Saúde Mental. 15% das universidades não tem qualquer resposta

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A insuficiência de recursos humanos e a ausência de financiamento são a principais dificuldades sentidas pelos serviços de saúde mental nas universidades, conclui um estudo levado a cabo pela comissão técnica nomeada pelo Governo para a criação de um plano de saúde mental no Ensino Superior.

Das 95 instituições contactadas, 81, com 88 serviços, responderam ao pedido da comissão e concluiu-se que 74% das universidades tem um ou mais serviços de saúde mental e bem-estar formalmente criados, mas 15% não tem qualquer resposta nesta área, seja por razões económicas (50%), seja pela falta de espaço adequado (14%).

Segundo o estudo, “o contexto socioeconómico desfavorável, bem como as implicações da pandemia COVID-19 podem ter impulsionado a criação de serviços/estruturas dedicadas a saúde mental e ao bem-estar, em particular o pico que se verifica em 2022″.

O primeiro serviço foi criado em 1972, mas 50% das estruturas surgiram a partir de 2017.

No dia em que foi apresentado o Programa para a Promoção da Saúde Mental no Ensino Superior, foram revelados os resultados de um levantamento de todos os serviços atualmente em funcionamento nas instituições de Ensino Superior públicas e privadas.

Profissionais sem formação adequada

Outra das conclusões do estudo é que dos 505 profissionais de trabalham nos serviços de saúde mental, um número significativo não tem formação adequada para fornecer apoio aos estudantes.

Embora mais de metade (67%) tenha formação em Psicologia, 6,2% tem formação em Medicina (não Psiquiatria), como Medicina veterinária, Medicina geral e Ginecologia e Obstetrícia e 3,6% não tem formação superior. Também 8,2% tem formações fora do ramo da medicina, como Ciências Sociais, Direito, Filosofia, Bioquímica e ainda Engenharia Multimédia, Turismo ou Geografia e Urbanismo.

Alunos são quem mais procuram para aconselhamento psicológico individual

“No que diz respeito ao tipo de pessoas que recorrem aos Serviços de Saúde Mental e Bem-Estar, verificou-se que são na sua maioria estudantes (92%), com especial destaque para os alunos de primeiro ciclo (27%)”, pode ler-se no programa. Há, no entanto, pelo menos 3% de funcionários não docentes e 4% de pessoas fora do âmbito académico que procura ajuda nestes serviços.

Sobre o tempo despendido pelas estruturas nas diferentes áreas de intervenção, quase metade do tempo (41%) é dedicado a intervenções em perturbações mentais comuns e 32% para dedicado a atividades de prevenção da doença mental, promoção da saúde e bem-estar.

Já a psicoterapia e o aconselhamento psicológico individual (15%) são as principais atividades desenvolvidas nos gabinetes de apoio, estando as intervenções psicoterapêuticas em grupo com uma percentagem inferior (4%).

Ao mesmo tempo que os alunos fazem queixas da falta de psicólogos no ensino superior, justificados pela muita procura que acentua as filas de espera, os resultados mostram uma tendência diferente: mais de metade dos serviços de saúde mental não tem ninguém a aguardar atendimento, embora 16% tenham mais de 30 pessoas em espera. Só em maio deste ano, 763 pessoas estiveram a aguardar apoio psicológico.

Para a presidente da RESAPES, os números podem refletir a altura do ano em que o levantamento foi feito. “Houve uma determinada altura do ano em que houve um aumento da lista de espera e que depois os próprios serviços procuraram colmatar e tentar reduzir”, revela.

“A questão das listas de espera também acaba por ser um número muito dinâmico” e o que “pode acontecer é que na altura em que é foi feito este levantamento, uma boa parte das listas de espera que eram referenciadas, por exemplo, em fevereiro ou março” tenham sido reduzidas pelos serviços que “tenham conseguido dar resposta”.

Governo apoia com 12 milhões de euros projetos de promoção da saúde mental

O Governo lançou esta terça-feira o Programa para a Promoção de Saúde Mental no Ensino Superior, que vai apoiar em cerca de 12 milhões de euros o desenvolvimento de projetos e mecanismos de apoio psicológico nas instituições.

Com uma dotação total de 12 milhões de euros para três anos, o programa pretende apoiar as instituições na criação ou consolidação de mecanismos de apoio psicológico aos estudantes, promover projetos que privilegiem abordagens preventivas que permitam desenvolver competências socioemocionais e estimular estratégias de intervenção precoce.

O programa visa ainda fortalecer a articulação entre estruturas existentes nas instituições e no Serviço Nacional de Saúde, no que respeita a mecanismos de identificação de situações de doença mental grave e o seu encaminhamento, bem como apoiar iniciativas que deem particular atenção a grupos de estudantes mais vulneráveis.