Enquanto a política nacional é um “grito de claques” , na universidade, o associativismo obriga ao diálogo real. Os Estudantes não querem “jogos de bastidores” , querem cantinas a funcionar e salas de estudo . O associativismo é a última escola de política séria antes do “circo” partidário.
Assistimos hoje a uma “futebolização” da política nacional. O espaço público transformou-se num campeonato de claques, onde interessa mais “quem ganha” do que “o que se propõe” e onde o debate é dominado por soundbites, hostilidade tribal e casos de bastidores. No entanto, existe um lugar onde a política resiste a tornar-se um mero espetáculo e onde o foco continua a ser resolver a vida concreta das pessoas: a Universidade.
Ouve-se frequentemente que os jovens estão alienados, desinteressados ou apáticos. É mentira. Os Estudantes não estão alheados da política; estão apenas cansados do circo e focados na sobrevivência.
A diferença torna-se gritante quando descemos do abstrato para o concreto. Enquanto na esfera mediática se perdem semanas a discutir polémicas estéreis, no Associativismo Estudantil a discussão é urgente e palpável. Aqui, discute-se se um estudante consegue suportar os 518€ mensais que custa, em média, um quarto em Lisboa , ou se tem onde fazer uma refeição digna quando a cantina fica a mais de um quilómetro da faculdade, tornando impossível almoçar no intervalo das aulas.
O associativismo, na sua melhor forma, não permite esta “futebolização” porque os problemas reais não têm clube partidário nem cor ideológica. A falta de salas de estudo, a necessidade de apoio à saúde mental ou a defeciente ação social afetam todos. É verdade que muitos dirigentes associativos têm filiações partidárias e que existem rivalidades intensas entre associações e federações. Mas, no final do dia, perante as grandes causas, caminhamos lado a lado para resolver o que realmente importa.
A história da nossa democracia já nos deu provas disto. Houve um tempo em que as juventudes partidárias souberam olhar para além da cor da camisola. Basta recordar como António José Seguro, então na JS, e Carlos Coelho, o seu maior rival na JSD, foram capazes de contrariar as lógicas dos seus próprios partidos para presidir juntos o Conselho Nacional de Juventude (CNJ). Se nessa altura foi possível unir esforços para criar um órgão que é, até hoje, fundamental, porque não o fazemos agora com mais frequência? Unir uma faculdade, ou qualquer outra academia, significa respeitar cada realidade e perceber que, sozinhos, mudamos pequenas coisas, mas juntos transformamos as instituições.
Esta “escola de cidadania” tem uma vantagem sobre a política nacional: a proximidade obriga à responsabilidade. Uma Associação de Estudantes tem de ser “próxima, transparente e humana”. Se um dirigente estudantil falha ou mente, não se esconde atrás de um comunicado de imprensa ou de um filtro nas redes sociais; no dia seguinte, cruza-se com os colegas nos corredores. O escrutínio é imediato, presencial e humano. Não se pode simplesmente fugir da realidade quando ela nos bate à porta da sala de aula.
E quando o tema é relevante, a mobilização acontece. Vemos essa força no Dia Nacional do Estudante, nas lutas pelo direito à habitação e na defesa de uma ação social justa. Mas é preciso cuidado. Se não protegermos este espaço de debate sério e se deixarmos que o sectarismo contamine as academias, os Estudantes também serão engolidos pela polarização. A Universidade tem de continuar a ser um espaço seguro onde todos sabem que têm voz.
A política nacional devia aprender com o associativismo estudantil: precisamos de menos ruído e de mais resolução de problemas. É certo que o movimento associativo também tem as suas falhas e os seus próprios problemas internos, mas mantém o foco no essencial. Defender o Ensino Superior e o acesso aos recursos básicos é defender a qualidade da nossa futura classe política e, em última análise, o futuro do país.
Se queremos limpar a política do fanatismo de estádio, temos de começar por valorizar quem, nos corredores das Faculdades e Politécnicos, ainda acredita que a política serve para mudar a vida das pessoas e não apenas para derrotar o adversário. Pode parecer ingénuo e idílico, mas é este o espírito de quem não baixa os braços e não vira a cara à luta.
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Este texto faz parte de uma série de textos de opinião de alunos do ensino secundário e superior sobre a sua visão do ensino e da educação.
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