A ampulheta do tempo chegou ao fim, os grãos de areia assentaram e compactaram como pequenos pedaços fiéis à gravidade do tempo e à amargura cronológica dos acontecimentos. Casa não tem de ser necessariamente um espaço físico ou até mesmo um espaço temporal. Casa é uma conexão emocional. Casa é dor em formato de alegria. É viveres no canto mais inóspito e nunca te sentires mendigo. É onde te sentiste perdido ao começar e apaixonado ao terminar. É onde passaste a construir uma continuidade de ti, onde sem procurar encontraste um sentido para o teu caminho, onde tropeçaste em pessoas que vieram a ser a tua vida, onde criaste memórias que hoje te rasgam como impressões digitais.



A ti Coimbra, minha casa, meu coração. Vim em busca de aventura e de um canudo e encontrei-me a mim própria. Foste como um labirinto intelectual e emocionalmente desafiante que me fez amadurecer e navegar pelas minhas entranhas, ler os capítulos do meu ser e desfolhar cada aresta dos meus sonhos. Porque se eu fui um livro, tu és a sinopse que me representa. Saltas-te comigo para o abismo só para que me visses erguer, foste de braço dado comigo para o proibido porque trazias contigo a melhor lição. Sempre soubeste que sou de alma e sentimento e, por isso, me fizeste perseguir os caminhos sentimentalmente fatais para que me tornasse indolor aos dissabores da vida, para que viver fosse um pouco mais fácil para quem sente. A ti Coimbra, minha casa, meu coração. Tu que me abraçaste com o fado mais requintado, com a poesia mais fervorosa e com a capa e batina mais saudosa. Tu que me mostraste o que é ser boémio sem nunca mudar aquilo que sou, que me trouxeste inspiração nas madrugadas e um sol ardente no amanhecer. Tu que refletiste no mondego mil sonhos académicos, com os nabos dos finalistas, trajes rasgados e felizes, versos de batismo em cada seio familiar e sapatos cansados ao luar. Tu que me deliciaste com esse dourado pôr do sol, esse ritmo alucinante das repúblicas e essa áspera calçada que suporta o compasso das capas negras em noite de serenata. Tu que entras nos nossos corações e neles te fixas de forma intemporal, como um resquício sonhador do jovem que em ti morou. A ti Coimbra, minha casa, meu coração. Ensinaste-me que a vida é um risco e que contigo valeu a pena viver esse risco. Ensinaste-me a viver de momentos e não de expectativas, a saborear mais os meus passos do que os meus planos. Aprendi a disciplinar as emoções, a regrar as ilusões e a viver de coração partido, porque a vida para mim é exatamente isso, ter a capacidade de me entregar, apaixonar, errar, cair e surpreender, porque toda a lição é surpreendente. A vida é isto! É fugir à zona de conforto, é sentir arrepios na espinha, é querer ser anormal num mundo em que é normal ser-se infeliz. A vida é como uma sucessão de encontrões em plena montanha russa, em que qualquer preço de bilhete é válido se no final da viagem transbordares amor e souberes quem és. Tudo acaba e o que sobra é aquilo que se sente. A ti Coimbra, minha casa, meu coração. És como um sonho que julgamos eterno e que deixaremos sempre a meio porque será sempre cedo para te deixar. És como um eterno coração partido, de quem já pertencemos e onde acabaremos como meros visitantes. Foste a bebida dos sonhadores e a sobriedade dos mais fortes, foste a magia dos escritores e o brilho dos olhos chorosos, foste a juventude do nosso corpo e o futuro aos nossos pés, foste a batalha contra o tempo e os remos de corações apaixonados, foste o motor da criatividade e a esperança em dias difíceis. Foste fogo de amor que moldou mentes e emoções, que esculpiu os terrenos áridos e adolescentes e os transformou em homens e mulheres promissores. Coimbra, minha casa, voltarei sempre até ti, como se fosse turista do meu próprio coração.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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