A utilização de um cartoon num manual de estudo que acabou por sair, de forma quase idêntica, no Exame Nacional de Português está a levantar uma onda de indignação. Professores e especialistas queixam-se de desigualdade e injustiça entre os alunos que treinaram pelo livro em questão e os restantes. O Ministério da Educação já reagiu, justificando o sucedido com uma “infeliz coincidência”.
“Inaceitável e injusto”: As críticas dos especialistas
Em causa está uma pergunta do exame que pedia uma apreciação crítica de um cartoon do artista iraniano Takjoo sobre o “trabalho infantil” (que retrata uma criança a costurar num cavalo de madeira). Acontece que a mesma imagem e o mesmo exercício constavam num manual de preparação para os exames deste ano. A única diferença é que o manual incluía uma legenda de apoio que o exame omitiu, mas o objetivo da pergunta era o mesmo.

Carlos Ceia, professor catedrático da Universidade Nova, não poupou críticas à organização da prova em declarações à Agência Lusa:
“É inaceitável o que se passou. Há alunos que tiveram sorte e, com isso, sabiam a resposta, os outros nem por isso. Os autores do exame falharam e criaram uma situação iníqua (…) Não há desculpa para o que aconteceu. Os autores têm de criar perguntas novas e não podem ir buscar umas já existentes.”
Para o docente, houve uma “violação do princípio da confiança” e a pergunta deveria ser anulada por dar uma vantagem objetiva a quem comprou o livro da editora Leya. Carlos Ceia aproveitou ainda para criticar a estrutura do exame, classificando-o como “desajustado” e a “base do insucesso da disciplina de português”.
Associação de Professores fala em “coincidência infeliz”
Por outro lado, Carmo Oliveira, da Associação de Professores de Português (APP), desvalorizou a intencionalidade do ato, considerando-o uma “coincidência infeliz”. Segundo a associação, o volume de livros no mercado é enorme e “é incontrolável o que se passou”.
Em comunicado, a APP confirmou que a autora do manual faz parte da direção da associação, mas garantiu o total sigilo do processo:
- A autora não redigiu nem auditou as provas de avaliação externa.
- Não houve acesso a informação privilegiada por parte da docente ou da editora.
- O processo de elaboração dos exames mantém-se “totalmente sigiloso”.
Ministério da Educação garante que exame foi feito primeiro
Confrontado com a polémica, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação defendeu a equipa que elaborou o exame. Segundo a tutela, a pergunta do Exame Nacional foi criada antes da publicação do manual de apoio da Leya (lançado em agosto de 2025).
“Assim sendo, não seria possível a equipa verificar a existência prévia de um item que ainda não tinha sido publicado”, justificou o Ministério.
O Governo reforçou ainda que o cartoon em causa foi premiado num concurso internacional e tem uma visibilidade pública notória, o que explica o facto de ter sido escolhido, em simultâneo, por duas entidades independentes.
E tu, fizeste o Exame de Português? Tinhas este manual de apoio ou sentiste-te prejudicado? Partilha a tua opinião nos comentários.

