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Não é fácil, e nem sequer considerado muito inteligente, escolher uma ciência social como curso a seguir no ensino superior. É preciso pensar e arriscar para se optar por este tipo de ciências. É preciso, no mínimo, amar Sociologia [seja pela curiosidade que suscita, seja pelas aplicações teórico-práticas (muitas das vezes desconhecidas) que invoca] para se selecionar um caminho como o meu. Em 2017, enveredei pela Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Dois anos depois matriculo-me no 3.º e último ano desta licenciatura e reflito sobre tudo aquilo que já construí neste curso. Apesar das indecisões da altura, penso que não poderia ter feito uma melhor escolha.



A Sociologia é uma área da vida porque também se debate com ela. Da mesma forma que a Biologia valoriza as formas de vida existentes numa conceção biológica, a Sociologia também estuda as pessoas, os fenómenos humanos, as interações, as estruturas, as instituições, em suma, o mundo que criámos com todas as suas componentes sociais. É na Sociologia que encontrámos, portanto, a estima pelas vertentes antropológicas, económicas, psicológicas, demográficas, entre outras, que constituem e dão sentido à vida em sociedade. Contudo, amiudadas vezes se pensa que o conhecimento sociológico é um conhecimento de cultura geral, sem especificidade e, consequentemente, sem aplicabilidade, o que direciona o curso de Sociologia para um destino sem consideração e sem emprego. Tal perspetiva é repetida numa reprodução circular e ganha sentido numa sociedade em que os valores, permanentemente alteráveis e fundando-se em superficialidades e pleonasmos, compõem as reflexões sociais vigentes. Ora, a parte mais engraçada é a de que estas conclusões, tantas vezes banalizadas e tomadas pela maioria das pessoas do mundo atual, não seriam possíveis sem o pensamento da ciência sociológica. A Sociologia realiza este trabalho de reflexão, que mescla as subjetividades de cada sujeito, baseadas em emoções, disposições, práticas e estilos de vida, e as objetividades das estruturas sociais, suportadas pela materialidade das desigualdades e das exclusões socioculturais. Sem a Sociologia não haveria contexto para as afirmações que hoje se trivializam, nem tais afirmações poderiam (sobre)viver.

A conclusão a que pretendo chegar é a de que optar por seguir Sociologia não é uma decisão tomada apenas por pessoas inseguras ou algo “perdidas”. Escolher este curso não é uma segunda nem uma última opção para muitas pessoas. Para mim nunca foi e, embora tenha seguido o curso de Ciências e Tecnologias no ensino secundário, sempre tive a certeza de que escolheria um curso ligado à área das Letras e das Humanidades. A disciplina de Filosofia – ponto inicial que me levou à Sociologia – nunca me foi indiferente e, no momento de me candidatar a um curso do ensino superior, a Sociologia seguiu enquanto primeira opção como se sempre tivesse tido a convicção de que a iria colocar nesse patamar. Há sempre algum grau de insegurança pela escolha; mas isso não é inerente às ciências sociais, e sim a qualquer curso que representa a escolha principal à qual subjaz uma tal responsabilidade quanto é a opção por um curso superior. E posso dizer que aquela insegurança se traduziu num percurso feito de conquistas, projetos e conhecimentos proporcionados por uma Sociologia compreensiva, consciente e de um enorme potencial.

Como disse no começo deste texto, acabo de chegar ao 3.º ano e em nada me arrependo da relação que fui moldando com a Sociologia. Neste curso, encontrei amigos entusiasmados, professores preocupados e aulas de atenção, ponderação, investigação e participação. Não conheço os cursos de Sociologia nas restantes universidades de Portugal, todavia no Porto existe uma interessante planificação deste curso, que flui da abrangência à especialidade, passando pelo metodismo. Com todo este trajeto, peço somente aos leitores deste artigo que não se baseiem em falsas premissas que profetizam excessivas generalidade e apatia na prática da Sociologia. Esta ciência, esta área do ensino superior, tem inúmeras ramificações, que vão do Trabalho à Educação, da Saúde à Família, do Desenvolvimento à Arte e à Cultura. Para além disso, se a Sociologia se preocupa com as pessoas, ela entenderá a importância de compreender as suas vidas e de encontrar soluções para uma melhor intervenção social. As suas saídas profissionais são resultado disso, as quais se relacionam, entre outras, com a gestão de recursos humanos, a apresentação de políticas públicas, a promoção de estratégias de inclusão, a administração autárquica ou organizacional, o marketing e a docência aliada à atividade de investigação. A Sociologia é, por todos estes argumentos, uma ciência necessária e um curso de importância. Sinto-me feliz por saber o quanto pode a Sociologia fazer por cada um de nós e pela sociedade como um todo, conjugando a teorização fundamentada com a empiria de exploração e de descoberta.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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