Ser investigador – ou, pelo menos, aspirar a sê-lo – deriva frequentemente de uma curiosidade natural e espontânea sobre o mundo que nos rodeia. Eu assumo que, como estás a ler este artigo, tu tens essa curiosidade, esse desejo de saber mais e encontrar uma possível cura para o Alzheimer ou descobrir uma forma de prolongar o nosso tempo de vida. Tal como tu, também eu tinha esse ‘’bichinho’’ e foi isso que me motivou a ingressar em Ciências Farmacêuticas, um curso que possibilita aos estudantes a inserção numa enorme multiplicidade de projetos de investigação. Essa motivação é vital e tens o que é preciso para seguir o teu sonho. No entanto, a carreira que procuras está longe de ser um ‘’mar de rosas’’. Deixo aqui as 5 principais dificuldades que podes encontrar no teu caminho:

 

1. Não gostas de estudar? Então é melhor ficarmos por aqui

Não importa em que fase te encontras neste momento: estudar é algo essencial aqui. Se queres a todo o custo seguir a carreira de investigador, prepara-te para te a luta. Além do percurso habitual (licenciatura-mestrado), podes preparar-te para mais uns largos anos de Doutoramento, na melhor das hipóteses, ou até algumas pós-graduações ou mestrados complementares caso não consigas essa oportunidade. Mas, na verdade, quem quer ser cientista sabe perfeitamente que tem que estudar ’’toda a vida’’ e, na maioria dos casos, até gosta de o fazer. Ter uma boa média, como é óbvio, é também essencial para ir ’’escalando’’. Mas esquece o marranço: foca-te em aprender o máximo possível e em adquirir conhecimento em todos os campos.



 

2. Prepara-te para horas e horas de sacrifício

Apesar da atmosfera aliciante que se cria inicialmente na tua mente associada ao desejo de conseguir fazer algo nunca antes feito, não esperes que a motivação se mantenha constantemente no auge. O entusiasmo de trabalhar em prol da ciência é algo que vai invariavelmente oscilando no curso do tempo e, como tal, uma das características que qualquer pessoa disposta a seguir a carreira de investigador necessita de ter é a capacidade de se sacrificar pela sua paixão. Conta com isto: terás noites passadas em branco e dias inteiros a trabalhar. Por vezes, horas intermináveis passadas num laboratório, enquanto vês os teus amigos a passear. Este ambiente vai te ajudar a desenvolver ‘’skills’’ como a gestão eficaz do tempo e a dar mais valor aos tempos livres.

 

3. A carreira de investigador não é remunerada quanto o seu trabalho exigiria

Embora o percurso como investigador constitua, na maior parte das vezes, uma ‘’porta aberta’’ para poder ser professor no ensino universitário (e, por este motivo, gerar a possibilidade de aspirar a uma remuneração mais efetiva e satisfatória), em comparação com outras profissões especializadas, geralmente o salário não compensa o trabalho exigido, principalmente numa fase inicial de carreira. Além disso, em Portugal, a carreira de investigador é o símbolo máximo da precariedade laboral. Licenciados, doutorados, gestores de ciência… todos são inseridos no mesmo ’’saco’’ para o Estado: são bolseiros e hão-de sobreviver neste mundo à custa de bolsas da FCT com contratos a tempo incerto, sem investimento público e sem direitos. É neste enquadramento que surge a questão da ’’fuga de cérebros’’: cerca de metade dos investigadores portugueses estão emigrados ou tencionam emigrar.

 

4. Precisas de ser um ‘’self-made’’

Um investigador científico bem sucedido é como um ’’canivete suiço’’. Ter um conhecimento excecional na área de atuação não é suficiente: deves ter estratégias para rápida resolução de problemas; deves dominar o inglês (a linguagem da ciência); deves ter uma escrita trabalhada, pois precisarás – e muito – de escrever (sobretudo artigos, elementos básicos de produção científica, e teses); terás ainda que ser mestre em apresentações e comunicações orais. Se te trabalhares ao máximo no sentido de construir a tua identidade e ir superando desafios de toda a ordem, serás certamente bem sucedido.

 

5. Há um atraso enorme a nível de networking e orientação

Ao contrário do que seria de expectável, atendendo a que atravessarmos uma era de inovação científica e tecnológica, o networking ao serviço da ciência ainda se encontra numa fase ancestral no nosso país. Procurar um PhD ou uma bolsa de investigação e procurar orientação a nível de dicas e oportunidades no universo da investigação científica são tarefas exaustivas e desnecessárias a que poderás estar sujeito. Esta falha deve-se à falta esforços no sentido de divulgação, partilha e centralização do conhecimento.

 

Se estas dicas não refriaram a tua vontade de perseguir o teu sonho então luta por ele: procura informação, envia emails, fala com gente de valor que te dê os melhores conselhos. O mais importante é que nunca pares de te questionar.

“Somewhere, something incredible is waiting to be known” – Carl Sagan.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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