Antes de escrever sobre o que são as humanidades é preciso ponderar o porque do estudo em primeiro lugar. O que leva um jovem cidadão a entrar na universidade? Fazer um curso e graças a isso arranjar um emprego que lhe permita ganhar dinheiro? Se sim, então as humanidades não são, infelizmente, o lugar de excelência para desenvolver tal objetivo. A mestria nas artes da cultura humana não é hoje a mais rentável das qualidades. Fazer um curso para ganhar poder, influência e estatuto social? Sim, de facto as humanidades preparam um individuo para um futuro de liderança, dão uma visão mais larga do mundo. Contudo, hoje em dia, é mais fácil subir os degraus do poder com dinheiro nos bolsos do que com livros na cabeça. Ser um guia da sociedade graças ao profundo conhecimento do Homem, do seu íntimo, da sua expressão e do seu passado? Eu diria que este é o motivo que me parece mais legítimo e mais útil, para além do inato gosto pelo género humano. É útil querer iluminar os outros com os nossos conhecimentos, essa partilha de saber é o que faz avançar sociedades por mais técnicas e teorias que existam. Podem-me dizer que este é um objetivo utópico, todos temos de comer. É verdade, e no nosso país viver através do culto das letras é cada vez mais difícil, mas é por isso que o fazemos. Por isso é que é preciso coragem, dedicação e alguma inocência para seguir o caminho das humanidades, para estudar o que se gosta e não o que se precisa.



A escolha começa no ensino secundário. Muitas vezes não é feita pelo estudante, mas sim por quem o rodeia. Provavelmente com a melhor das intenções, sei do que falo, mas decerto erradamente. A liberdade é o valor que se eleva nestes casos, se eu quero dar um futuro melhor à minha família da forma mais fácil então vou para as ciências exatas, para as medicinas, engenharias e direitos. Mas se o meu objetivo vai para além disso, se quero cumprir uma meta superior, se desejo pertencer a uma cada vez mais rara elite conhecedora da misteriosa espécie à qual todos pertencemos, então aí sim escolho as humanidades. Nós, os humanistas somos os guardiões de tudo o que representa ser humano, das nossas formas de sentir e de expressar o que sentimos, das formas como agimos no passado, das glórias ou não que construímos e da forma como moldamos o mundo em que vivemos. Aprendizes da vida e das várias formas de a viver. Ser “doutor” das humanidades é ser moldado em grande parte por aquilo que os gregos idealizavam ser um modelo de aprendizagem para um Homem perfeito: a educação deveria formar um Homem do mundo, que se agigante perante qualquer povo, em qualquer local e em qualquer cultura. Um humanista não é um especialista ou técnico em nenhum campo específico, é um ser com uma grande carga cultural, com uma moral sólida que lhe permitem lidar com os problemas da forma mais racional, eficaz e humana possível. É por isto que vale a pena conhecer os clássicos, gregos e romanos, é neles que nasce a civilização como a conhecemos hoje, foi neles que se inspiraram todos os que vieram a seguir e é com eles que se reúne tudo o que veio antes. Conhecer as formas de pensar, conhecer o que já construímos enquanto humanos é conhecer nos a nós próprios. Hoje é preciso, cada vez mais, pensarmos. Com calma, num quarto com a porta fechada e sem os ruídos do mundo. É preciso olharmo-nos por dentro e serenamente descrever o que vemos. É necessário abafar os ruídos que não importam e concentramos nos naquilo que realmente nos interessa, seja o que for ou quem for. Só assim fazemos a escolha certa, e no meu caso a escolha certa foi História. É na História e com a História que eu vivo. Podem-me dizer, e já o fizeram, que, como muitas das humanidades, não serve para nada. Sim, de facto a história não constrói pontes nem cura doenças, ensina nos sobre o passado mas nós, como humanos que somos, temos muitas dificuldades em aprender com os erros dos outros, por muito parecidos que sejam connosco. Por isso a História, e uso a como exemplo para todas as humanidades, é o que me torna um Homem e não um ser humano, é o que me une ao mundo e ao nosso legado comum, é um entretenimento que me desliga das fragilidades humanas e que as torna defeitos menores de seres complexos.

Vou concluir este rude texto com um exemplo dado por um biólogo norte-americano Edward O. Wilson para a dimensão das humanidades através de um cenário que nos permite por em perspetiva a forma como vemos a realidade que nos rodeia. Imaginemos que uma civilização extraterrestre chegava à Terra, se conseguiram cá chegar é porque são infinitamente mais desenvolvidos do que a civilização humana. Todos os nossos conhecimentos sobre a física, a química e a mecânica seriam para eles extremamente primitivos e ultrapassados, no entanto as Humanidades seriam uma novidade, algo do qual nada saberiam. A única coisa que poderiam aprender connosco seria aquilo que nós criamos, aquilo que nos é único e exclusivo em todo o universo, a nossa cultura, o teatro, a poesia, a filosofia, a história e a arte, em suma as Humanidades. Por isso antes de tomares uma decisão, antes de falares sobre a inutilidade das Letras pensa que são elas que fazem de ti quem tu és.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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