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A Praxe, mas que tema tão controverso… Para uns, um passo “obrigatório” no processo de entrada na vida universitária e, para outros, apenas um ato de estupidificação hierarquizante e humilhante para jovens adultos com “mentes infantis” e que durante esses dias são tratados abaixo de cão.

Neste momento, se calhar, estão prestes a entrar na vossa vida académica e, acredito, estarão cheios de dúvidas relativamente ao tema praxe, certo? “Devo ou não ir?”

Desta forma, neste artigo, procurarei simplesmente apresentar a minha experiência enquanto caloiro, há precisamente um ano, com, naturalmente, uma opinião expressa de forma implícita.



Medo, receio, excitação, nervosismo, adrenalina, enfim, um misto de sensações corria-me nas veias nesse quente mês de setembro do ano passado. Após o ato de matrícula no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas), instituição na qual estudo, recebi um “kit de caloiro”, que não era mais que um saco com umas promoções, informações, um chapéu e a t-shirt azul-escura do meu curso, Relações Internacionais, que doravante designarei de “RI” – a t-shirt que, mal saberia eu, testemunharia a integração na família de RI e “iscsipiana” (é este o termo dado à comunidade docente e discente do ISCSP). Naquele momento, sentia que começava a pertencer a algo completamente novo.

Chegava a data. Estava calado no carro, pensando naquilo que poderia vir a ser o meu dia, não fossem mil e uma as estórias que já havia ouvido sobre a praxe, tanto nos media como no seio familiar. “Devo mesmo ir?”, “Ainda vou a tempo de desistir”, “A praxe não é obrigatória”, tanto me passava pela cabeça, mas “Não, vou!”; e lá fui! Fui e cheguei cerca de cinco minutos atrasado. “Que horror, que tragédia… E eu até sou uma pessoa pontual…”. O trânsito traiu-me… Saí do carro, e deparei-me com uma série de jovens vestidos para a ocasião, fosse com o famoso traje académico (no fundo, os que iriam praxar), fosse de t-shirt, das mais diversas cores, cada uma referente a um curso. Não via os “azuis-escuros”, pensei: “Ó Meu Deus, estou tramado”. Mas, entre pergunta aqui, questão acolá, lá os encontrei. Afinal, quem tem boca vai a Roma. Estavam no campo de futebol, ligeiramente afastados do instituto. Na Ajuda só se ouviam gritos e cantorias. Era a batalha “nacionalista” de cursos, a ver quem cantava ou gritava mais alto.

Já no campo, e sem sofrer grandes represálias (vá lá…), porque afinal ainda só tinham passado cinco minutos, lá me integrei no bando. Eramos sessenta e tal gaiatos ali espectando o chão… sim leram bem, o chão. Não podíamos olhar nos olhos de quem trajado estava. Eram talvez umas cem caras novas ali de repente, entre caloiros, doutores, mestres e veteranos (é esta, respetivamente, a hierarquia na praxe). Não conhecia rigorosamente ninguém, mas entre sussurro aqui, sussurro ali, ia trocando as primeiras palavras com aqueles que se viriam a tornar grandes amigos.

Sempre atenciosos, sob o abrasante calor de setembro (já às oito da manhã!), as Entidades Praxantes, que adiante designarei de “EP´s”, fartavam-se de insistir em que bebêssemos água. A mesma garrafa passava pela boca de todos… Mas nem pensávamos nisso, nem nas consequências que isso poderia vir a acarretar. Afinal, tínhamos sede e tínhamos, também, muito mais em que pensar. Não tardaram em distribuir-nos umas placas feitas de cartão para que puséssemos ao pescoço. Cada caloiro tinha uma e no dia seguinte viria a ser preenchida. Era uma espécie de passaporte.

Os ideais de união, de fraternidade, de entreajuda e as ideias “nacionalistas” em relação ao curso, começavam-nos a ser incutidos e, aprendíamos assim, o hino de RI, mas eramos, constantemente criticados, como não seria de estranhar, ora por cantarmos mal, ora por cantarmos baixo, ora por cantarmos sem os compassos certos, ora por estarmos descoordenados, ora por nos enganarmos na letra, enfim, tínhamos era de ser criticados, pois isso fazia parte de todo este processo, se bem que, só mais tarde, é que viríamos a perceber isso. No fundo, o objetivo era que nos mentalizássemos de que o nosso curso era o “maior” e “melhor” (“RI é a Elite”), e os outros cursos seriam inferiores (e isso viu-se também através das várias batalhas intercursos realizadas, de que já falarei), e de que dentro de RI todos eramos uma família (“RI é uma família”), não podendo existir qualquer ato de discriminação ou separação entre alunos de turno diurno ou de pós-laboral. Portanto, tínhamos de ter amor ao curso e à instituição de ensino. O espírito de entreajuda, também nos era incutido, quando todos nós eramos obrigados a ser voluntários. Parece contraditório, não é? Mas quando se pedia um voluntário, só tínhamos todos de levantar o braço e gritar: “somos todos voluntários”.

Enchemos, enchemos muito. Gritámos, gritámos muito. Sujámo-nos, sujámo-nos muito. Dançámos, dançámos muito. Fomos obrigados a conhecer-nos uns aos outros, algo que não aconteceria noutra qualquer situação. Ao estilo de uma passadeira rolante, íamos avançando e íamo-nos apresentando a cada um individualmente. No ocaso, já era mais ou menos unanime o sentimento de que já nos conhecíamos a todos há muito tempo, quando na realidade, há meio dia nunca aquelas caras havia visto tão gordas.

Nessa altura, já sem sentir os braços de tanto flexionar e já quase sem voz de tanto cantar e gritar simultaneamente, após a “aprendizagem” de mais uma série de canções do nosso curso, eis que nos chegava a missão de batalhar com um outro curso, através destas mesmas canções, sob pena de, se perdêssemos, termos de encher (mais!) ali, no mato de Monsanto. Basicamente, tínhamos de cantar (muito) mais alto que os adversários. Quem ganhou? Sinceramente não me recordo, mas acredito que tenhamos sido nós.

Às seis da tarde, final do primeiro dia de praxe, acabava-se a recruta e, finalmente, era-nos possível olhar para qualquer horizonte. Já nos era permitido conversar com qualquer EP, como se nada se tivesse tratado, ora olhando nos olhos, ora tratando por tu, ora sentando nas suas capas do traje enquanto todos juntos, num espírito bem universitário e de comunhão, cantávamos e bebíamos cerveja ou sangueira no bar do estádio universitário. O primeiro dia de praxe estava ultrapassado com um balanço positivo e já se ansiava para o dia que se seguiria. Mas agora, era tempo de para as aulas ir. Meus caros, digo-vos, esta foi uma das semanas mais duras da minha vida. Faço-vos um resumo da minha rotina: acordar às sete, começar a praxe às oito, acabar a praxe às dezoito, ter aulas até às vinte-e-duas e trinta, ir para casa, jantar e deitar à meia noite, com dias inteiros a fazer exercício físico sob calores abrasadores, com refeições confinadas a uma bifana à hora de almoço (mas curiosamente, não tinha fome, nem chegada a hora de jantar, tanto era o cansaço), quase sem voz e ainda com aulas pelo meio.

Adiante, dia seguinte, manhã de praxe normal, mas tarde diferente. Era um dia para nos conhecermos ainda mais, mas através de atividades, como o touro mecânico, matraquilhos humanos, variadíssimas danças e outros jogos, tudo dentro do grandioso pátio do ISCSP. Continuávamo-nos a conhecer e a criar vários laços, que se continuariam a fortalecer ao longo do ano, mas as raízes estavam ali, na primeira semana.

Ao terceiro dia, manhã diferente e solidária: fomos ao Banco Alimentar. Ajudámos a empacotar latas de feijão, ervilhas e grão e a organizá-las nas paletes, para que fossem depois dadas a quem mais precisa, após uma breve distribuição de tarefas. Era um trabalho de grupo – tínhamos de colaborar uns com os outros; continuávamos na nossa missão de nos conhecermos “à força”. Que bom, que nostalgia reviver tudo isto enquanto teclo no meu computador aquilo que neste momento estão a ler.



Os dias foram passando. Entre o preenchimento da placa e a atribuição do botão na mesma, muitos jogos foram jogados (passo a redundância) entre nós, caloiros de RI, e caloiros de outros cursos. Aqui o objetivo era perceber que embora pudesse existir alguma “rivalidade” entre cursos (na brincadeira, claro), no fundo, eramos todos “iscsipianos” e após mais várias batalhas de canções, todos gritámos (com a parca voz que ainda pudesse existir), “é I, é S, é CSP”, repetidamente. Parece que estou a ouvir…

Chega a sexta-feira – último dia desta complicadíssima prova -, “Filinha pirilau” e a cantar(!), desde o ISCSP, até ao parque Keil Amaral em Monsanto. Tínhamos agora a derradeira missão desta semana: a “battle” contra o curso de Administração Pública. Ali só nos restava a árdua tarefa de cantar como nunca, até à última corda vocal, até ao último ar no pulmão. Tínhamos de dar o tudo por tudo. Era o nome de RI que estava em causa – tínhamos de defender o nosso curso; tínhamos de ser os melhores. Já era clara a união entre todos! E assim, todos, EP´s e caloiros, de cabeça erguida, com os nossos braços em cima dos ombros uns dos outros, gritando, batendo o pé com a máxima força de forma a levantar poeira e com os olhos bem focados nos adversários, fez-se algo que nunca antes vivenciara, fazendo-se história na minha vida! No fim, exausto, encarnado, transpirado, rouco e coberto de pó, sentia-me realizado!

E assim foi a minha primeira experiência de praxe. Digo primeira, porque, de facto, continuei nesta aventura até ao mês de dezembro, até ao dia do apadrinhamento, dia em que decidi dar por terminada esta minha caminhada. Para mim já era suficiente, já não me fazia sentido. Mas isso não desenvolverei.

Como eu recordo o final da primeira semana no ISCSP, com gente a chorar com o cansaço; mas era um choro bom! Era um choro de realização, de tarefa cumprida! Tínhamos ultrapassado aquilo tudo! Sentíamo-nos em casa! Sentíamo-nos em família…

Se leram tudo, neste momento já devem ter percebido que guardo com um enorme carinho esta minha primeira semana no ISCSP, tanto pelo que passei e ultrapassei, mas sobretudo, pelas amizades que criei.

Por favor, não digam logo que são anti praxe, tendo por base apenas aquilo que ouvem. Presenciem, vivam. Ninguém vos obriga a lá estar! Mas apelo-vos, tentem fazer toda a primeira semana de praxe, pois posso-vos garantir que nunca se irão esquecer… Vá, pelo menos apareçam lá no primeiro dia para tirarem as próprias conclusões… Deus deu-nos o livre-arbítrio para alguma coisa! E lembrem-se, estão sempre a tempo de desistir e jamais, em qualquer circunstância, poderão sofrer de qualquer tipo de abuso.

Agora, no fim de tudo isto, pergunto se acham que sou contra ou a favor da praxe? Tirem as vossas conclusões.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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