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A tua agenda está mais preenchida, riscada, sublinhada e rasurada que qualquer pedaço de arte abstrata que alguma vez tenhas visto. A tua caixa de e-mail está abarrotar de tantos convites, avisos, declarações, subscrições e atualizações. O telemóvel recebe mensagens novas a cada quinze minutos e nem te lembras da última vez que viste a janelinha do Skype da cor da barra de ferramentas, porque está sempre cor de laranja. Já perdeste conta aos trabalhos, cujos prazos nem sequer conheces, que tens de entregar – sendo que uns deves enviar em versão digital, outros em versão papel e outros em ambas as versões.

Nem sabes quantas horas dormiste na semana inteira, quantos cafés bebeste nas últimas duas horas – só sabes que, olhando para o caixote do lixo, vês latas de bebidas energéticas que parecem não acabar -, e nem sabes sequer quantas saídas já recusaste porque tens frequências nos próximos cinco dias e sentes que nada sabes sobre as cadeiras delas. Aliás, já nem entendes sequer o sentido ou a necessidade de setenta por cento das cadeiras. Às vezes, por entre os cafés e as cabeçadas no tampo das mesas, ainda te consegues lembrar do nome daquele teu colega que no outro dia te emprestou uma caneta, porque perdeste a tua no autocarro que quase ias perdendo. Era a tua caneta da sorte e tens a certeza que tiveste má nota na frequência precisamente por tê-la perdido.



Só para piorar, sabes que daqui a nada o curso acabou, a vida universitária não foi nada do que sonhaste e vais ser atirada para a vida real sem saberes absolutamente nada sobre ela. Sabes, também, que o curso que estás a tirar pode determinar o teu futuro. Que podes não ter feito a escolha que o mercado de trabalho exigia, mas fizeste a tua escolha e não te arrependes. Por isso, entre suspiros e palavras de auto-encorajamento, dás mais um gole no café quente e agarras na caneta nova que compraste na papelaria do bairro, e pões mãos à obra.

Nota Final: Escrevi este texto em 2015, quando iniciava a minha jornada no mundo do ensino superior, enquanto caloira de um curso de multimédia. Ao longo da licenciatura, só me identifiquei com estes palavras um número bastante limitado de vezes, já que o meu curso era essencialmente prático, tive poucas frequências e consegui organizar-se suficientemente bem para raramente estar em pânico. Mas, no que toca a algumas partes, identifico-me agora – agora que estou num mestrado da área das Letras e com um elevado nível de trabalho. Quando o escrevi, não pensei que se viria a concretizar, mas estou simultaneamente surpreendida e feliz por ter acontecido. Por mais trabalho que tenha, noites mal dormidas (ou não dormidas de todo), cafés consumidos ao litro, riscos e rabiscos na minha agenda, vale a pena. Mesmo que o futuro seja incerto, vale a pena.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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