Professores pedem proibição da IA no Ensino Superior: Alunos transformados em “cretinos digitais”

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Um grupo de dezenas de docentes de universidades e politécnicos portugueses lançou um manifesto que exige a suspensão imediata da Inteligência Artificial (IA) generativa nas salas de aula. O documento alerta para um cenário de “empobrecimento cognitivo” e fraude generalizada.

O “Manifesto contra a ‘inteligência’ artificial generativa”

Subscrito por 28 académicos de renome — como Viriato Soromenho-Marques (ULisboa), João Teixeira Lopes (UPorto) e Raquel Varela (NOVA) —, o texto defende a necessidade de banir chatbots e modelos de linguagem dos processos de ensino-aprendizagem.

Os professores utilizam termos fortes para descrever o impacto da tecnologia:

  • “Cretinos digitais”: O manifesto argumenta que o uso da IA destrói a curiosidade intelectual e o entusiasmo pelo conhecimento, substituindo o esforço pela “fábrica de lugares-comuns”.
  • Saúde Mental: O documento associa o uso destas ferramentas ao aumento dos níveis de ansiedade e ao declínio da saúde mental dos estudantes.
  • Incapacidade de Avaliação: Os docentes admitem que, perante o “dilúvio digital”, é cada vez mais difícil distinguir o trabalho autêntico da fraude e do plágio.

O grupo critica ainda as instituições de ensino superior que, por “receio de perder o comboio do progresso”, adotaram políticas que classificam como “suicidárias”, baseadas em regulamentos e workshops que consideram ter eficácia nula.

 

OCDE alerta para a “preguiça metacognitiva”

As preocupações dos professores portugueses encontram eco em dados internacionais. O recente relatório “Digital Education Outlook 2026” da OCDE revela resultados preocupantes sobre a retenção de conhecimento.

Um estudo realizado com estudantes universitários demonstrou que:

  1. Os alunos que utilizaram IA generativa obtiveram melhores notas imediatas.
  2. Contudo, apenas 12% desses alunos foram capazes de citar uma frase do seu próprio trabalho uma hora depois.
  3. Em contraste, 89% dos alunos que não usaram IA conseguiram recordar o que escreveram.

Este fenómeno é apelidado pelos investigadores de “preguiça metacognitiva”: a facilidade da ferramenta elimina o processo de reflexão necessário para a aprendizagem real.

Governo recusa proibição e apela à adaptação

Apesar da pressão dos académicos, o Ministério da Educação não parece inclinado a banir a tecnologia. O ministro Fernando Alexandre defendeu esta segunda-feira que a IA é uma “realidade que não pode ser ignorada”.

O que temos de fazer é, com essa mudança tecnológica, ter a capacidade de aproveitar as oportunidades, seja com a formação de professores, alteração de métodos de ensino ou dos currículos”, afirmou o governante.

Para o Ministério e para a própria OCDE, o caminho deverá passar por tornar a IA um instrumento complementar, maximizando os benefícios (como a produtividade e o apoio à pesquisa) enquanto se criam estratégias para minimizar os riscos de fraude e a perda de capacidades críticas.