesmo que aceitar aquela realidade, mesmo que momentaneamente, porque afinal, uma vaga no ensino superior é sempre algo que se deve aproveitar enquanto nos pertence, não interessa qual fosse o caminho a tomar a seguir. Eu mal sabia o que era uma coisa Micro, nem muito menos Nano. Achei um nome apelativo e dinâmico: Micro e Nanotecnologias. Parecia uma coisa do futuro. Uma coisa com futuro. Experimentar não ia fazer mal nenhum… Até porque esta faculdade era precisamente no mesmo concelho onde sempre morei e vivi: Almada – e inovação em engenharia era coisa que sempre em mim despertou algum interesse. E lá estava eu, no dia seguinte, na Faculdade de Ciências e Tecnologias na Universidade Nova de Lisboa.



Obviamente que não me consegui matricular logo no primeiro dia, até porque a minha vontade era tão imensa que fiz de tudo para chegar tarde, quando já todas as senhas estavam esgotadas. Mas via muitos, e muitos caloiros a serem praxados. Curioso como era (e sempre fui), decidi deixar-me levar pelas marés, mas nem sabia sequer quem é que ali estaria para me receber. Perguntei à primeira pessoa que encontrei se sabia onde podia encontrar o curso de Micro e Nanotecnologias, e rapidamente agarrou num microfone e gritou para os demais que tinha ali um caloiro de Nano. Quem diria: eu já era caloiro. E lá apareceu um rapaz, vestido de preto e capa ao ombro, que imediatamente me disparou água com uma bisnaga e me colocou uma cabeleira cor-de-rosa, e uns óculos de sol. Talvez noutro momento da minha vida achasse aquilo absurdo, mas achei piada. E juntei-me ao resto dos caloiros.

Entre jogos em grupo, piadas de “quebra-gelo” e gritos de curso, eu começava a ver algum sentido naquilo. Já me começava a sentir pertencente àquele grupo de pessoas. No momento em que ouvi as palavras de alguns dos veteranos, que ao cantar o hino de curso nos explicavam o quão privilegiados eramos por termos entrado no curso do futuro, um curso de senhores sonhadores e doutores, comecei a perceber que a motivação daquelas pessoas não podia nunca ser em vão. Estava a rir junto de pessoas que não conhecia, e, de um momento para o outro, era levado à razão e abatia-se uma nuvem negra, de regra e ordem. Mas saber conjugar os dois parecia fazer parte da função de um caloiro na praxe. Mas não só, eu estava a ter a minha primeira experiência metafórica com o mundo académico: o encarar das desilusões, o companheirismo, a pressão, a perseverança. Tudo aquilo parecia condensado numa pequena caixa impenetrável. Só a podemos abrir, no momento em que soubermos pensar fora dela. Era o que muitos me diziam ser a maior razão de se praxarem caloiros: união e paixão pelo que símbolo que traziam ao peito. E era de tudo aquilo que eu estava a precisar: identificar-me com aquela escolha do acaso. Porque, sejamos honestos: eu não tinha em mente aquele curso. E garanti a mim mesmo, que daquele dia em diante, fosse onde fosse, queria ser praxado e perceber os fundamentos da praxe.

O impacto positivo impediu-me de virar costas a estes preceitos, tanto que me esforcei para estar presente em todos os momentos de praxe. E assim foi, até que vesti aquelas vestes negras, uma comprida capa pelas costas  e senti pela primeira vez o peso de ser veterano. Hoje tenho orgulho em estar no curso onde estou porque me senti motivado a dar tudo quanto podia para o bem representar, nomeadamente a nível profissional. Lutei, luto e lutarei todos os dias para que a praxe seja um momento de boas aprendizagens e de respeito pela tradição académica. Luto ainda para que as gerações de caloiros que hão de vir sintam esta mesma energia positiva que sinto em cada grito, cada discurso, cada gesto. Não somos perfeitos (nem nunca o seremos), mas conjugamos as nossas imperfeições em prol de todo um princípio.

A praxe não é igual em todas as faculdades, nem mesmo em todos os cursos. A frequente generalização torna-a menos especial, pois cada curso porta o seu misto de paixão e experiência, com valor incalculável. A boa praxe aporta em si todas as vivências que um estudante do ensino superior irá ter pela frente. Haverá sempre a exceção à regra, claro. Para mim, hoje e sempre, a boa praxe galvaniza os estudantes, eleva os seus destinos para um nível muito superior. Talvez todo este conjunto de ritos seja uma mera ilusão. Mas que nada nos deixa mais satisfeitos do que quando um caloiro sorri ou aprende algo de novo com essa experiência, isso sim é indubitável.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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