Só pode falar da praxe académica quem lá está e quem a sente. E por mim falo. Em setembro, um capítulo do livro da minha vida fora escrito: a entrada para a faculdade. O resto foi surgindo naturalmente. Eis que a praxe apareceu na minha vida. À entrada, muitos eram os trajados que exibiam orgulhosamente os cartazes dos seus respetivos cursos a chamarem os caloiros. Tanto que procurava o do meu curso, no meio de tanta gente ,mas não o encontrava. Mas eis que passou pela multidão, altivamente, o de Comunicação e Jornalismo(CJ). Lá estava. Eu tinha vestida uma camisola branca, calças de ganga e ténis brancos. O praxódromo era o Jardim do Campo Grande e o seu famoso lago. Colocaram-me uma identificação ao pescoço: ”Identificação da besta”. Sentada num círculo, pintaram-me CJ na testa com batom, e nos braços tantos jogos do galo, e nas bochechas, flores. Mas o que eu não sabia era o que vinha a seguir. Flexões, abdominais, pulos ,piriquitos em boa quantidade. Tantas vezes que o corpo e a cabeça ressentiram, para mim que faço atletismo. A correria para fazer uma formatura diante da representante de curso .Uma autêntica corrida contra o tempo! Que sensação era correr!”. Rastejei na relva mas a onda de calor daquela altura não me deixava continuar. Desmaiei mas recuperei.



Entretanto,as aulas começaram. A representante de curso e a comissão de praxe enviavam-nos um mail para confirmarmos a nossa presença nas praxes seguintes. Havia regras. Bastava falhar, o resultado era “encher”. A cada dia que passava, ia aprendendo a andar :cantar o cancioneiro de CJ mas nunca vira a enorme força que vinha do coração dos trajados ao saírem aquelas palavras, mais as regras que não podiam sair da cabeça. Começei a levar aquilo tão a sério que saía das aulas à pressa para ir à praxe. A vontade era enorme! Vieram também os jantares de curso em que comia com as mãos e sujava a camisola. Em Dezembro, foi o apadrinhamento. Chorei tanto e hoje ainda me emociono ao voltar a lembrar-me do momento. O lago do Campo Grande fazia ondas quando estava lá dentro a encher e a chapinhar na água, ao mesmo tempo que cantava o cancioneiro! Sem pensar, nadei! Por CJ, nas águas turvas braçadas eu dei. Em Abril, no batismo passei de besta a caloira. Fizeram um pequeno caminho à luz das velas, de joelhos e com os olhos fechados, a minha madrinha batizou-me com a colher da representante de curso cheia de vinho. Senti cada gota a escorrer .Já para não falar das praxes em Lisboa e dos peditórios na Baixa onde os meus pés doeram de muito caminhar e em que tive que vencer a timidez para falar com as pessoas. O derradeiro teste final foi em Junho para saber se ia ou não trajar. Ergui sobre a cabeça o saco do traje, os braços já davam sinal mas pensei: Se nos treinos consigo pegar numa bola medicinal porque não haveria de aguentar isto? Mas consegui! Trajei!

Já com o traje vestido, todas aquelas emoções vividas vieram à flor da pele quando recebi a minha lápide. ”RIP Obikwela” (a minha alcunha de praxe) .O momento pelo qual esperei desde setembro, tinha finalmente chegado!

A ti praxe, obrigada! Por-me ensinares a lutar, a vencer na vida, a resistir, a sonhar, a concretizar os meus sonhos, a superar os meus limites e a aproveitar tudo ao máximo! Por me dares uma família que me dá conforto, que sabe o meu potencial e que me dá amor. Por me dares amigos que vou levar para a vida! Trajada por fora mas eternamente besta e caloira por dentro! Vou deixar o meu legado por onde passo.

A ti praxe, devo-te tudo!

A ti praxe, grito “Aleluia!”

O que será que vem a seguir?

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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