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Viver às Cores: o que a escola não
nos ensina sobre a Comunidade
LGBT+


Junho chegou e com ele chegaram os aromas a férias, os dias mais longos, as tardes mais quentes e as celebrações mais coloridas de todo o ano. Preconizado como Mês do Orgulho, o mês de junho relembra-nos (ou ensina-nos) a luta incansável da Comunidade LGBT+, a sua marcha em direção à liberdade de ser e de viver autenticamente. Este mês celebra lutas passadas, a coragem e a resiliência daqueles que vieram antes de nós, que nos abriram a porta para que hoje nos orgulhássemos daquilo que outrora nos traria humilhação.

Embora seja realmente eufórico ver toda a gente saltitar pelas ruas, os stickers de unicórnio a reluzir das mochilas e os nossos produtos favoritos pintados de arco-íris, não deixem este rainbow consumismo e marketing catito vos enganar – antes de todo este glitter, o #Pride foi um motim.

Aprendemos sobre a Revolução Francesa. Aprendemos sobre o marxismo e a revolução proletária russa que procurava fugir ao domínio e exploração burgueses. Aprendemos sobre os movimentos anticolonialistas e conflitos étnico-religiosos, nações que se queriam ver livres da subjugação e escravização estrangeira. Em EMRC desenhávamos pombas no Dia da Liberdade. Em filosofia debatemos sobre o livre-arbítrio. Porque é que nunca ninguém nos ensinou sobre a luta pela liberdade da Comunidade LGBT+? Porque é que esta revolução multicor é branqueada, passada a ferro e posta numa gaveta para ser esquecida? Será este lado da História menos importante – ou seremos nós mais relutantes em vê-lo?

Vamos agora viajar no tempo – as ruas ociosas e atarefadas de Nova Iorque em 1969. Este café, Stone Wall Inn, servia de ponto de encontro para a Comunidade Drag, que aí podia encontrar refúgio, ainda que escasso, das leis que criminalizavam as suas vidas e personalidades. Mas porque essa liberdade se aplicava a todos os cidadãos menos àqueles que desafiassem o padrão heteronormativo da sociedade, este café era alvo de ataques violentos e perseguições por parte da Polícia. Estes ataques cresceram em frequência e em agressividade, e é aqui que entram as duas figuras mais proeminentes do #Pride, Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, que começaram uma onda de contragolpes e resistência à opressão sofrida.

Estas mulheres encontravam-se na interseccionalidade de identidades (Crenshaw, 2002). Eram duas mulheres trans, de origens humildes, de cor, que habitavam os guetos de condições insalubres e que viviam do trabalho sexual. Esta é a verdadeira cara do Pride. Elas moveram multidões, e hoje multidões movem-se por elas. Quando enfrentaram os polícias que as assediavam e agrediam, elas não tinham nada a perder, e é por essa audácia que hoje lhes devemos tudo.

Será por isso que o sistema escolar se mostra reticente em nos contar sobre as nossas origens, ou pelo menos, sobre as origens da reivindicação dos nossos direitos? Porque não é um capítulo simples e unidimensional que depois de 90min fica arrumadinho?

Em Portugal há muito a ideia de que este tipo de movimentos e opressões só existe do outro lado do oceano. E é por esta camuflagem que falar abertamente sobre sexualidade e identidade de género ou tipologias de relações ou mesmo saúde reprodutiva continua a ser tão tabu. É correto que alcançámos imensas igualdades jurídicas (não obstante haver ainda um longo caminho a percorrer, especialmente no que diz respeito aos direitos trans e não-binárie), mas o evitar comentar sobre ou o desbotar do nosso arco-íris não é o que nos vai levar ao progresso, pelo contrário, é o que mais alimenta a alienação social e a incompreensão resignada das gerações mais velhas.

A escola tem um papel formativo na vida dos alunos. Ensina-nos a ler, a escrever, a contar, a interpretar textos e a pensar criticamente. Idealmente, é a escola que trata de moldar profissional e civicamente os seus alunos. Sendo assim, como se justifica o desinteresse e a carência de informação ou encorajamento à empatia quando se trata da Comunidade LGBT+? A homofobia e a discriminação não são apenas leis que falham a proteger-nos ou comentários de escárnio pelos cacifos. A homofobia sistêmica e institucional vem também da desinformação, do apagamento da nossa História.

Ninguém nos ensinou que em 1902 Egas Moniz, (que recebeu o prémio Nobel da Medicina), defende a visão da homossexualidade como doença e perversão, que irá perdurar ao longo do séc. XX. Ninguém nos ensinou que, a 28 de agosto de 1960, o dirigente do PCP Júlio Fogaça foi preso pela PIDE por estar numa relação homossexual, e logo a seguir expulso do partido. Ninguém nos ensina sobre a primeira tentativa visível de ativismo homossexual, em agosto de 1980, com o nascimento do Coletivo de Homossexuais Revolucionários, “CHOR”, incluindo personalidades como João Grosso, Fernando Cascais ou José Calisto. Ou que só em 1982 que a homossexualidade foi descriminalizada. Ou que só em 2010 se legaliza o casamento gay, e que só 5 anos depois é que será permitido o apadrinhamento ou adoção civil de crianças por casais do mesmo género.

A educação sexual continua heteronormativa, a ter o casal hétero como padrão. Para os casais que queiram saber como melhor se protegerem sem o uso do preservativo masculino, ou mesmo as pessoas trans e não-binárie que queiram saber lidar com a disforia corporal que a puberdade faz inchar, ou até os adolescentes que se sentem isolados por não sentirem atração sexual; para a criança não cis e não hétero não há uma resposta informativa. Ensinam-nos sobre a existência de pessoas «diferentes», mas nada sobre o que acontece quando és essa pessoa «diferente».

E claramente nunca ninguém nos ensinou sobre Gisberta Salce. Emigrante brasileira, Salce veio para Portugal em busca de melhores condições de vida. No entanto, acabou por se encontrar sem-abrigo, seropositiva e no ramo de trabalho sexual nas ruas do Porto. Salce foi tragicamente agredida e violada durante dias por um grupo de rufias menores de idade devido à sua transsexualidade, até ser encontrada morta, num poço, a 22 de fevereiro de 2006. Este devia ser o Stone Wall português. Este devia ser um capítulo nas aulas de formação cívica: as consequências muito assustadoras, porém muito reais do preconceito. Desde as suas origens à sua identidade de género, passando pelo seu estatuto social e saúde, (tendo em conta o estigma social que acompanhou o deflagrar da pandemia da SIDA no seio da Comunidade LGBT+), Gisberta Salce devia ser relembrada pelo que foi: um símbolo de uma revolução.

Porque o desconforto de uns não devia ser motivo de inibir o autoconhecimento e crescimento de outros; porque a escola devia ser um lugar inclusivo e seguro; porque negar uma parte da nossa história não só vai completamente contra o intuito da escola enquanto instituição académica, mas também nos induz para uma corda bamba a um desequilíbrio de distância dos totalitarismos; e porque a nossa História enquanto nação é mais bonita a cores, o #Pride continua a ser um motim.

Orgulhem-se dos sítios de onde vieram e orgulhem-se dos sítios onde ainda irão. E mais importante, lembrem-se que a nossa voz, o contar a nossa história, é um ato de rebelião.

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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.

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