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Sim, faço parte desses que se vestem de preto. Sim, faço parte da praxe. Comecei este percurso há três anos atrás e juro, juro por tudo, que não me arrependo, nem por um segundo. No ano em que me inscrevi, o movimento anti praxe tinha acabado de invadir o departamento do meu curso, mas a vontade de viver este espírito era tanta que procurei por quem me quisesse acolher, alguém que me desse a mão. Mas sabes… no fim de contas… recebi um esmagador abraço! Há três anos atrás fui recebida por um curso que me era completamente estranho, mas hoje, todos os que por lá passaram são parte de mim. Hoje, todos os que por lá passaram são a família que me escolheu. E foi com eles que aprendi o verdadeiro sentido da praxe.




 

Não, não é um mar de rosas. Não, não é um espaço para se brincar às bebedeiras. Não, não é só o caminho a percorrer até à chegada do traje académico. Não. A praxe é muito mais do que uma actividade de tempos livres. Mas também é muito mais do que um treino militar. A praxe é, no meio desta monstruosidade que é a entrada para a faculdade, o lugar onde alguém está para ti, contigo, do início ao fim. É o lugar onde te ensinam que a vida nunca nos vai facilitar. É o lugar onde te mostram o que é trabalhar em grupo, o que é viver em grupo. É o lugar onde as palavras “esforço”, “dedicação” e “entrega” mais fazem sentido. A praxe é dura, mas é a praxe. A vida também é dura e ninguém a condena. Na praxe há de tudo, é verdade. Há quem se importe, há quem não esteja para aí virado, há quem humilhe, há quem repreenda, há quem te segure, há quem não te ofenda. Na praxe há de tudo, é verdade. Na vida também, tens que os saber escolher. Não é um badameco com mais ano e meio de traje que te vai dizer que ali, não há lugar para ti. Ou que a tua força não vai ser suficiente para lá chegares. Na praxe há de tudo, é verdade. Mas não há ninguém que tenha o direito de te passar por cima, mesmo que um pano preto o faça sentir a pessoa mais importante do mundo. Não há. Infelizmente, eles também fazem parte. Infelizmente, eles também lá estão. Infelizmente, eles não conhecem o espírito da praxe na sua plenitude. Infelizmente alguém lhes fez passar a ideia errada do que é a praxe. Tal como na vida. A praxe é o lugar onde todas as tuas forças se reúnem num sentido e te acompanham nessa tão dura caminhada. Na praxe há de tudo, é verdade. E eu que o diga. Mas também há amor. Amor pelo curso. Pelas vestes. Pelo grupo. Pela tradição. Na praxe há amor. E há quem te ame mesmo sem que saibas. Na praxe há de tudo, é verdade. Mas da praxe guardo as melhores recordações. As primeiras vestes (as de caloira), as gargalhadas, os desafios, as corridas, as estafetas, os olhares, os gestos, as palavras, os discursos, os abraços, a dinâmica, as cantorias, os saltos, as cambalhotas, as quedas, o suor, as dores, a garra, a voz, as despedidas, os jantares, os brindes, as escolhas, os baptismos, as pessoas, o amor, o espírito, a tradição, o traje. Da praxe, guardo as melhores recordações. Agora é tempo. De receber outros, de os acolher. De lhes contar as histórias, de os fazer ficar. Agora é tempo, de os defender, de os proteger, de os segurar. Agora é tempo. De lhes passar o testemunho, de os ensinar, de os ver crescer, de os ver tomar o nosso lugar. Agora é tempo de escrever a sua história da praxe. De não descansar enquanto não for repleta de bons momentos. De me certificar que tudo o que chegou a mim, chegará a muitas futuras gerações de caloiros. De me sentir tranquila por os ouvir dizer que não têm medo. Do preto. Dos que se vestem de preto. Da praxe. Porque esse não é definitivamente o objectivo desta tradição. Embora o tempo tenha levantado outras opiniões. Ali, aqui, esse não é mesmo o objectivo da praxe! E sim, faço parte desses que se vestem de preto. Sim,faço parte da praxe. Comecei este percurso há três anos atrás e juro, juro por tudo, que não me arrependo, nem por um segundo. Hoje, o meu maior desejo é este, cumprir esta missão. Semear este amor e vê-lo dar frutos.

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Este texto faz parte de uma nova série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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